''V , f . , ^r• J, ' •/^-r"- 5^' •:i> "'%■ *- >»»■ al?^-^iDj* MEMORI AS D E AGRICULTURA PREMIADAS _ r^ ACADEMIA REAL DAS SCIENCIAS [ ^( i) E LI S B O A. J Em 1787* , e 1788. Ni^i utile eft quod jacimus ftulta eft gloria. L I S B O A: •tA' -T^/ Na OfEcina da mefma Academia Real* Amno Mdcc.lxxxviii. <^om lktni;a da Real Md7.'i da Conmiffcia Geral fol»i Examc , e Cenfiira dos Livros. Vende-fe na loja da Viuva Bertrand e Fillios, JVIercadores de Livros , junto a Igreja dc N. SsnboiA dos Wartyres ao Xiado em Lisboa, =M/ / A R T I G O EXTRAHIDO DAS ACtAS D A ACADEMIA REAL DAS SCIENCIAS, da SeffaC de iz de Agofto de 1788. P Ermite a Academia ^ que fe tirem do feu cartorio copias das quatro Memorias de Agricultura , que for ao premiadas nd anno pajfado de 1787. , e no corrente ^ para fe imprimirem na fua Officina ^ e debaixQ do feu Frivilegi§<, Jof^ Corr^a da Serr^ Seoretario da Academisi 11 P B. ci<= P R O L O G O. N O Programma de ^ de Outuhro de 1 78 1, tinha a Academ'ta propojlo para anno de 1784. a quejiao fcguinte. Qual lie o methodo mais conveniente e caute- las necefTarias para a cultura das Vi- nhas em Portugal ; para a vindima j ex- tracfao e fermenta^ao do mofto \ confer- vajao e bondade do Vinho , e para a me- Ihor reputa^ao e vantajem deile impor- tante ramo do nollo Commercio. Adveriio ao mefmo tempo a Academia , que nao premlaria Memoria alguma , cm que feu Autor alcm da theorica indifpenfa" lie I para a digna fatisfa^ao dcfte ajfum-' pto , e aleni da indaga^ao e compara^ao das obferva^oes que fe achao efcritas , nao expuzejje taSbem experiencias pro- prias , pela maior parte felt as em gran" de , ou por elle , ou por pejfoas nomeadas e Jidedignas. A/em dcjlas condi^oes , mof-' trou a Academioi dezejo , de que os Au^ tores indicajfem as diverfas vari^dades de cepas com os feus names triviaes , a propriedade de cada huma a refpeito da quantidade e qualtdade do Vinho que prO'^ duz , qual terreno conveniente , os in-^ p^Qs que Ihc fag nniiios ^ s iudo eut fim jim quant concorrejjc a aperjei^oar entte -nbs cjla tad ut'tl cultura. Entre os papeis que vierao a concur-^ fo no anno de 1 784. , nenhum foi julga- do d'lgno dc fer premiado. Tomoif-fe a proper mcfnw ajftnnpto pard 1787, com prtmio dohrado , ifto he de ioo^oooi rets , e ainda que das Memorias que con-* corrcrao , nenhuma fatisfizejje completa- mentc ao que a Academia pedia , com tu~ do julgou-fe mereccdora de aten^ao a Me~ vioria de Joie Veriifuiio Alva res da Silva , que he a j. rimeira dejla coilec^ao , por con- fer muitas couzas uteis 5 e por confe- guinte refolveo a Academia premialla com premio ordinnrio ; tornando a propor a mcfma quejlao com mefmo premio do^ hrado para anno de 1790. Huma pejjoa que nao quiz ahfohita- mente fer conhecida fez rennet er em 1783. , no Sccrctario da Academia a qudntia de itnti' inoedas , para fe darem d Mcmoria que inelhor Catisfzcffe afegvinte queftao y import antijfima para os progreffos del Agriciiltura. (^lacs fao os meios mais convcnientcs de fiipprir a falra dos ef- trumes aniinacs , nos lugares onde lie dif-' ficultozo havellos ; averiguando-fe parti-' cularmcnte fc o revolver e' expor por va- Fias vezes a rcrra a influepcia da at-*' piopfera , feri hum modo fufficiente de fer-' tilizalla , i^niXo tudo comprovadx) com re-^ I petidas e autorizadas cxperlencias. AAca- demia propoz o affmnpto no Program-^ via de i-ij de ^ulho de 178:5. , para fer julgado no concurfo de 1788. Varlas Memorias concorrerao parA premio , entre as quaes duas fe dif- tinguirao , mas como nao ohjlante co~ 7ihecido merecimento de amhas , nao faffs- faziao intciramente ao que fe rc'queria julgou a Academia repartir premio en- tre as duas Memorias , caroando por ejle modo OS talentos , e luzes dos dois Auto- res , ( Manoel Joaquim Henriques de Pai- va , e Joze VerifTimo Alvares da Silva ) 7nas tornou a propor a queftao com ynef- mo premio , para fe dar Jem reparticao no anno de 1791. ao que fatisjizer ple- namente ao quefito , e de outro modo nao. As Memorias premiadas fao a fegunda e terceira defta collec^ao. Depots do concurfo acahado chegou as maos da Academia huma muito efti- rnauel Memoria fob re mefmo affumpto , c logo que fe pode faher nome do Au- tor , determinou premiallo com huma fe- rie das medMlhas da Academia em pra- ta e com a carta de feu correfpondente , mandando que efta Memoria fe imprimif fe com as outras. He a quarta e ulti- ma dejia collec^ao e feu Autor Conllati- tino Botelho de Laccrda Lobo. ]VIe- M E M O R I A SohrQ a ciihura das Vinhas ^ e fohr^, OS Vtnhos, VOK JOS E VERI3SIMO ALVARE5 DA SIL VA, ^VVV\A--- • vyvYYV yvvvvvyy vyvvvV.-yv\-vvvvvyvyv"y^;(V yy v\->.v V V y y •. v \. v y\ ;• v ?S'=^^;?^5J:^='^=;^=: P R O E M I O. Ntre OS diverfos ge-Utnida^ iieros de bebidas , que vl'.ij'Jj'; fe extraem dos fniiflos das plantaG para d vidii do homem , nao ha iie- tihiiraa mais generica 3 nem mais eili- mada , que o Vinho. Eire licor tao loir- vado pelos antigos Poetas , tornado com moderajao , nao i'6 conferva a faudc com robullez j porcm prolonga a vida , reproduz as fore as perdidas , e cura infinidade de doenjas. Si Paulo o recomenda a Timotheo por cauza de certa enfermidade do eftomago. Hypc- crates , Galeno, Hoffman 3 e ourros ce- ^ iebres Medicos Ihe. dao louvores prO~ porcionados as utilidades , que elle pro- cura ao genero iuimano. O Vinho con- fiderado como objefto do Commercio he hum dos ramos mais extenios , que podem ter as Na0es , que vivem nas zonas tcmperadas. A excluzao , que a naiurezii fez defte genero nos povQs A fep- ' t Memorias Septentrionaes , merece , que as outras Najoes , que o pofTueni , ponhao todo o cuidado na fua cultura. As riquezas fainigeradas , que os Reys antigos Por- tuguczes poiruiao antes da aquifijao das colonias , provinJiao das grandes extraccoes , que fe fliziao deile gencro naquelles tempos. ( I. ) E ilFo pois nos conduz a examinar, qua! he o methodo mais conveniente , e cautellas necef* farias para a cultura das vinhas em Portugal ; para a vindima , extracjao , e fcrmentajao do mofto , confervacao , e bondade ; dos Vinhos para melhor reputajao , e vantajem deile impor- tante ramo do noffo Commercio. CAPITULOI. Da natureza da Videira, ?c,*/rd3 ^ \T -^1"^^^ zQiXiti a Videira no nu* Videira, V mcro das arvores : a ifto deu lugar OS troncos de Videiras pfodi- giozas , de que a Antiguidade nos dei- xou mcmoria. Em Populonia havia hu- riii' eftatua de Jupiter feita de huma fepa de Videira : cm Metaponto as colum- nas , que luftiniiao o Templo dc Juno , era 6 de ramos dc Videira : Chypre era o Jugar, ondc as Videiras ehagavao k liitma altura , e groiTura extraordinariaA ( II. ) He certo porem , que a Videira fern o apoio de outras arvores riao fe eleva ; por^m crefce , e lan§:a feus ramos pela terra a maneira de hum grande nu- mero de ervas. A natureza formou os ramos das Videiras cheios de gavio- ens J com os quaes a maneira de maos ellas fe arrimao , e vao crefcendo junto a tudo , que encontra6. A flor da Vi- deira he em f6rma de roza, compofta de cinco petalos , e guarnecida de cinco eftaminos , ( III. ) no meio dos quaes efta hum peftilo ( IV. ) , que elles fe- cundao , e de que fe fbrmao os bagos* As differentes efpecies , que fe tem achadoj fao tantas, que ja Virgilio dizia: S^d nequB quant multde fpeties , nee no^ mtJta qu£ fint , ^fi numerus : neque emm numero com- prendere refert. Georg. II. verf. 1031 Eile as deftingue pelas terras, ondeDirTereri. OS Vinhos erao famigerados ; pelas qua- ^^^5^^^^*' lidades de terrenos, em que meihor pro- videi-. duziao j pelos lugares , aonde tmhao fi- "•*• do transferidas j ( V. ) pehi quantidade de Vinho , que davao j &c. Boerhaave conta as feguintes efpecies de Videiras : h Vitis fylvejlris labrusca. ^* Vitis vinifera , ex cujus uvis jA ii ^i'^r* 'if M E M i^r a's ' acerhh immaturis omphacimn cxprt" mitur. III. Kitis Corinthiaca , five Apy- r'lna. ' IV. Vitis Appiana. V. litis Pfrgiilana, VI. Virir folio Apii. VII. Fitis alba dulcis. VIII. Vitis frontiniaca, IX. litis nigra dulcis. X. Vitis imiltipJex alia pro dii)er-^ fit ate , qUc'e ohtinet in acinis rations coloris , faporis , magnitudinis adnio^ dum rarid' , cultuqtie induftrii vindi-^ matoris femper nova. XI. Vitis quinquc folia Canadenfs fcandens. XII. Vitis vulpina dicta Virgin niana alba. Dar a cada huma deflas efpecies os feus nomes triviais , he huma das cou- zas mcramcntc impo/Tiveis. A cauza he, porquc nao 16 cm huma meliua pro- vincla , ou comarca variao os nome^ das Videiras ; mas de Juima terra a ou* t'"a , c as vezcs na piquena diftancia dc huma legoa. O que na Beira he Malvafio , na Eilremadura he , o que fc chama Cachudo j e o que he Mai-* valio em certas terras defta provincia, em outras , c bcni vezinhas, ne>, o que [chamao Olho de lebre. As deAgricultitra. 5" * ^ As Videiras podem fer divididas "iffeien- pelas folhas ; pelos loros das vides , v\lnsT, pelos quaes no Inverno coniieceiii os nue re trabalhadores as diverfas callas de Vi- ^f°^^^'^ deiras ; pela figura das uvas ; peJa cor , &c ; porem nenJiuma deilas devizoes , que fe podem fazer , caracfteriiadas com OS nomes triviaes de algumas ter- ras , pode facilitar as regras , e percei- tos , que ha para fe beneficiarem os Vi- nhos. _ ^j,3„ 4 As uvas mais aptas para mofto I'^io as fao aquellas , cuja pelicula he mui de- e'r-edes* licada j as que fe paflao com facilidade; de vi- as que fao muito faborozas. ( VI. ) A '■^"'''' razao )unta a expenencia aliim o mol- \ ini.o. trao. As caftas de pelicula delicada fao , -^ fis que mais de prega , e melhor ama- durccem. O Sol as penetra com mais taciiidade , e faz perfeiramente nellas a primeira coccao. Efta he a razao , porque o Vinho das vinJias vclhas he melhor , que o das iiovas ; o das ter- ras pcdragozas , areentas , e altas , do que das terras baxas j dos outciros , do que o dos vales , e lugares Ibm- brios. As vinhas novas trabalhando com huma grande abuiidancia de feva , os fuccos , que pallao aos caches , fao mais groceiros , e por confequcncia menos aptos para reccbcrcm a primeira oc- ^ Memohias cocgao dos raios do Sol , que tambem fao impedidos pelo grande numero de folhas , e ramos , em que a bundao as vinhas novas. As terras pedragozas , e areentas tern a mefma razao. Os raios do Sol , refledindo das pedras , e areas aos caches , vera com maior vehe-« mencia ; e por iflb o maduro da uva he com maior perfeijao. Nas terras altas , e baixas ha tambem a mefma cauza ; naquellas os raios do Sol durao por mais tempo y ncftas menos ; e d'a- qui a madureza da uva a proporjadi do calor do Sol. A experiencia concorda com a ra- zao : nos vemos, que aquellas terras, que produsem uvas inlipidas y e dif- iaborozas , eilas produzem Vinhos fra- cos J e inlipidos j pelo contrano aquel- las , que criao uvas de gofto excel- Jente , eifas dao Vinhos de boa quali- dade , e gerierozos. Ellas notas , com que cara(fteriza- moo as uvas aptas para darem Vinhos bons , fe achao nas clalTes triviaes , o que em algumas terras chamao Fernao- Pires , Caxudo , Malvazia , Almafogo , Italia , Caftellao, Tintoreiro , Tinta de Franca , Prcto-Martinho , Baftardo. ( VII. ) He verdade , que entre ellas cafos ha humas , que primeiro amadu-« recem , DE At^RICULTUR A. 'f receth , donde nafce o inconveniente de fe acliarem pafladas , quando as mais fe vindimao j porem elle incon- veniente fe pode remedial- , fazendo vi- nhas feparadas , que fe vindimem a tempo • feparando as paflas , para dar o vifcozo doce necefl'ario ao Vinho j, de que ao depois fallaremos. C A P I T U L O II. Da cultura das Videiras. 5 1\T ^s cultivamos as Videiras de Difleren* ■ 1.^ differentes modos. Arrimadas j^p'/j°" a arvores , em parreiras , ou latadas , cuitivar e em vinhas. Cada lium d'eftes me- ^^ Videi-< thodos produz difFerentes Vinhos \ requer differente poda , e cultura. ( VIII. ) 6 Toda a efpecie de arvores he viaeiraf apta para fe Ihe lancarem Videiras ; ''^ E'"- porem as que mais convem as Videi- .^ ^j^ie ar- ras fao aquellas , que crefcem em pira- ^ores fe mide : taes fao os CJioupos , as Faias , ^eUa'r! OS Caftanheiros brabos : as Videiras fe^ apoderao com facilidade da arvore ; e OS raios do Sol penetrao as uvas de- faflbmbradas \ o que principalmente concorre para a fua madureza. ( IX. ) O lavrador, que por alguma razad qui- ?^ Memorias qiiizer uzar dos Carvalhos , Sobreiros^ Salgueiros , Amieiros , deve-lhes dar cortes , e faze-los crefcer em pirami- des , fepara-ilos em dillancia propor- cionada , a que-lhe entrem os raios do Sol. Como_ ^ J ^s ViJeiras , que fe lan^arem as as viJei-arvores , devem ler Barbados ; ifto he, ras de baccllos , Guc Icvcm alguinas raizes. A rudo. razao he , porque , coilio a terra nao fica mexiJa por todas as partes , como nos bacellos , paraque as tenues raizes dos bacellos polTao facilmente pene- trar , he prccizo algumas raizes , qu« tenhao niais forja para iuccarem a le- va , coin que a Videira crefce. E , co- mo a arvore com as fuas raizes , e fombra tern empobrecido a terra , que Ihe elta chegada , convem lanjar a Vi- deira mais ao longe , e ajuda-la com. algiim adubo , que Ihe nao chegue as raizes , pelas razoes , que ao depois ie dirao, Os Barbados , que fe lanca- , rem as arvores , fe devem efcoihiir mui compridos , paraque a ponta fe ap- proxime a arvore , aonde fe quer Ian jar. er- 3 Asefpecics de Videiras, que mais Vidijlras convdm as arvores , flio aquellas, cjue cuiive.n mais a bundao no vifcozo doce \ por- ''kT'^' 4^^- OS mui^os , e grand.cs vamos , coinL, cue -md 9D DE Agricultural 9 que ficao as Videiras , fazem abundar o moflo em partes aguozas. ( X. ) fe a cafla das Videiras por fua natureza abunda ja nellas , vem a concorrer duas couzas para produzir hum mofto cheio .obrm°' de fleuma , ou parte aguoza , a qual , quando lie iuperabundante , damnifica o Vinho , e prodiiz , o que chama6 Zor- rapa , Vinho fraco , e de pouca con- fidera^ao. Em algumas paites do nof- fb Reino pddao eftas Videiras quazi todos 03 annos. Ella he a pradiica da provincia do Minho. Nas terras mais fituadas' ao Meio-dia paflao-fe annos , que as Videiras_de Embarrado nao fao podadas , nem fe Ihes da cul- tura alguma ; com tudo ellas produ- zem melhor Vinho. A razao he , por- que o Sol as faz melhor amadurecer ;■ pelo que adquirem mais vifcozo doce , que nas terras frias. No anno de 1784. eu provei na Eftremadura Vinhos de Embarrado muito Ibfriveis , os quaes fe vendiao a 800. reis o almude : el- les erao produzidos de Videiras , que , havia muitos annos, nao erao podadas , e de cafras nao muito aptas para a producgao do bom Vinho j como he a Labrufca , de que commummente ufao nos Embarrados. ( XL ) 9 Os, Romanes ufavao muito das Razao » yi- porquft fb '"Memorias t>% Roma- Videiras poftas de Embarrado. O clima' tiTav'^as' s^^ muico apto ; e a abundancia , que muito as produzcm as Videiras de Embarrado , ViJenas j^^ incomparavcl. Acreicenta-fe , que barraiio. ellas le dao Icm maior rabrico , e na-) quellas partes do campo, que pouco oc-^ cupao a cultura de outros generos. Os Piemonrczes ( XII. ) no mefmo terre- ne , que cultivao as Amoreiras , cullivao rambcm as Videiras , enlajando-as de humas a outras Amoreiras , o que forma huma agradavel perfpetftiva. Os Vi- nhos produzidos das Videiras cultiva-' das do lobredito modo fe podem me-^ Ihorar , I. podando as Videiras , e def- pondo as arvores deforte , que ellas re- cebao os beneficios do Sol o melhor , que poder fer. II. efcolhendo aquellas cartas, que mais abundao no vifcozo doce , como iao. =: O Fernao-Pires , o Cafteliao, &c. ( n. 4.) III. Ufando de todos aquelles remedies , com que le diminucm no mofto as partes a- quofas J e elle adquire o viicozo doce , de que ao depois fallaremos. lelatla'a ^^ ^ fegundo raodo de cultivar as de eiieT- Videirds he em parreiras , ou latadas ; ■ "• as quaes ou fao de efteira , que fao aquellas , em que as Videiras de duas alias oppoftas le ajuntao em certa al-. tura y ja em figura quadrada , ja em arco , DeAgRICULTURA. II arco , ou em outra qualquer forma , ou fao em ruas defcubertas ; eftas fe fazem por via de canas , ou paos , que iuftem OS ramos das Videiras enlaja- dos huns pelos outros. As latadas de efteira nao produ- zem uvas deftinadas para Vinho j po- rem fim. para comer. A cauza he , por- que , pollas as Videiras defte modo , as uvas nao recebem do Sol aquelle grao de calor , que era precizo para adqui- rirem o vifcozo doce , neceflario ao Vinho. Alem dillo , como as Videiras fi- cao altas , e de muitos ramos , abun- dao demafiadamente em partes aquo- fas , as quaes impedem o fazer bom Vi- nho J porem he certo , que confervao as uvas fem aquelle doce , que, fendo preci- zo para o Vinho , anoja o paladar. Deile jnodo fe cultivao affim as caftas tem- porans , corno as ferodeas. As Mal- vazias , que em algumas partes chamao Olho de lebre , as Formozas , todas as efpecies de Mofcatel , as Bolotas , as Dedo de dama , as Tameras, as Bar- rete de Clerigo , as Mulatas , as Fer- raes , &c. fao as caftas mais ufuaes , que fe coftumao por em latadas de efteira. II As latadas, que nao fao cuber-i'Stadas tas , porem, que fao difpoftas em ruas jbeJus" fao II M E M O R 1 A S fa6 huma efpecie de vinhas altas. Pe- netradas pelo Sol , ellas priiduzem uvas aptas para Vinho. Todas as calks aptas para dellas fe formar o bom Vi- nno fe dao bem nas latadas ; o mof-»' to porem he mais aquofo pelas razoes ja ponderadas ( i). o. ) ; pelo que de todos OS modes de cultivar as Videiras a vinha he o mais apto para aproduc- 536 do melhor Vinho. Ceovg. J 2 Virgilio recomenda para as vl- 229. " nhas as terras delgadas 'j' e para as Terieno fcaras as terras fortes. ( XIII. ) Os pant' T Fyficos modernos fazendo a analyfe vinha. dos terreiios , onde fe davao os me- Ihores Vinhos , acharao , que eftas erao cheias de pederneiras , de calhaos , de ere , de area ; e que as terras dema- fiadamenre fortes , e barrozas , as de cor negra , e brancas nao erao aptas para a produccao do Vinho : que os melhores Vinhos fe davao entre qua- renta , e cincoenta graos de latitude ; como fao as de Hungria , Hefpanha , Portugal , Italia , Franga , e parte da Alemanlia. Os climas , que eflao acima deiles graos , fao demaiiadamcnte frios para as uvas poderem adquirir o grao dc madurcza , que Ihe da o vifcozo dc- cc , necefiario ao Vinho : os aue cflao abaixo pelo dcniafiado calor Ihc tirad .0 DE AgRICULTUII a; t^ t) gvio de acido , que faz o ponto do Vinho. As terras cralTas , e nimiamente barrozas , a que os homcns do campo ■chamao Barrao , nao produzem tap tons Vinhos ; porque a leva , que ellas dao as vides > he craiTa , groceira , e nao tao bem filtrada , e attenuada , como aquella , que dao os terrenes pe- dragofos. D'aqui provem a differenga dos Vinhos celebrados affim na Anti- guidade , como nos noflbs tempos , o Falerno , o Maflico &c. 1:5 Alem deftas obferva^oes fobre Conti- a qualidade do terreno ,; e clima , a""^'^'^^ J . . r, -f'' ^ dss qua- expenencia moitra , 1. que as uvas lidades aptas para darem o bom Vinho fao '^° *^'^- aquellas , que o terreno Ihes da fuccos convenientes para ellas ferem bem crea- . das j e que a expozijao , em que eftao . faz , que o Sol as amadureja bem. Hu- ma terra nimiamente arida , cujas par- tes pelo calor nao contivelfem fuccos para produzir mais , que uvas miudas , e caxos esfarrapados , efta he incapaz de vinha , por falta de feva fuffici- ente a nutrijao da cepa. II. Quando fe diz , que os outeiros lao os terrenes mais adquados para as plantacoes das vinhas , Btichus amat colles , deve-ie entender com tanto , que os outeiros abundcm em fuccos , que yigorem as ce- pas. "14 -Memorias pas. III. D'aqui fe moftra fer falfk 4 regra , que alguns Authores de Agri* cultura eftabelecein , mandando p6r as viniias longe do rios ; porque a expe- riencia tem moftrado , que os Vinnos produzidos nos montes poftos ao longo dos rios fao muito melhores , que os outros. A razao he , porque a bondade do Vinho nao £6 he em razao do calor do Sol ; porem tambem em razao da nucrijao dos caxos. Para ifto concorreni muito OS grandes orvalhos , que todos OS dias recebem as Videiras levantados dos rios , e por cujo beneficio as uvas vem bem crcadas. Feita a eleicao do terreno , feguece a efcolha dos bacellos* Efcoiha 14 Ja acima dicemos ( n. 4. ) » que as caftas de uvas raais aptas para a produccao de bom Vinho fa6 aquel* las, que mais depreja amadurecemj que fao mais faborozas ; e que fe palla6 com mais facilidade. He oppiniao com-* mum , que as Caftas pretas iao as me- lhores para o Vinho j como porem nos temos caftas brancas , e em grande nu- mcro J que tern as quaiidades requeri- das , o lavrador fara bem , fe dellas uzar : o Vinho em alguma couzJa fe deteriora ; porem a fertilidade dcpen- de muito defta miftura de Videiras* ( XIV. ) As Videiras fao , como as de dos ba- «eUos. deAgricultura. 15- mais arvores , e plantas , as quaes , fe por hum tempo de grandes chuvas fao impedidas , a que o p6 fecujndante entre nas matrifes , legue-fe a eftirilidade. As copiozas chuvas , que efte anno vie- -rao pelo Santo Antonio , fizerao per- jder a mais bem principiada colheita de uvas , que jamais le tinha vifto. As caftas pretas forao , as que mais pa- decerao. O Fernao-Ph-es , como era mais temporao , foi a unica cafta , que ^ icve toda a fua produc^ao. 15 Os bacellos devem-fe efcolher Quaii- dos mais grocos ; efte he hum fignal , ^os bL .que a vide nao he defecada , e he fern ceiios. peco. Ifto he contra a opiniao do vul- go dos trabalhadores , que poem vinhas. Dizem elles , que os bacellos devem fer delgados ; porque iflb he hum iig- nal , que a cepa , donde fahio o bacello , Jie fecunda em dar uvasj e que pelo con- trario as vides gro^as denotao abun- dancia de vidonho ; porem efterilidade de uvas. A razao , e a experiencia me moftrarao o contrario. Ha trez annos, em varias plantacoes de bacellos , que tenho feito , obfervei , que os bacellos , que melhor pegavao , e os que toma- rao melhor crefcimento , forao os mais grojos. A razao convence de iofisma von caufa pro caufa a oppiniao tri- vial l5 • M E M O 1^ t A S vial de preferir os bacellos d^lgadoS aos grofos ; porque a fecundidade d6 qualquer arvore , on planta nao pen- de de ter raaibs delgados j porem fun do vigor , com que a Teva os nutre* Comofe i5 A coni'ervacao dos bacellos, ate* "".15 OS que ellcs I'eponhao, he hum ponto eP- bacellos, fencial para a boa poilura da vinha i fe'^po-^ porque poucas vezes pode acontecer o nhao. irenvfe pondo a propor^ao j que fe Va6 cortando , o que he melhor. A inuita humidadc obftruc os cailaes , pof onde circula a leva ; a falta della produz ^ lequldao nos bacellos > Os quaes, pcrden* do a fua natural contextura , ficao ine* ptos para pegarCm , qUando fao poftos. ( XV. ) Pclo que o lugar , onde forem abacellados , deve fer ral , em que as agoas nao cftagnem ; e, para conferva- rem a humidade preciza , devem ficar enterrados treiz palmos. Deve-fe tam^ bem acautelar muito , quando fe abacel-^ lao as vides , que fe hao de plantar j nao fiquem humas fobre. outras ^ pois de nao haver cfta cautella os bacellos ardem , f a planLaca6 j que delles fe £it, \ fica inutil. O fogo , que , cfpalliando-fe \ em ar livre , nao era nocivo aos cor* i pos , donde cmanava , quando eftes fe : ajunta6, cOncentrando-le hum no outra, ; produz a fua dcitruijao : o Gxemplol da DE AgRICULT tJR Ai \J poftas de feis palmos e meio a feis palmos e meio. Hum lavrador das mi- iihas vizinhanfas apurado na plantajao das vinhas nie dilte , que na6 ufava ja de outra medida , fe nao de fete pal- mos ; e eu creio , que ainda fe podera paflar adiante* Alem das cepas fe vi- gorarem mais difpollas nefta diftancia , ;as uvas recebem melhor o beneficio do Sol tao neceifario para a l^idlura dos bons Vinhos. 10 A regra , que fe deve obfervar ^i^"""^ . !►, J . r -L das fiim- na altura , que devem ter as iurnbas, em ^as. que fe poem os bacellos, he variavel, fe- gunJo OS terrenes. Muitos julgao , que B ii 10 M E jii R I A s o efTencial na poftura das vinhas lie ferem as furribas dc dez , e doze pal-* mos de alto ; porque a fubftancia dos baccllos dependc da profundidade , em que ficao. Ella regra he falla muitas vezcs. Todos os vegetaes crefcem , e fe nutrem em razao do calor do Sol : o feu beneficio entra Jias terras ate certa altura ; mais nas terras areentas ; menos nas teiras dridas j porem , que nao fao areentas ; muito menos nas terras bar- rozas , ou fortes; e entre eftas ainda fe obfervao diiferentes graos. O lavra- dor , que nas bordas do Tejo vir fazer huma furriba de doze , e quinze pal- inos , e em huma terra barroza quizer iazer o mefmo com grandes cuftos , perdera a fua plantajao. As grandes furribas, que fe fazem na terra de area , he para chegar ao fahio ; e a area, co- mo tern inlinitos poros , del ficil paf- fagem ao calor do Sol para ir viviiicar a ultima parte do baccUo. Nas terras barrozas , como as m.oleculas , ou pri- meiras particulas, fizem humas com ou- tras huma contextura forte , o bene- ficio do Sol chega ate certa altura , palfada a qual , o bacello fe obftrue, e apodrece por cauza da feva , que Ihe toca , nao fer apta para o fazer crefcer.'jl Pclo que nas terras fortes cinco , ou ' " qua? DE AgR ICULTTJR A. 21 iquatro palmos e meio de altura , e pal- mo e meio de unhamento faz prof- ' perar bem os baccllos ; nas mais terras a regra deve fer a proporcao da lua conrextura. 20 Os bacellos , qiiando fe langao na ^"i quf furriba , devem no unhamento ficar in- cia'de!.' ciirvados : defte modo , levando a vara vem tk-ai- mais exteniko , as raizes, que faem de to- ?^ ^''""^^i- da ella, fazem mellior crefccr o bacello. A funibas. .altura, em que o bacello deve ficar fora da terra , he de trez olhos ; menos, ar- rifcar-fe-hia o cobrarem-le os bacellos i\o fabrico , que fe da as terras fur- ribadas , em quanto a vinha nao fccha : mais , perderfe-hia entao huma boa por^ao de feva neceflaria a vigorar a vide. Muitos uzao lancar-lhe no unha- mento mato ; outros eflerco ; huma , e outra couza ferve para ddr fuccos as terras , ou fracas , ou empcbrecidas , •muito principalmente , fe a falta de fuc- ■cos he procedida de vinhas velhas , que de novo fe querem por. Deve-fe po- rem acautelar , que o eflerco feja ve- ■Iho , e que nao chegue a vara ; o que fe deve obfervar tambem no mato , o qual nao deve fer verde : por falta def- tas cautelas pode provir hum tal grao de calor a os bacellos , que os deilrua. 31 Nos primeiros trez annos , em po^^^ do quan- "^ 11 Memorias eterce'i- quanto os bacellos nao fechao, a terr^ JO anno. pj.Q(^j^2 , ainda I'em o foccorro de adu- bos , milho , feija6 , meloens , pepinos , melancias , coves , repolhos 6cc. As raizes das planras , achando a terra me- xida , tern extenfao fufficiente para pro- curarem os fuccos , que Ihes fao prccizos para a fua nutrifao. O amanho , que fe da aos generos , que fe fabricao nas bacelladas , ferve tambem de fabrico para as novas Videiras. A poJa do fegundo anno Jie , a que me- rcce maior attenjao. O commum dos Agronomos he de opiniao de deixa- rem qs baceilos em dois olhos y porem a expcricncja tern moftrado , que efta prad:ica nao he melhor , e que as mais das vezes o bacello por cauza della perde a forfa. Todas as plantas , alem da natureza commum , tem iiuma par- ticular , porque fe diverfificao humas das outras : o bom agricultor deve ef- tudar efTa particular natureza , e fe- gui-la, O corte he effencial ao vigor de muitas plantas. Os meloeiros entre n6s poaco, ou nada produziriao , fe nao fof- fem cortados. ( XVI. ) O corte do fe- gundo anno nos bacellos he huma das couzas , donde mais pende o vigor das cepas. Todos os rcnovos do primcira anno deveni ir fora ; e do pao velho f6 bEAcRICULTUBA. 2^ fo fe deve deixar , o que for baflante , paraque os fabricos da terra os rao cubra ; para evitar iflo fe deixa ao pe de cada bacello huma piqucna efcava , a qiial fe entupe ao fegundo fabrico , qiiando o bacello efta Jl4 arrebentado , e nao corre ja rifco de fear ciibeito de terra. Efte mefmo corte fe deve repetir no terceiro anno em todos os bacellos , que eftiverem ainda fracos. Os fortes, e vigorozos devem iicar de dois, trez , ou quatro olhos , os quaes co- mecao a alegrar o lavrador com as permicias dos feus frucTios. 22 No quarto anno , e nos feguin- Po^'i dd tes OS bacellos devem ficar ja a vara , anno.** a qual deve fer proporcionada a fua forca. 23 Desde o fegundo anno , paraosba- que o bacello crefca direito , fe deve """^ a cada hum arrimar hum pao , ou cana , crefcer a que feja atado. A vinlia , que crcfce ^ireitos. torta , nao reccbe com igualdade os be- reficios do Sol j alem da vindima , e os fabricos , que fe ]lie dao, ferem mais cuftozos. Arrnnados a paos fe devem confervar os bacellos , atetjue cheguem a grandeza de trez , ou quatro palmos j e a cepa tenlia vigor , paraque nella altura fe forme em ramos , aos quaes podados cliamao talocns. A 14 Memorias Qua] feia 24 A poda dis vinJias no feu me- pqJ^/"'^ tliodo mais ufado he dc varas , as quaes ficao a cada cepa fegundo a forga , que tern. Eftas ou lao atadas a paos , ou dobradas cada liuma fobre fl , a que cJiamao de rodiiha ; ou em archo , a que chama6 de vara de Juftifa. Todos eftes methodos tern varios inconveni- enres ; porque I. os caxos , que as varas torcidas criao, nao tern o grao de per- feicao, que deviao ter : II. as uvas ficao humas fobre outras , e os ramos crefcem com varias direcjoes ; o que tudo impede as uvas , a que amadu- re^ao bem : HI. a feva nao circula com igualdade por cauza das varias pofturas , que as varas tern ; pelo que a poda a taloens he a melhor , e a mais apra para a producgao dos bons Vi- nhos. Os fuccos nutritivos da cepa circulao fem conflrangimento algum ; c os taloens repartidos com igualdade dao lugar , a que o Sol beneficie as uvas. Deve-fe porem acautelar nefta poda , que os taloens fejao piquenos ; a grandeza de qua fro diedos he a me- dida commum , que devem ter os ta- loens ; porque , fe fao mnis compridos , OS dois ulrimos olhos he , que tomn6 torgi , e djo uvas , ficando os outros inpa^jazes no anno, que vem , de ficarem deAgbicultura. 15* para talones , a que vulgarmente cha- mao vara do Vinho. Peloque , quando a cepa efta vigoroza , deve o podador carrega-la , nao no comprimento dos taloens ; porem na quantidade delles. 25" Quando as cepas fe fazem ve- ihas , e por concequencia a vinha perde as for^as neceflarias para a fua ferti- iidade , podcm-fe reparar , ou cortan- do as cepas junto a terra , ou deitan- do-as que tern boas varas de cabe^a , ou langando mergulhoens , ou eftercan- do-as i e , fe Jie em lugares altos , en- ceirando-as. O corte das cepas junto a terra ^°'"°^* If . . ^ , -> . repaiara' lie hum meio mm to adquado para repa- a vinha Tar as cepas velhas ; podem-fe tambem veiha. enxertar , fe o pao velho admitte enxer- tia ; e entao a cepa fica , como nova. O corte fe deve fazer no Outono , efcavando a cepa alguma couza. O cor- te feito na Primavera ( excepto , fe he para fe fazer enxertia ) corre rifco de lazer fecar a cepa , que fe extravaza em feva. '* 26 O deitar as Videiras de cabeca , ^J'^'g^,/® ID lancar mergulhoes , fao couzas tri- eiiercar viaes , e que todos os trabalhadores ^^ ^'^" fabem. O ellcrco , que fe delta nas vi-' nhas para Ihes dar for^a, pede difFcrentes ^oniideragoes j aili'-n rcfpective ao mo- do. l6 Memorias do , como a qualidade. O modo de ef- tercar as vinlias ou he cobrindo a terra de efterco , e femeando-lhes fa- vas , ervilhas , milho , e outras femeriT tes , que admitao facho ; porque eftas em razao dos fabricos fao as melhores para as vinhas •, ou he fazcndo pique- nas covas junto as Videiras , eftercan- do-as , e lemeando-as j defle modo fe poupa muito efterco y porque as plan- tas , e as mefraa arvores fo gozao do efterco, que efta per to das raizes j o mais io Ihes aproveita^ quando as vanas vol- tas , que o terreno leva , fe Ihes apro- xima , para delle poderem gozar. Todo o efterco he apto para adu- bar as vinhas , com tanto que elle ef- teja bcm cortido ; ifto he , que elJe ten ha pcrdido o maior fogo. Em falta de eftercos podeiTe uzar de cinzas , fo- Ihas de arvores , femear as vinhas de tromocos , e , quando elles eftao no feu maior vigor , cavar a terra de forte , que clles fiquem bem enterrados j ef- cavar as Vidcirj.s , e lancar-ihes terra ' nova y fazer miftura do terreno da vi- nha com outra terra ; v. g. fe a terra he forte , e pegajoza , miftura-la com a ibha , &c. Cava Lias nj Na cava da vinha fe pronoem o lavrauor duas couzas , huma he dif- por deAgricultura. ^7 por a terra para receber novos fuccos por meio do Sol , chuva , e Ar ; ou- tra deftruir as ervas , que haviao de confumir os fuccos neceifarios as ce- pas. Em algumas partes do noflb Reino dao fo huma cava as vinhas na Pri- mavera , a que chamao de montes ; a fertilidade das terras fuppre as faltas de amanlio. Em outras, que melhor cui- tivao , cavao as vinhas a montes , en- terrando-lhes as folhas , que em outras erradamente deixao comer ao gado ; e ^fle fabrico Ihes dao ou no Outono , ou no Inverno j e na Primavera Jhes dao fegunda cava, desfazendo os montes. Se as terras fao aptas para a produc^ao do milho , as vinhas por cauza do feu fabrico goliao muito dcfta fcmenteira. As terras montuozas continuamen-Reme- te vao efcorregando 5 e desfazendo-re||^°'^^^/'*' para os vales ; pelo que as cepas per- vinhas dem a fubrtancia. O meio de remediar j'^'^^j^^;; efte mal he enfeirando todos os annos ti-uao. as vides, que laem das mefiTias Videiras. Enfeirar as vides iie dii'po-las em cor- doens em diftancia de feis , ou fete pal- mos de cordao a cordao. O Sol , as chuvas, e as geadas de hum annofazem, que ellas eftejao capazes de ferem ca- va das no outro ; quando o novo corte da vinha produz tambem novos cor- doens i8 M E M O R I A S doens de vides , que devcm ficar quafi pegados aos velhos, que fe hao de cavar. A vinha tcm duas utilidades dos en- ceiros : I. Icrvem-lhe de adubo , com que a vinha fe fortifica ; II. a terra , que continuamente refvalava ja com as chuvas , ja com as cavas , defte mo- do le fuftcm. Deve-fe porem advertir , que as viiihas de terra alta nao fe de- vem cavar de baixo para cima ; porem de ilharga j porque defte modo as ter- ras nao caem tanto. Temos fallado dos dois principaes fabricos, que as vl- nhas tern , ifto he , a poda , da qua! o melhor tempo he o do Outono ; e a cava , a qual nunca fe deve dar em tempo chuvozo , nem , quando as Vi- deiras eftao em fior. PafTemos a tra- tar das doengas , e males , que padecem as Videiras , entre os quaes o mais principal , e que deftroe muitas vezes as mais bem efperadas colheitas , he dos inl'ecflos. infeaos , 28 Trez fao , os que mais deftroem Jwuem" ^'^ vinhas , o Pulgao ,' os Befouros , os aAin- Caracocs ; porem de todos o que entre ^"- n6s mais damno fez , he o Pulgao , in- fecfto volatil , o qual poem os ovos nas folhai das parreiras , e as enrola : as Lagartas, que eftes ovos produzem, he, o que ao depois mais damiiifica as Vi- dei' deAgricitltura 49 deiras , confumindo-lhes as folhas : efte vem em dois tempos , huma ; a que chamao tempora , e outra Agoilinha , por vir em Agoflo ; ellas tem am- bas a mefma origem ; difFerem fo no tempo 5 em que os ovos do Pulgao fre- mentarao. Remedea-fe de algum modo efte mal , dando caiTa ao Pulgao , e as Lagartas. Muitos cailao o Pulgao, tiran- do as folhas j o que fe deve practical" nas que eftiverem ja enroladas ; pois- que as folhas fao partes efTenciaes para OS fruftos crefcerem bem acondecio- nados. O melhor methodo he por em hum arco huma efpecie de faco feiro de mantas de azeitona , lencol , ou ou- tro qualquer pano. Os ramos , que eftao cheios de Pulgao, fe facodem para den- tro ; e , quando fe tem boa porjao , ou fe queimao , ou fe enterrao para nao tornarem outra vez d vinha. Tambem fe pode caffar o Pulgao em caldeiras , ou alguidares , untando-os de algum liquido pegajozo , como he o mel , o algadrao , &c. A Lagarta, que ao de- pois apparece , que he a producjao dos Pulgoes , que fe nao poderao ex- tinguir , fe deve tirar com menos fo- Iha , que poder fer ; principalmente aquella folha , que eftd chegada ao3 taxos ;, ou proxima ; e toda aquella;, que ei- 1^6 M E M H I A S cfta abaixo. Eu tenho vilto vinhas por falta defta percaujao ainda mals ef- truidas , do que , fe fofTe.n comidas da' Lagarta- Os Befouros palfao o Inverno ao pe das cepas ; e muitas vezes nas vinhas novas Ihes rocin as raizes. Saem em Maio da terra , e entao atacao as folhas , e botoes das Videiras , e no Ou- tone OS caxos para porem ovos. As favas femeadas por entre a vinha fazem, que efle infe^fto deixe as cepas pelas folhas das favas , as quaes fe tirao com cile infeClo para o matarem. Outros poem montcs de efterco pelas vinhas ; e , como efte infedio o bufca de Inver- no, como habitajao mais commoda , no fim do Inverno o tirao , e o queimao para matarem os Befouros. A calTa dos Caracoes he mais facil ; os que perfe- guem a vinha, fao de duas caftas j huns fao fern concha , a que vulgarmente chamao Lefmas j outros fao conchudos ; ambas as caftas cauzao grande def- truigao nas vinhas, roendo-lhes os pim- polhos , e folhas novas. A fua fecun- didade afTun como he grande, ( XVII. ) affim tambem pede a maior attenjad do agricultor. O tempo mais apto pa- ra caiTar os Caracoes he o da madai- gada ; e , f e he tempo de chuva , elles faem logo a primcira noute. As JjeAgricultura: 3r 19 As Videiras afTim como as de Doenqaf mais arvores , alTemelhando-fe aos cor- d«iras.' pos dos animaes ^ tern humas doenjas , ©u por abuiidancia de fuccos , ou por efles fe depravarem , ou por falta del- les. Muitas vezes as Videiras por hu- ma g.rande abundancia de feva nao produzem frucflo , e fe tornao todas em vidonho j outras vezes a feva, extra- vafando-fe do feu curfo, gera grandes tuberolldades na cepa , em que a feva fe confome em damno da Videira. No primeiro cazo o que fe deve ufar antes de tudo he carregar a Videira de va- ras ; fe ainda affmi nao pega em fru6lo, entao efcava-fe , e deita-fe-Uie nas raizes area : defte modo as Videi- ras entrao a fer fecundas. As tubero- fidades , ou calos , tirao-fe com a podoa ao tempo da poda , e nefte meirno fe devem alimpar as Videiras das cafcas velhas , que eilao ao redor da cepa , que fao o alojamento de muitos infe- ctos , e que impedem a tranfpiracao da Videira. Succede muitas vezes na Primave-^ ■i*a efgotarem-fe as Videiras cm feva , de que procede , ou ficarem fracas , ou fecaremj remedeao-fe eftes males, fazen- -do-lhes inclfoens nas raizes groffas , e pondo-lhes borra de azeite. CA- ^1 . M E M R I A S ( C A P I T U L O IIL Da vindhna , fermenta^ao , e confer-* vaCaS do Vinho. Anaiyfe rjo A Ntcfquc cntremos no exatna Cliyjmca ^^ ^g ^^^^ jj^^ ^gl^gg pontes > nho. convem primeiro expor os principios ^ que a Chymica enfina , como confti-' tuentes da efTencia do Vinho. (XVIII.) Os principios conilituentes do Vinho fao : I. hum efpirito inflammavel , a que chamamos Agoa-ardente ; 11. , a fleuina, ou partes aquofas ; III. Sal aci- do tartarco ; IIII. huma fubftancia Hufurea oieofa 5 IIIII. huma fubftancia doce. Segundo a varia combinacao def- tes principios he , que os Vinhos fe dif* ferenfao ; porque em huns fao as par* tes fulfureas mais fubtis ; e em outros mais cralTas : huns tern mais copia de partes aquofas ; outros de efpirito in- liammavel. D'aqui proV^mos differentes Vinhos nao fo de climas , e regioes di-* verfasj mas muitas vezes domefmo fitio. O mofto deftilado produz quanti* dade de agoa infipida , hum pouco de oleo fetido , e hum pouco de efpirito fraco , que he o mefmo , que o ial re- zolvido. A? bE AfiRICULTURA 3^ As uvas, de que fe faz o mofto, con* tern huma fubftancia vifcoza , aqiial pode fei* infipida , acre , afpera , ou doce. Qiiando as uvas na6 contem mais , que huma fubftancia vifcoza infi- pida, ellas nao podem produzir Vi- rho ; porein fim hum licor pouco aci- do , que depreffa fe corrompe. Quando contem f6 vifcozo acre , ellas entao produzcm o Vinagre. As que contem vifcozo aspero , produzem fim Vinho ; porem he afpero, e duro. O vifcozo doce he o apto para produzir o bom Vinho. As uvas reduzldas a liqliido , ou mofto , entrao a fermentar. A fermentacao vinoza he hum mo- vimento mtellino , que le excita nas fubftancias vegetaes mucilaginorozas , cujas partes eitavao antes em repouzo; e ifto exiftindo hum grao de calor , e fluidos competente. As difFerentes partes de hum corpo, penetrando-fe , produzem difFerentes combinacoes , por meio das quaes ^ cef- fando a fermentajao , ou diminuida em grande parte , fica ja outra fubftan- cia. Do que fe fegue , I, que, para ha- ver bom Vinho , he neceflario , que as \ivas ellejao em certo eftado de madu- reza : d'aqui as regras para a vindi- C ma. 44 , M E M O R I A S mil. II., que, dcpendciuio a fermerrtacao do mofto J e Vinho dc certo grao de calor , he neccflario attendcr a certas re- gras affim refpcL'^tive as vazilhas , co- mo ao lugar , onde devcm cflar. 31 O tempo da vindima em algu- mas terras he fixado pclas Pofluras das Camaras ; em outras he depei]dcntc de Accordaos provinciaes das memtas Ca- maras : na maior parte os lavradores tern liberdade ampla para fozerem as fiias vindimas , quando^ quizerem j o que he meliior ; pois os terrenos , c as cartas das Videiras fazem variar muito o tempo apto para [q fazer a vindima. Os lignaes mais gcrdes , que fc coftumao dar para cfte fe conhecer, fao I. , fe as viiihas Ihes cae ja parte das fuas folhas ; II. , fe os bagos facil- mente fe feparao do caxoj III. , fe os pes dos caxos de verdcs fe tern feito pardos : porque , em quanto o pe efta verde , he fignal de que os fucos , que reccbe o caxo , fao chcios de panes aquofas J e que nao tern o vifcozo doce precizo para o Vinho ; o qual fe forma cm maior abundancia , quando OS candes , por onde i'c communicava a feva , I'e apertao , nao dcixando paf- far , fenao huma parte mais atcnuada, Qumdo jMuitos Outoaos fao chuvozos ; deAgrigultura. :55' ^elo que os lavradores fe-vem obriga-""'^^*^^ Gos a fazer as fuas vindimas , fern que^os?'^" as uvas eftejao no pontO de raadureza necelTario ; como no anno pafTado de 1785'. Nefles cazos a regra lie : De dois males efcolher o menor. As chuvas continuas fazem a podrecer as uvas ; em quanto a podrida6 nao ataca, fenao a pelicula , e o carniido do bago fe conferva unido ^ o damno nao he ma- ior ; porem ^ quando a podridao tem entrado por todo o amago dos bagcs , quando as uvas eilao reduzidas a huns foliculos de fungao com algumas par- tes aquozas , o Vinho ou he de huma ma condijao , ou nao fe chcga a fazer por cauza das uvas nao conteremjfe- nao hum vifcozo infipido , inepto para ,fazer Vinho. Pelo que o menor mal he o vendimar, fern que as uvas eftejao perfeitamente maduras , do que intei- ramente podres. Os Vinhos , que o Ja- vrador deve fazer, fio , os que o deVeni guiar na vindima , poisque a cor ver-* melha , ou branca dos Vinhos efti de- pendente da vindima. 3:5 A experiencia tem mofifado^vinji- que OS mais perfeitos Vinhos brancos"^"^^.^^'* fao aquelles , que fe fazem de uvasnhos pretas , as uvas brancas produzem nao'"''"^^''^' iuun Vinho perfeitamente branco ; po- C ii rem ■tj^ M E M R r A s rem fim alambreado. Todo o culdado do lavmdor fc deve reduzir a que as partes rezinozas , que produzem a cor vcrmelha, que cflao juntas apelicula, fe nao delpeguem , e ajuntem ao mofto. E. conio o calor do Sol concorre muito para fazer cfta defuniao , por ilFo os vindimadorcs entrao de madrugada na vinha , e contiiniao a vindima , em quanto o Sol Jiao aquece , c as uvas eftao orvalhadas. Se o lagar efta ao pe das vinhas , Jie melhor ; porque as uvas juntas comecao alguma fermcntafao ; para evitar a qual , as uvas fe devem tranfportar aos lagares , nao em car- ros \ porque ailim o pezo das uvas , como OS grandes balancos, que dao aos carros , conduzem a fermcjitacao ; po- rem em jumentos , cobertos os cellos com parras , e panos molliados , para- que o calor do Sol Ihes nao entre. Logo que chegao ao lagar, fe liies deve dar o primeiro pizo , e p6rem-fe a pezo ; o que nao deve fer por muito tempo. Nos annos , em que as vindimas forem quentes , o lavrador fe deve contentar i'6 com cfle mofto , c do refto fazer Vinho vcrnieliio ; nos annos frios o fegundo pizo pode ainda fervir para OS Vinhos brancos , com tanto que efte pizo nao feja muito cxadio. Efte Vinho, nao r> E A G R I C U L T U R A. 57 nao Je deve ter em ciivas a fazer a pri- fiieira fermenta§:a6 , porem logo fe de- re lancar em toneis. Muitos uzao ta- pailos logo com algumas folhas j illo he , fazer-lhes hum tapume ; porem de forteqiie haja alguma e , vaporacao , paraque o Ar comprimido nao faca ef- toirar a vaziiha. Outros enchem os to- neis de forre , que fique a quarta parte em vazio , e logo os tapao bem j por- que o vazio , que Ihes fica , nao corre nfco de que o Ar fe comprima a pon- to , que damnifique a vaziiha. Tal he o methodo de fazer Vinhos brancos em Champanha , e que alguns dos noifos lavradores tem experimen- tado : nao havendo entre nos pelo commum Vinhos brancos ; porem iim alambreados , a que denominamos com o nome de brancos ; a cauza he faze- rem-nos com as uvas brancas , que de fua natureza produzem hum moftoj que fe aflemcIJia ao alambre. ^54 A vmdima para o Vinho ver-vencH- melho , fc o tempo da lugar , he dif- "\^P'V^ tercnte. (Js vmdimadores nao devem vemie- entrar na vinha , fe nao depois do Sol ^''°- ter aquecido as uvas : o calor he o principal a gente , que faz o Vinho cortado. As uvas devem-fe expor por algum tempo ao maior calor do Sol , o ^2 Memorias o que fe faz commodamente , pon- do-as em cfbciras :, e , fe poder fer , el- las fe devem pizar no mefmo dia 5, poisque o calor ajuda a fermenta^^ao. A nofia vindima fe faz commum- mente colhcndo primeiro as uvas bran- cas 5 e depois as pretas. Os que pro- curao a qualidade nos Vinhos , fazem efcolha de tudo , que he acido , fc- co , podre , ou verde, Huns mandao fazcr efla efcolha , logoque fe vai vindimando ; outros a mandao fazer nos montes , em que as uvas fe deK tao. O primeiro mcthodo he o mais foci! 5 e raelhor , paraque fenao pifeni as uvas ; o que nao he proveitozo pa- ra a qualidade dos Vinhos j porque nas mefmas uvas , conforme os diver- fos graos de pizaduras dos ca^os , ha- veria difFerentes graos de fcrmenta- cao , que , ajuntando-fe a outras cau- fas , deftroem o ponto de perfeicao j, que poderiao ter os Vinhos. Eip algumas partes de Franca fazem a vindima dcftc modo : Na pri- meira coiheita vindimaq lodos os ca- xos , que fao menos fechados, os de gofto mais delicado , e mais madu- ros , efcolhendo-lhes bem o podre , fe- co, c verde: na fegurda coiheita vin- dima 6 OS caxos feghados , e menos ma-» du* D E A G R I C U L T U R A. ^^ f'uros ; e na terceira os caxos verdes, fecos , podres , &c. (XIX) Ve-fe bem, que cfca efpecie de viiidima ha de dar "v^inlios de differentes merecimentos ; e cue as uva-? , que tern Jium vifcozo i:cido, e alpero nao dellruirao aquel- b^ , que tem o vifcozo doce , o que he To apro para a produccao de Vi- riios bons. O calor porem do noflb cli- nm faz cite methodo de vindima dif- j'-iidiozo J e deiheceflario. Huma io cciheita , em que fe faga. feparacao do feco , verde , podre , &c. , he baftante. Deve-fe tambem atiender ao anno ; porque muitas vezes lera neceiTario fa- zer~ duas coilieitas , v. g. no anno pai- fado de 1585' , em que as viudimas fo- rao muito molhadas , e por ella'cau- za haviao uvas , humas podres fungo- zas , que tinhao perdido todo o vif- cozo doce ; outras , que eftavao ainda verdes , e que nao tinliao , ienao o vif- cozo acre ; todas eftas fe deviao dei- xar para fazer fegunda colheita , e fa- zer feparacao do Vinho da fua pro- duccao. Eita a cauza dos macs Vinlios , que tem havido efte anno. A vindi- ma tambem delle anno de 1786 pre- cizavi de duas colheitas , paraque os Vinhos hajao de fer de qualidade. As «huvas do Santo. Antonio nao fomen-s te '^6 Memohias te produzirao a cfterilidade , lavando o p6 fecundante ; porem as uvas , que elcapirao , rccebendo pizadellas das aguas grollas de Junho , ficarao cm to- da a fua creapo , como aleijadas j don- de proveio huns bagos ficaiem intei- ramente fecos , outros verdes , ciitros mctade em boa confiftencia , metade fecos de huma [eva alpera. O Ja- vrador attentivo divia fazer efta colhei-. ta a parte , fe elJe cuida nao em ter abundancia de Vinhos ; porem em os ter de boa qualidade , a qual no ren- dimento excede muito a grande abun- dancia ; porem de inferior condijao. Seja , que fe faja huma , ou duas co- Iheitas conforme o pedir o anno , os vindhnadores devem fer advertidos , que o pe do caxo feja o mais curto , que poder fer; os fuccos, que elles con- tem , fendo em grande quantidade , fe fe communicarem ao mofto , fa6 capazes de fazer perder ao Vinho a fua qualidade ; e , quanto mais com- pridos iao , mais indigeilos fao os fuc-. cos , que elles contem. riverros :j^ A cxtracgao do mofto diveril- doV'^de ^^^ "^^ ^^ ^^""^ Yzzzo de Povos , e extrair Reinos difterentes j mas em razao do« moAo. Vinhos , cue fe pertendem fazer. Ajffi- jna dicemos ( n. 33. ) o modo, comos OS \ deAgricultura. 41 OS Champanhezes extraiao o mofto das uvas pretas para fazerem o me- ]hor Vinho branco. Agora paflamos a tratar outfos diverfos metliodos de ex- traccao , alTim eftrangeiros , como do nofTo Paiz ; e qual deljes he o melhor relativamente ao gofto das Nacoes , com quern commerciamos. ^6 Os vinhos de Ai irierecerao J^^otJo ^ifi pela fua bondade fazer a terra , em que yi^^^oT le fabricao , celebrada. He certo , que de al. a primaria difFeren^a dos Vinhos he em razao dos difterentes terrcnos,em que as Videiras lao creadas ; porem ainda entre aqucUes , que fao a pros Eara a produc^ao dos bons Vinhos 5 a fua ditFerenca : a mcfma , que fe acha V. g. nas terras , que dao bons meloens , ou boas melancias , que de , certos fitios flio melhores , que de ou- tros. Os habitadores de Ai , attendendo a differen^a dos tcrrcnos , ajuntao no lagar hum pizo de uvas de trez , ou ' quatro difFerentes rerrenos : e huma longa experiencia tern mollrado , que efla manobra he, que da a grande re- putajao , que tern tido os Vinhos de Ai. (XX) 37 A_ Hungria tern diverfos Vi- ^^^^ ^/, :ihos y cuja divcriidade precede do mo- vinhos do , com que mauobrac os moflos. O ^',^i ,,"""* \ i" Canirias, 42 Memorias e de Aii-Yinho, que eJlcs chamao EJfens , he d mals delicado j as mezas dos Grandes iao fervidas delle ; e por ilTo fe ven- de por grande preco. Para fazerem efle Vinho os Hungaros fe fervem de huma efpccic de uvas , a que chamao Augjier Tratiben ( XXI ) j porquc ama- dureccni no principio de Agcfto^ Qiiando as uvas eilao mcias paila- das , cntao fe levao ao Ligar , e fc o calor do Sol as nao pode rcduzir ao eftado de meias palTadas , eJles as jnetem em fornos , que com huina branda quentm-a as reduza ao cflado ^ em que haviao de hear com o Sol : cf- te Vinho gafta hum anno em i"c apu- rar : e os lagares , em que elle fe tra- balha , devem fer de pezos grandes 5 poisque o mofto efpelfo , que as uvas , contem , neceffita para a fua extrac- cao grandes forcas. O fegundo genero de Vinhcs , a que chamao Ausuruch oder Beer'vjeis ^ fazcm delle modo : Efcolhidos os ca- xos das uvas mais nobres , fe redu- 2cm no Ligar a moflo ; e , depois de palTados alguns dias de fervura, Ihes Jancao uvas mais pafladas , cuja doyu- ra fe extrae pcla fervura do mofto y o que Ihe da hum fabor muito agra-i davel. o deAgricultura. 43 O terceiro genero he feiro de uvas efcolhidas ; porem fern a miftura das uvas meias palTadas : efte Vin]io he menos doce ; porem efpirituozo. O quarto genero he feito de uvas de todas as callas fem felepo dos ca- xos mais perfeitos : elle Vinho nao ' he de ma condicao ; porem nao he i tao generozo. O Vinho das Canarias , j a que chamao Sut , os Vinhos de j Alicante fao feitos pelo methodo do primeiro , e fegundo genero dos de I Hungria. ( XXII ) j rjS Os Vinhos vermelhos de Bor-j^^oJode gonha excedem aos de Champanlia. vfniios"' Os liabitadores daquella provincia tem verme- melhor methodo de os fabricar , que B'),°t,j'i® OS defla. Os Champanhezes colhem as nhar uvas , quando o Sol ja Ihes tem dado baftantc caior \ no que concordao com OS de Borgonha ; diicordno porem , em que os Champanhezes cuvao as uvas por dois dias , e ao dcpois as pizao : os Borgonhezes pizao-nas pri- meiro J e ao depois as cuvao por trez , quatro , ou cinco dias , e ainda por mais tempo. Defle modo a Borgonha da os melhores Vinhos vermelhos \ porque os Champanhezes, nao tendo pi- zado as uvas antes da cuva ( alem d'eda fer iraperfeita ) fe fe extende a mais de dois 44 Memorias dois dias , arrifcao-fe a que o VI- nho contraia o goflo do engage Pa- ra fe evitar efte mal , quando o an- no he frio , e cluivozo , e por efta cauza OS Vinhos neceffitao de mais tempo de cuva , logoque as uvas fad pizadas , fe facodem os engacos com hum forcado de rrez pontas : defte modo o Vinho fica Jivre de tomar o fabor dos engacos , dos quiies fempre devcm ficar alguns , paraquc , quando as uvas tornarem ao lagar para fazer o fegundo pizo^ os bagos expremidos te- nhao alginna couza , que os una para le porem a pezo. Wetho- ^cj Ja dicemos ( n. 3^- ) que nos conio^fe "^^ tinhamos Vinhos brancos ; porem fazem os fim alambrcados , ou palhetes , a que "h''r^'''^ vulgo chama brancos. O modo de biaiicos. OS fazer he muito fimples. Feita hu- ma exarta feparacao da uva branca da preta , extraido o moilo , fe poem a fcrmentar ; o refulrado he o Vinho palhcre. Os que poem mais algum cui- dado , deitao na fervura hum quarrao de Agoa-ardente por pipa ; outros Ca- moezas , e huma boa maochea de flor deAlccrim.Na Chamufca arrobao-no ; o que he a cauza da docura defte Vi- nho. o qual fe compra a bom pre- $o para ir para o None , e para adu- bar DE AgRICULTI/RA. 'A^ i>ar outros. O methodo de deitar o arrobe na fervura he mclhor, que no trasfego. A fermentacao efpumoza , que faz o mofto, da huma melhor mif- tura das particulas doces do arrobe , do que ao depois a fermentacao in- fenfivel do Vinho. 30 O methodo de fazer o Vinho ^^^^^^^ vermelho diverfifica, fegundo o uzoiho. das terras , e gofto dos lavradores. O cofturae mais antigo , e de que a maior parte ainda hoje uza , he fazer duas colheitas ^ a primeira de uvas brancas , que fempre fao em maior numero ; e a fegunda de uvas pretas. As brancas levadas ao lagar , e extrai- do o moilo , fe poem a fermentar nos toneis ; entre tanto , pizadas as uvas pretas em huma dorna , fe paflao para outra por meio de huma dezenga^a- deira ; ou , pizadas no lagar, fe Ihes ef- colhem os engagos , e ao depois fe deitao em dornas , nas quaes todos OS dias fao mexidas por vezes. Palfa- dos trez , quatro , ou mais dias , fe- gundo fe vc 5 que ellas tingem mais , ou mcnos , fe deitao aos almudes no moilo branco , que efta fervcndo , em niedida de dois almudes a caJa dez. Alguns lavradores achei , que coftumtio deitar a tinta , logoque efta pizada. Ou- 4^ M E M O R I A S Outros uzao ferverem-na em grande^ lambiques , e depois fervendo a lan^ao ros toneis. Ha tambem alguns , que , ferventada a rinta em grandes doinas, Ihe extraem o mofto tinto por huma torneira , pofta perro da bale da dor-^ na j e com efte mofto tinto tingem o branco , e do bagulho fazem Agoa- pe. O methodo , que hoje uzao os maiores lavradores , he , o que chamao de Feitoria. Efte he o melhor metho- do ainda conciderado relative as Na- co^s , com quern commerciamos , que amao Viiihos de coniiftencia. As uvas pretas fao juntranente vindimadas com as brancas j e aftim fad levadas ao Ja- gar. Efte he elpacozo , e tem os ro- davinhos altos. Segundo a quantida- de de uvas , entra hum , ou dois ho- mens dentro a fazer o pizo ; eftando eftes canpdos , entrao outros , e afllm fe vao alternando de dia , e de noite por efpaco ou de vinte e quatro ho- ra^ , ou de quarenta e oito ; o que cha- mao ter mais , ou menos Feitoria : e por efte modo fazem o Vinho o mais tinto. Eftes os diverlbs methodos de extrair o mofto, Ade^a 41 O lugar, onde fermcnta, e fe con- como fe x^i\2i o Viulio , pcdc iium exa'flo cui-» deve i:.- ■' ^ 1^ D E A G R I C U L T U ft A. 47 _dado , ailim em quanto a fua pozi- jao , como limpeza. Os Romanes ti- nhao dilFerentes adegas , fegundo a qualidade dos Vinhos , que fe propu- nhao fazer. Os Vinhos vigorozos , aos quaes elles chamavao Polyphcra ^ expunhao-nos em toneis ao Ar , ao Sol J e a chuva , dcpois de eftaren) trez annos em lugares frefcos. Os Vi- nhos menos fortes fe punhao em lu- gares cubertos , e para os fracos fa- ziao covas , e ccbriao os toneis de ter- ra. Cella vinaria era propriamente , o que nos chamamos adega j e Apothe- ca era hum lugar no cimo das cazas , ao qual era conduzido o fumo , para por meio delle os Vinhos adquirirem mais forca. Os Efcritores Francezes fazem menjao de duas cazas differentes , em que confervao os Vinhos , fegundo as ellafoes , cellier , e celleiro para o In- verno ; e adega para o Verao. Entre nos nao ha mais , que as adegas , ou loges , em que fermentao , e fe con- fervao OS Vinhos. Os noflfos antigos tinhao por preceito na formajao das adegas ficar fempre a porta , ou hu- ma janella , ao Norte \ o que nao fo- mente nao traz proveito algum aos Yinhos j porcm Ihes traz muito dam- no. 4^ M E M O R I A S no. Os grandes frios , e grandes ca- lores lao perniciozos aos Vinhos \ pa- ra evitar eltes males , he , que em al- giimas partes da Franca razem duas adegas , huma quente para o Inveino , a que chamao celleiro \ outra freica para o Verao , a que chamao cave , adega. A nofla cxpozi^ao ao Norte he mais quente de Verao, e fria de Inverno : a razao he clara ; porque , fendo o calor , c o frio em razao da exiftencia , ou falta do Sol , efte de Verao exiile na expozicao do Norte, e faira jio Invenio j o que he pelo contrario na expozicao do Meio-dia , a mclhor, e mais adquada para as nolfas adegas , como a experiencia o prova. As adegas devem fcr forradas pela razao de evitar os grandes ca- lores , ou frios j e , fe poder fer , fora das cazas , em que fe habita. A exhala- cao do gax , e as marerias fulfi'ireas , que fe quelmao nos toneis , fiizem dam- no a faude. Os toneis devem eftar pof- tos em alto affim pela razao do Ar circular mais livrcmcnrc , como tam- bem pela commodidade dc fazer ta- par algumas fendas , porque marcjao as vazilhas,a pezar dos cuidados dos tanociros. A limpcza da adega deve ier muito exa'5la ^ tudo j que iaz gran- des bE Agrigultuira: 4^ 'iies fermentafoes ; pofto que Infenfl- veis , ( V. g. OS fenos ainda humidos , ;as lenhas verdes ) deve eftar I'epara- do das adegas , affim tambem tudo , que exhala mao cheiro ; o ar obra muito na fermentagao infenfivel dos Vinhos. 42 Se huraa boa adega he neceira'-'^'-'zi"'^* ria para a confervacao , e bondade do jeveln Vinno y as vazilhas , em que elle fe rer , e : delta , pois o tocao de mais perto , de'"°,^ * requerem ainda maior attenjao, Os uactari. Vinhos fermentao J e fe confervao em vazilhas de pao , barro , ou vidro. As que fao mais frequentes , fao as de pao , a que chamao quartos , pipas , toneis , 6cc. As talhas , e potes fao menos uzuaes , e tambem menos ap- tas para a facftura de bons Vinhos. As de vidro nem ainda para a con- . fervafao de Vinho trasfegado tern uzo no paiz , em que vivemos. A experien- , cia tern moftrado , que o pao das va- . 2ilhas communica o feu gofto aos Vi- - iihos* As partes rezinozas da madeira . ie difTolvem nos Vinhos em boa par- . te j efta a cauza , porque importa mui- (^ to fazer boa fclegao da madeira, de que J, fe hao de fazer as vazilhas. O caftanho . he a madeira mais commum , de que 1, IJUl'amos J Q vinhate , e o bordo fao ; ; ' D ula- Tifacios Co pdl-os la'v*radores'"rfc6§'. As flduelas de caftanho devcm-fe eicol'her Claras , e llzas ; porque tudo modra , que o pao he baftantemente compa- d:o , e que ellc nao foi criidto , 6 Dao eftava ao tempo do cofte cheio de huma leva grofleira , e mal dige- rida : os camponezes chamao a efta madeira de leva grofleira paOs 'd* aveceiro ; pbr KTo o co'rte feit-b eiti tempo, no qual as arvor^s nao ^urt-^ dao em fuccos , he o melhor. Os an- tigos , e OS homens do campo a pre- ciao muito o corre de Janeiro , e que nao he para defprezar. As vafilhas de caft-afiho pela maior parte fao unidas com miiitog arcos ja de vime, jd do mefmo caf- tanlio. Duas couzas fe devem adver- tir no ufo , e efcolha dos arcos ; hu- ma he , que os arcos tenha6 os nos muito chegados •, o que he fignal , que o pao gaftou tempo em crelcer ; ou- tra , que os tanoeiros ambiciozos na6 uiem nos toneis dos arcos das pipas, nem nos toneis grandcs dos arcos ,- que pertencem a toneis pequenos. Por fal- ta defta obfervacno tern acontecido el- tourarem as vafilhas com damno nao pequeno dos lavradores. Os toneis dc vinhate , ou de bordo, fao unidos qua- bE AGRieiTLTVR A. 5't ■ tjuafe fempre com arcos de ferro j e ^ OS que mais cuida6 nas fiias adcgas , OS mandad envernizar , pafaque a en- trada do ar fique mais vedada. 43 Os toneis ou ainda iia6 tem Suadou^ fervido a feimentar mofto , on ja tem '° ' fervido. Huns , e outros devem ter fuadouro ; por(^m os primeiros de maior neceffidade , por cauza das inuitas partes gomozas , que tem o pao , as quaes fe diflbiverao no Vi- hho , fe antes fe na6 extrahirem por meio dos fuadouros. Os toneis , que ja tem cofido mofto , podera6 palTar fern fuadouro , ou quando fe desfun- darem , ou tiverem tao grandes pof- tigos , que por elles fe poffa entrar , paraque os toneis inteiramenre fsjao bem bafculhados. Defte iiiodo as par- tes tartarozas , que ficarao pegadas por todo o concavo dos toneis , fe defpegao , e o novo Vinho nca livre dos damnos, que o tartaro Ihe podia tauzar. Em algunias partes coftumao dar 05 faudouros com o mofto fervendo ; em outras com arrobe tambem ferven- do ; efta pracflica era boa , fe ailiiiT 6 mofto , como o arrobs foffcm cx- ^elidos dos toneis , logo que acaba o fuadouro 3 porem, ficando* nos toneis, co- D ii mo 5*1 MlMORIAS mo pradlicao , com clle ficao todas as impuridadcs , que o fuadouro tinha ex- trahido , as quaes fe communicao ao novo Vinho. Coftumao outros fazer o fuadouro com agoa fervendo com ervas aromaticas , e fementes , v. g. o funcho , a erva-doce , as pinhas ver- des feitas aos bocados. Na Chamuf- ca ufao hum fuadouro mui flmplcs , e que me parece o melhor. Na por- 936 fufficiente a vazilha de agoa fer- vendo , Ihe deitao fal , que agoa diflbl-' va ; deitada ella agoa no tonel , efte he mui bem chifpado no batoque , c lo- go barcolejado por algiun tempo. A agoa dilTolvida em vapores falinos, de que ellava cheia , nao fomente extrahe as impuridadcs ; porcm as partes fali- nas J de que a madeira fica cheia , fer- vem para a melhor condijao do Vi- nho. Quando as vazilhas por falta de alTeio , e limpeza dellas eil:a6 tao de- terioradas , que os fuadouros as nao poem em bom eftado , uzao alguns me- terem-nas a Vinagre , e pailados alguns tempos , ufarem outra vez dellas para o Vinho- A experiencia tern moflrado , que as lavages dc Vinagre ( XXIII. ) nas vazilhas tao longe eftao de de- teriorarcm os \'inhos , que antes os meihorao , e -fortificao o§ mollos. O^ mcio deAgricultura. 5'3; melo porem mais prompto de fe po- der iizar das vafillias mal acondiciona- das he queinia-Ias ; porem nem toda a materia , que ferve dc pafto ao fo- go, he commoda para qucimar a fu- perficie interna dos toneis ; porque com OS fumos exlialados podem ir particu- ]as , que communicadas a madeira de- teriorem ao depois os Vinhos. A ra- ma dos pinheiros , as rafpas , que os carpinteiros tirao defta arvorc Jauda- vel , he a materia, que a Fyfica jun- ta a expcriencia approvao para por meio do fogo fe remediar o damno das vafdhas. As partlculas oleozas, que fe exhaiao do pinheiro , e que en- trao em lugar das que o fogo expul- fa , fervem muito para beneficar os Vi- nhos. 44. O uzo das mechas para puri-^'"^ /^^^ ficar as vafilhas , em que fe ha de dei- tar o mofto , he muito antigo : os ingre- dientes , que fe Ihe cuftumao ajuntar , fao infinitos ; julgando cada hum , co- mo hum myfterio util , o methodo, que tern em as fabricar. Toda a utilida- de J que produzem as mechas , provem do enxofre , cujo fumo pode concor- rer por dois modos para beneficiar os Vinhos J dos quaes trataremos ao de- pois ;, quando fallarmos ( n. '^6.) do tras- 5'4 Memorias trasfego , e clareficacao dos VInhos* A diveiTidade della vem das difleren- tes efpeciarias , que fe fazera entrar na fua compozicao. Huns yjuntao ao en^ xofre erva doce , cravo da India i outros craves do Maranhao , pedra-" hume , canela : eftes Ihe accrefcentaa agoa ardente j aquelles cafcas de ovos torradas , e pizadas. Tcdas eftas ad^ dicoes fao olhadas por hum bom Fy- fico , ( o Abbade Roffier ) como pre- judiciaes aos Vinhos. As efpeciarias , e outras couzas juntas ao enxofre po^ dcra produzir um olco empyreumati' CO , que communicado ao Vinho fa- ja nojo a quem o beber. O enxofre fo per fi he baftante para purificar o ar dasvazilhas, e communicar ao Vi- nho algumas partes oleozas. ( XXIV. ) ycrmenr Q produdto da fermentacao do Yinho.*^ mofto he o Vinho : grande parte dos cuidados do lavrador fe deve de- rigir a efta , fe elle cflimar rer Vi- nhos de boa qualidade. ( XXV ) Pa- ra haver fermentagao , he precizo ar , e calor em certos graos. ( XXVI ) Os Romanos j quando queriao confervar o mofto , femque fermenta-fe , langavad OS toneis no mar, ou em algum ria fundo > e ahi OS tinhao por alguri), tempo, O fno , di? Piutarco, fufucando^ a DE AgRIGULTURA. ^^. a adividade dos efpiritos , impede a lermentacao. Afluidez tambein he hum eflencial para a fermentacao. A experiencia moilra , que os corpos carnudos , que contem partes vifcozas , nao tern fer- mentacao eftrondoza , em quanto elles nao iao reduzidos a liquido. ,, Nao he „ indilFerente , diz hum habil Phyii- „ CO, ( M. Saintignon. Phyfique vol. y. 5, fee. 4. cap. 3. ) deJxar fermentar 3, o Vinho nas adegas ou muito , ou 5, pouco. A feparajao dos faes , e a 5, divifao das moieculas tern hum grao „ determinado , e invariavel para dar ^ ao Vinho a melhor qualidade , que 55 elle polTa ter. Efla opperacao pede o 55 olho de hum conduiflor inteligente, 5, forma do per huma longa experien- 5, cia ; e requer mais attenjao , do que 5, aquella , que ordinariamente fe llie 55 da. Hum termometro mctido no li- 5, quido 5 que fermenta , indicaria o 55 grao de calor, de que depende-fe. 5, o fuccellb do trabalho ; e outro pof- 5, to no ar livre indicaria a difpozi- 5, cao do ar externo ; o grao de ma- 55 dureza das uvas bem conliecido por 5, obfervagoes precedentes formaria. 55 hum relultado , que poderia derigir 5, a condudta dcila opperacao. Tern 5*6 M E M R I A s Tem OS homens regras , e precel- tos , que latisfafao nefte ponto , ou ao menos tem rentado o caminho ? Eu as nao tenlio encontrado. Podcrao elles acha-las ? So efte ponto pedia hiima larga difl'ertacao. Conhecer o grao de madureza da uva he , o que aqui fe aprczenta de mais diticil j por- que J prelbindindo da maior parte das vinhas ferem compoflas de uvas de differeiues cartas , que amadurao em diverfos tempos , ainda as vinhas , que tbrem fo de huma cafta , nao hao de ter todas o meimo grao de madureza j por- que efta he em razao do terreno , da forca da feva da Videira , e da expo- llcao , em que eftao as uvas. O mofto conciderado mais , ou menos efpellb , mais , ou menos doce , que fuftivelTe , mais , ou menos certos corpos , que fe fhe lan^afTcm , he, que podcria delbu- brir o grao de fermentagao , que era preciza. Porem , pondo ifto inter deji- derata , paflemos a moftrar , quando i'e deve ajudar a fermentajao , ou quan- do fe deve dcminuir \ a que o vulgo chama confertar os Vinhos j tomando por efte nome aquillo principalmen- te , que fe Ihe deita na fervura. A dois pontos fe pode reduzir tudo , a que o lav ra dor tem , que obfervar fo-- bic DE AgRICULTUR A 5*7 tre a fermenta^ao do mofto : I. aju- dar , attenuar , e devidir as partes componentes do moflo. II. impedir , que OS efpiritos fenao exhalem. 46 Os Romanos deitavao na fer- Tempe* inenta^ao do mofto enxofre , calj^^i^oma* gejo , greda , p6 de marmore , pez , "os da- i lal de liiado , rezina , paflas , agoa '-^o^'-^^nhos. I mar , mirra , ervas aromaticas ; e a i ilto chamavao conditura vifwruni. I ( XXVII ) Deile ufo antigo emanou I para alguns dos Povos da Eiiropa , ': principalmente para a Hefpanhs a ; damnofa pradlica de engecar os Vi- i nhos , o que tambem fazem os Prc- i ven^aes. Ella fubftancia , alem de fer I dececativa , e que por illo concome i muita parte aquofa fiiperfliia ao Vi- j nJio , pelo feu pezo faz precipitar o i tartaro ; e por iflb clarifica o Vinlio. j O mcrmo fuccede ao enxofre , e com !i a cp.l , e o p6 de marmore. O Ano- nimo Auiftor da Diflertafao fobre os Vinhos , ( Impr. em Pariz em 1772 ) louvando os Romanos pela grande in- duftria , que tinhao no raethodo de perparar os Vinhos , e nos meios , que punhao para os confervar , diz na in- troducf ao , que elles guiados pela ex- periencia , e obferva^ao , obrarao de tai modo , que a boa Fyfica; e Chimia fi^Q poden; reproyar, Po- \ 5^8, M E M O R I A S ^orc«i , ic huin cego amor da An-f tiguidade nos nao arraftra , cu me atT ;revo a dizor , que nao fomente clJcs nos nap deJiXjarao concidcraveis regras pgi^a beqeficiar os Vinhos ; poicm , que a boa Fyiica reprova as mais das couzas , de que elles ulavao na fermen- tafao do moflo. O ufo da cal , de que muitos con- t.Fatadores de Vinjio ulao, lie perne-r cioziflimo. O Javrador na fadlura dos^ VinJios nao fe propoem fazer huma bebida damnola a laude do homem i porcm J que Ihe firva cu para a conlervacao , ou para o reflabelccl- menio da faude. BoerJiaave nas fuas Inftituig. Medic, fee. i. 143 , numcra a cal cntre os venenos , que matao , ou prompta , ou lentamente , fegundo. OS feus graos de forga. Na Hiiloria da Academia Real das Sciencias ( an- no de 1700 ) [e 16 , que hum boi , ten- do bebido por accazo agora de cal , morreo, logo depois ; e que os Vi- nhos , em que fe tin ha mifturado cal , erao muito prejudiciaes pelo exceifivo, calor J que excitavao. O geco he huma efpecie de cal feita de pedras brancas j produz os mefmos males , que a cal j e a expe- riencia nos coavencc todos os diasi da- DE Agricultural 5:9 llaqui a cauza , porque a nofla Legis- Jacao o prohibe feveramente. O pianno-r xe J e o enxofre fo fe podera conii- 4erar como fubftancias , que pelp feu pezo Jevao apoz de fi as impurlda- des , que achao na fua defcida ; do mefmo modo , que a area , a greda , ou terra-cre confiderada , ccmo ah- forvenre , pode ter alguma utilidade , quando os moilos abundairem muitQ em partes aquofas j porem a propie- dade , que a greda tern de abforver OS acidos , pode damnificar os Vinhos , abforvendo-llies parte do acido tarta- reo eflencial a fermenta^ao. O fal he o melhor impedetivo d% corrupcao j porem por effa mefma ra- zao , que he de obftaculo para as fcr- jneutacoes , o methodo , que os Ro.- manos empregavao , impedia , que os, Vinhos alcanfaccm a melhor qualida- d? J de que ei;a6 capazes. Elles nao £6 uzavao do fal na fermentajao , poremj jias uvas , logoque erao colhidas ; ou-; tros Iho lanjavao no lagar ; cuja pra- d:ica tinhao tambem no ufo da agoa, do mar, Impedida a parte era fermen- ta^ao , a divizao das moleculas nad chcgiva a fua maior perfeijao , da uai depende a bondade dos Vinhcs. mefmo mal fe pode co-ndderar na asoa Z '€o M E M O R r A s agoa do mar , por conter muitas par-^' tes falinas , principalmente a dos cli- mas qiientes ( XXVIII ) pelas fuas partes aquodis , que fazcm perder ao Vinho a lua forja , como a cxperien- cia o moftra nas agoas-pes. Pela mel- ma razao de ferem impedeiivo das fermentafoes , fe devem regeitar as er- vas aromaticas , e outras quaesquer gomas muiro principalmente na maior fermenta^iao dos VinJios. A lia dos Vinlios frcfca , as refi- nas , a mirra , o pez da multidao dos ingredientes , que os Romanos tinhao para tcmperar os Vinlios , he , que po- dem fer olhados , como proveitozos a fcrmentacao. Celfo lib. 2. cap. 24. falla do Vinho relinado , como bemfeitor do cftomago. Diofcorides diz , (J. 2. cap. 42. ) que , nao amadurccendo as uvas na Galacia , enrefinavao os Vinlios pa- ra fenao azedarera. As rezinas , a mir- ra , o pez rem partes oleozas , que impcdcm no Vinho a exhalajao dos el'piritos , de que depende a liia bon- dade. A lia do Vinho frefca he hum dos melhores fermentos , que fe lan- ga no cozimento dos Vinhos. Fernini- 47 Duas couzas fc dcvcm olhar na mol^dc-f^i'i^i^^i-^^''^^ • '^juda-la para melhor di- vi- DE ASRICULTUR A.' Sx >ifad das moleculas , e exaltajao dos ^^= =Ji4 x)lios , que o mofto contem ; e impe- dir , quanto poder fer , a exhalagao dos efpiritos. 48 Para a divifad das moleculas , Atenus- € millura a mais perfeira dos compo-i„e°ir»" nentes do Vinho he a feitoria , ou'»eio. cortimenta , que fe Ihe da nos laga- res , o melhor remedio , que fe tern defcuberto. O mofto batido por efpa- go de dois dias continues fe devide em partes minutilTimas , o vifcozo do- ce aflim dividido exalta perfeitamente OS oleos i e os efpiritos , iicando ad- hcrentes , dao ao Vinho for^a , e con-* fiftcncia. A experiencia diaria , que fe oblerva , e a que eu tenho feito entre Vinhos do meimo fitio , que fao fei- tos dc curtimenta por efpa^o de dois dias nos lagares , refpc(5live aquclles , que a nao tern , me tern moftrado cla- ramente ; que efte he o mais efficaz meio de o ajudar a natureza na fer- inentacaoj e que de todos os attenuan- tes defcubertos efte he , o que da ao Vinlio lium corpo , e huma confiften- cia admiravel. O fegundo meio mais apto , que tenho experimentado , para- que de moftos da mefma natureza fahia lium Vinho muito mais fino , e generozo , e meuos fugeito a raudar , lie >fi Mem 6*1 A§ lie agoa de alcatrao feita pelo metllo*-* do de Jorge Berkelei Bifpo de Cloio-» na. ( XXIX ) Efta agoa , cujas virtudes fao admiraveis na Medicina , he dd hurria vif tude efEcaz no Cofimento dos Virihos. Ella tern hum efpirito acidoi aptiffimo para ajudar a fermentacao, dividindo o vifcozo doce , e fazendo exaltar d olio. No anno paflado de 1785" eu fiz a experiencia , deitando em pipa de vinte e cinco almudes liurri quarrilho de agoa de Berkelei ; Ht corrtp3raca6^ com Vinhos do mefmo fitio , e fahio era muitOs graos me- Ihor. E , poftoque as muitas chuvas do Ourono palTado fizerao perder as tivas o vifcOzo doce ^ com tudo , aleir da approva§a6 de muitos inteligentes ^ hunt meti conhecido , verfado nos Vi^ fihos deerti barque da Chamufca , m@ difTe , que alii fenao achava Vinho melhor. He de norar , que o firio , don- de fahio , poftoque abundante em Vi- nhos , nunca deu Vinhos de embar- que j e para a Corte fe extrahe al- ^uns , iia poucos annos. Dos efFeitos defte anno de 1786, em que lancei quartilho e meio por pipa de vinte e cinco almudes , diremos no fim em nota ( XXX ) ; porque ao tempo , que ifto vaitios efcrevendo , os Vinhos ain--^ i3a fermentao. Agoap^ , que foi feita ^ com a mefma quantidade de agoa de •Berkelei , levando daa^ ^Taffes (^e ago'a j, € huma de moflo , laliio bok j e fe co-fi^ fcrva mivi clara , e de 'hcm go(k) ; poUoqtie quafe todas as 'mais i'^ ItM azedado. " '49' Gomo o vifcozo doce he a ba- '^^'^'^^?'' , t' dos bohs Vin-hos ; 'pciisque elles f as quaes as copiozas chuvas dos Outonos rem inteiramcnte defpojado do vifcozo do* ce : do que fe moilra > que o primei- ro meio , que fe prezenta para reter OS efpiritos para leuao exhalarcm > he o vilcozo , afliin pelas partes vifco- zas , que concern , coino tambem pe- las oleofas : affuna fica dito ( n. 49. ) o modo J como fe deve fupprir. A agoa de Berkeleij e de que aflima fallamos , ( 2. 48. ) he o fegundo meio mui adquado para impedir a exhala^ao do gdz : ella cont^m hum efpirito , e olio volatil , que introduzindo-fe pe- lo mollo fervc maravilhozamente p*- ra reter o gaz. As rezinas , e tormen- tina , o pez &c. pelos oleos , que con tern , fe podem refcrir ao terceiro jneio de confervar o gaz : o ufo da Antiguidade nella parte concorre com a raza6. 5'2. Dos principips poftos para a Coroii- fermentaca6 do Vinho a fim de o me- \-°^thlT Ihorar , deduzidos da razad , e expe- Jos prin- yiencia fe leguem os feguintes Corofi- p^fitoL V E rios : ^'6 Memorias Tios : I. , que o uzo de deitar Canada? «de Agoa-ardente na fervura , e femien* tacao do moilo , he inipedimcnto pa* ra fe formarem Vinhos de qualidade ; porque , dependendo a qualidade do Vinlio da attenuacao, e divizao das mo- jeculas , como Agoa-ardente impe- de efta divizao ; impede por confe- quencia o mellior grao de qualidade, que o Vinho podia ter ; o que fuc- cede na fiid:ura da Miftella , da huma prova clara do que acabaraos de di-? zer. Em liuma canada de Agoa-ar- deme le lan?a6 duas de moilo pou- cos dias pailados , ella efta em termos de fe beber. Em todo o tempo nun- ca fe obferva nefta miftura efFervefcen- cia J ou fennentacao eftrondoza , o que Jie a cauza da lua do^ura ; por- que , nao fendo attenuado o vifcofo , nao pode exiftir o acido efpirituozo , gue refulta da fua fennentacao. II. que a pra(ftica commum de deitar ai tinta em dornas , iilo he , o bagulho , j e mbfto das uvas pretas , e nas mef- mas dornas trazer a cortir por alguns dias a tinta , e depots lanja-Ia nos to- neis , he nociva a qualidade dos Vi- nhos ; porque tudo , o que impede a fermen tacao damnifica a qualidade dos Vinhos. Oo coiinheiros fab em bem , que. D s A G R I c u L T u n a; '^y •a fervura impedida com alguma liitro^ duccao , V. g. agoa fria , faz muitas vezes encruar , o que tinhao para co zer. Efta a cauza , porque dies tein iempre agoa quente de relerva para- que a fervura nao pare. Ha poucos dias , o fucceffo de hum meu vilinho me provou o grande raal , que cauza o interromper a fermenta^ao do Vi- nho. Paflados alguns dias , que elle ti- nha vindimado , e , deitado o molto em vazilha , que pela efterilidade do anno nao ficou cheia , Ihe ofFerecerao mof- to para acrefcentar ao que eftava ja fermentado. Fez a compra ; c o re- fultado da miilura he hum liquido in- lipido fern qualidade alguma de Vi- nno. Por efta mefma raza6 fe fegue III. , que a pradica de algiuiias pro- vincias da Franca , come lao o Del- iinado , e a Proven ja , de atteftar os toneis nos primeiros dias da fermen- tagao cinco , cu feis vezes por dia , cm lugar de augmentar a fervura , a di- minue muito principahiiente , fe o mof- to nao he de igual fermentajao : o mefmo fe deve dizer da praftica de atteftar os toneis de oito em oito dias , e depois de mez em mez ; a •razao , que dao , de fe purificarcm os ^inhos; kncando inuita cipuma^ e impu- E U ri- 15S M E M H I A S rldadcs £61-35 n^o mercce attenjao ; poN que elle bem apparentc produz muitos males , como ia6 , imped ir a fervura , ou ao menos muda-la , romper a c6^ dea , t]ue o Vinho vai formando , a qual he , como huma abobeda natural , que impede grande parte da cxhalacao dos efpiritos. DilTemos , que as impu- ridades , que o mofto lancava por meio da ei'pumujao , era hum bem apparen- te j porque , trazendo comfigo os ma- les ponderados, efte bem fe confegue por via da precipitajao. A' porpor- ^^6 5 que hum liquido fe rarefaz , todos OS corpos hererogenios fegundo as leis da Hydraulica tern hum defcenfo mais facil. IV. , que a pradica de dcixar OS Vinhos detlapados , paflada a fervu- ra eftTOndoza , faz perder o Vinho par- te da forca , que havia de ter por fal- ta dos efpiritos , que fe decipao pelo batoque , que achao aberto. Pode-fe di- zer, que ifto fe faz paraque o gdz te- nha fahida ; poisque, nao a tendo, fa- ria rebentar os toneis ; a que rem fuc- cedido nao poucas vezes j porem ifto evita-fe , deixando paffar a maior for- ja da fermentajao cftroiidoza , na6 rolhando o batoque exaiflamente , e deixando algum vazio no tonel ; paf- iando porem alguns dias , a roiha de- ve DE Agrictjltura. (Tp ve fer chifpada exaftamente •, para iir- to fe podc fervir de cebo pizado com carvao J ou de barro dos oleiros , ou de pez mifturado com cera. V. , que o ulb de deitar agoa na fcrvura dos Vinhos , o que ordinariamente he em trinta almudes hum , faz perder a qua- lidade do Vinho : os lavradores di- 2em , que fazem ifto , paraque o Vi- nho nos annos , e vindimas quentes , e que o vifcofo doce he em grande abundancia , nao engorde j porem a diaria experiencia os podia convencer , que efla doenga dos Vinhos nao pro- vinha da abundancia do vifcozo doce. A maior parte das Agoas-pes , em Ihes vindo o tempo quenre da Primavera, fe fazem gordas : logo por falta de principios aquofos nao fe acha alii o vifcozo doce fcm fer attenuado i ao que attribucm a gordura do Vinho. O muito viicozo doce procurado pe- la arte , alem do que prcvem da na- tureza , comque fe nianobrao os efiima- dos Vinhos de Eflens , ( ■•:. 157. ) mof- tra bem , que a gordura dos Vinlios nao Ihes provcm do vifcozo doce. 5"^ Acabada a fermcnta^ao eflrondo- za , o Vinho contimia na icrmentajao infenhvel, com a quai fe apura ; o tar- Fermen- taro fe percipica , vifcozo tioce fe reSveu' at- ^t^ M E M O R I A g attenua , e fe torna em fubftancia dci- da , efpiriaioza. Os tersios dcfta fer^ menta^ao nao tern limitcs certos ; por- que alem das cauzas , que podem ace- lerar , ou diminuir a fermenta5a6 , ella depende princi'palmente da qualidadc do mofto ; fendo mais dilatada nos moilos J que abundao em vifcozo do- cc , de tal forte , que os mais eftima- dos Vinhos de Hungria gaftao hum anno em fe cozorem ; e menos na- qucUes , que abundao em partes aquo- zas. Os vinhos ainda depois de cla- rificados , e fendo ia potaveis , con- tinuao na fermentajao infcnfivel ■■, e huma prova he a bondade , que os Vinhos vao adquirindo a proporjao , que o tempo difcorre. Porque A fermentaj ao , ou movimento in- dev"fJ- ^enfivel , he huma cauza interna da 2er o raudan^a , que muitas vezes fiizcm os do'' vf-^ '^'^in^os J mifturandu-fe outra vez nelles pho. o tartaro , e borra , que fe tinhao prc- cipitado , cujo mal faz de generar o Viniio ainda , quando fe remedca. Elle nial precede tambem mairas vezes do ar agitado com grande vehemencia y V. g. pelas grandes trovoadas , pclo cftrondo de artiiharia , pelo ar rare- feito, pelos grandes calorcs , c mais , ^e tudo , como tenho obfcrvado , peia;. atli- DE AgRICULTUH A. 7I' athmosfera demaiiadamente carregadci.- O vulgo chama a efta doenca do Vi- nho dar volta as luas. Para evitar ef-- t3 mal he , que fe uza trasfegar o Vi- nho , que he o mcfaio , que tira-lo da borra , e lanja-lo em hum tonel lim- po. A expeiiencia de muitos feculos tern moflrado , que a borra he hu- ma das maiorcs cauzas das doengas do Vinho. Os Champanhezes , para Jhe procurarem remedio , Jhe dao trez tras- fegos : hum no meado de Dezembro , o fegundo no meado de Fcvereiro , e o terceiro em Marco , ou em Abril. ( XXVI ) O nolTo "'coftume he trasfe- gar OS Vinhos em Janeiro ; e aquel- les J que bufcao hum dia de Sol cla* ro , obrao fegundo as regras da ex- periencia , que moftra nefles dias o tar- taro mais precipitado. 55" For meio do trasfcgo fe procu- f.)'^"-'^j ra tirar o Vinlio das impuridades , vinho. que o deftroem ; por iflb fe ufa de aJguns meios , que ajudao a purifica- cao alguns dias antes do trasfego. Pa- ra elte fim fervcm certas fuitancias vifcozas , as deflecativas , as abforven- tes , as quaes deitadas nos toneis pre- cipitao com ellas as impuridades , que fao nofcivas aos Vinhos. Os Ncgocian- tes de Vinho , com tanto q^uc elles al- can- •Ti M E M o n r a' s cangem a clarificacao do mefmo , e ifto por pi'Cfo commodo , nao cuidao em mais. Na fadura do Vinho deve- fe procurar forma r huma bebida pro- veitoza ao homem , e conrervadora da fua iaude , e nao deftruidora della. Por iflb enrre as fubllancias vifcoias fe devem efcolher a gomma Arabia , a gomma de peixe , as claras de ovos : entre as iubftancjas de&cativas , e ab- forventes as cafcas de ovos torradas , € reduzidas a p6 , a greda , o fal torrado ; e pela mefma razao fe de- vem regeitar o gello , a cal , a pedra hume. Uza-fe da gomma Arabia reduzi- da a p6 fino, como farinha, e pineira- da fe langa pelo batoque , com hum pao brandamente fe vai mexendo pa- ra huma , e outra parte , a iim de fe efpalhar a gomma por todo o Vi- nho ; e como a cacia , de que fe tira eila gomma , he medicinal , fenao ha commodidade de trasfegar depois o Vi- r;ho , pode-fe dclle ufar fem rcceio. Os DrogLiiftas , como obferva Miller , raras vezes tern a verdadc-ira gomma Arabia, que he de hum branco , que tira a amarelo ; porem em feu lugar ufno do fucco de ameixas bravas coa- giilado ao fogo. DE AgRICULTUTIA. 7:5 ^- A gomma de peixe he , a deque commummente fe ufa para ajudar a clarificajao do Vinho branco. Ha va- ries methodos de a dilToIver. A gom- ma fe delta em Vinho , uma Canada em trinra graos , medida proporciona- da a huma pipa j e em liuma bacia fe tem a diflblver per hum , ou dois dias. Alguns deitao a gomma feita em " pedajos em agoa , oiitros em Agoa-ar- dente ; quando a gomma ella ja bran- da , e capaz de fe diffolver , deita- fe-Ihe mais Vinho , com o qual fe des- faz ; e depois coaffe huma , e mais ve- zes , ateque nao fique nada no coa- doiro. Deitada na pipa , fe mexe bran- damente com hum pao , que nao paffe do meio ; pafTados oito dias , entao fe pode fazer o trasfego , fe o Vinho ef- ta claro. Algumas vezes he neceflaria engoma-lo fegunda vez. Os pedacos de gomma devem fcr brancos , e al- guma couza tranfparentes , fignaes , que caradierizao a boa gomma de peixe , que vem de Archangel. O Vinho vermelho clarifica-fe commummente com claras de ovos bem batidas , e lan^adas nos roneis do mefmo modo , que dicemos da gomma de peixe. Qiiandafe faz a clarificacao com as 74 Memorias as cafcas de ovos torradas , ou outro qualquer abforvente , deve-fe pra(fticar e mclmo , que fica dito na gomma Ara- bia. A ddfe deve fer proporcionada a Vazilha , que fe propoem clarificar ; advertindo porem , que a rolha do baroque nos primeiros dias , depoisque fe lanjao no Vinho as fubilancias , que ajudaoa clarificacao , nao deve fer exa- (flamente chifpada , a Urn de que as ditas fubilancias nao fe precepitem ra- pida j mas iim lentamenre. Trasfe- ^5 Logo que fe confegue a clari- ** ' ficajao do Vinho , feguc-fe o trasfe- go , em cuja manobra le procura buf- car todos os meios paraque o Vinho nao exhale os efpiritos , de que prin- cipalmente depende a fua bondade. A efte iim fervem as torneiras chamadas de vafar, as quaes pela fua largura cnchem com muita brevidadc os can- taros ; a maquina dos Champanhezes, e varias efpecies de bombas de lata , que- ie ufa6 nas adegas grandes , pelas quaes o Vinho com muita brevidade pall'a de hum tonel para outro. De qualquer modo , que fe uze , o lavrador deve attender, ate que ponto o Vinho fahe claro ; logoque elle vir , que fahe com algumas impuridades , o nao deve mifturar com o Vinho , que poem em Iim- DE AgRICT?LTUR A. 75? IlmpO. Pode-fe fervir defte Vinho pa- ra formar Aguas-pes , ou para o qiiei- mar , e delle fazer Agua-ardente. O ufo de deitar mexa nos trasfegos he muito antigo. O enxofre queimado lanca hum acido muito fubtil , que impede a exhalacao dos efpiritos. A quanridade da mexa , que ie Ihe coP- ■ "? tuma deitar , he de meio pahno em ;'; c<3mprimento , e dois dedos de largu- 'r ra em pipa. A efte mefmo fim de ^• impedir a exh.alacao dcs efpiritos tcn- dia o ufo dos antigos de deitar oleos na fuperficie dos toneis , o que fe pra- diica ainda nos Vinhos engarrafados. C A P I T U L O IV. Das enfennidades do I'lnho , e fuas falcificacoes, 57 "P Oftoque o Vinho finaliza a J"J'^'"j^ X fermentajao eftrondoza , com yiaho. * tudo elle fica em huma fermeutacao infenfivel , em cujo efliado ainda de- pois de ciareficado pela fermenta^cao , e pelas ajudas , que a arte Ihe bulca , Jhe provcm varias doengas , que ja o dcteriorad inteiramente , ja Ihe flizeiu perdor o preco no feu commercio.' Muitas Yczes os Vinhos azedao-fe ;, cho- cao yS Memorias cao-fe , engordao , e toldao-fe. O la- vrador deve attender as cauzas , que podcm produzir nos Vinhos eftes ma- les , paraque os poITa precaver , fe po- der fer , ou cura-los , dcpois do Vinho OS ter adquirido , na hypothefe de que o eftado do mefmo adinitta' cura. ,1 Caufas rg Os Viiilios fc torna6 azedos do Vi i,j,o fe OU por fua natureza , ifto he , porque tornai- 35 partes compouentes do mofto teii- '^^^ °' diao a produzir no Vinho a fermen- ta§:a6 , a que chamao acetofa j ou por- que algumas cauzas txternas o fizerao tornar em Vinagre. Do primeiro ge- nero he o Vinagre , que fe faz das uvas J que nao chegarao a fer madu- ras , nao adquirisdo por iffo o vifco- zo doce , o qual he effencial para a fermentajao elpirituofa do Vinho. Pro- cede efte mai muitas vezes do lavra- dor vindiinar antes do perfeito eftado da madureza das uvas , temendo as chuvas do Oatono , que Ihe arruinao a fua coiheita ; outras vezes he , por- que o clima Jie tao frio , que as uvas iiunca iicao em grao de madureza ap- ta paraque poifao dar bons Vinhos ; outras vezes fuccede efte mal , por- que as uvas abundao demaziadamente em partes aquofis ; tacs fao algumas vezes as de iatadas , e uuiito mais as de deAqricultura. 77 de embarrado ; ou tambem , porque o Outono foi nimiamente chuvozo. As cauzas externas , que fazeiH tornar o Vinho em Vinagre , ou ao menos picante , fao : I. os fermenros acitofos , que confeivao as vazilhas, que por muitos tempos tiverao Vina- gres fortes. II. toda a vizinhanja , que houver de alguma fermentajao aci- da, poftoque ja elleja feira. III. as adegas , que nao fao abrigadas aos grandes calores , os quaes fazem per- der ao Vinho o nexo , que o gaz tinha com o efpirito ardente. IV. os grandcs movimentos do ar , v. g. o ellrondo da artelharia , de grandes tro- voes &c. O movimento por fi fo he capaz de tornar o melhor Vinho em Vinagre , ccmo prova a experiencia , que fez Mr. Hombcrg. Efte habil Academico poz huma garrafa de bom Vinho bem rolhada na ponta da vel- ]a de hum moinho de vento ; e , paiTa- dos trez dias , eftava hum excelienie Vinagre. Hift. da Acad. Real das Scien- cias anno de 1700. P. 11. 59 Convem muito ao lavrador fa- si^rirJt.- ber, quando o feu Vinho tern difpo- que jn- zifo^s a tornar-fe em Vinagi-e , para ^[,"'',/ o queimar , ou gafta-io , ou applicar- vinho fe Ihe aiguns remedios. A feguinte ex-^'Jp^^^^^^ pe- ie acido. ^S M E M O R I A » ^eriencia pafla , como hum fignal, que aviza ao lavrador da dilpozicao , que tern o VinJio , k fermentacaa aceto- fa. No alto dos toneis ie abrira hum buraco proporcioiiado a hum canudo de trez , ou quatro dedos de altura , o qual fe metera no burraco feito de- , forte, que a toche bem. No fimo do canudo deve eltar huma bexiga . un- tada de qualquer oleo para hear flc- xivel . e chea de ar. Eftando o tonel cheio , coraprimindo-fe a bexiga de- baixo para fima , fe eiia conferva o ar, indica a difpoficao , que tem , a fazer-fe azedo. signass , ^q, Como o tartaro he o principal di'cas"' conftitutivo doVinagre, feja volatiii- «,ue o zando-fe , feja, como quer Glauber, du'poem ( Mem. inferida nas Trans. Filofof. a tomur- fobrc o Vluagre ) unindo-fe o tartaro fe acido. ^ parte flogiftica , ou efpirito arden- te , e mudando efte da natureza , o lavrador deve por grande cuidado em purificar o Vinho , tanto engomando-o , como paflando-o depois a outras va- zilhas bem limpas. De todos OS modos de purificar o Vinho , a experiencia me tem moP j;rado , que o pez he a melhor gem- ma , que fe Ihe podc dcitar. A dofe he hum arrate em pipa ; bem pizado ^ r>E Agricultvra. 79 *' peneirado pelo batoque fe vai dei-^ tando J e mexendo brandamente. Efta gomma lie preferiveJ , afllm pela com- modidade do prego, comOj porque na- da tern , que deteriore a faude j mas antes concorie muito para a fiui con- fervajao. II. como o calor concor- re para a fermentacao do Vinagre. O Vinho que fe fufpeita poder-ie aze- dar , deve paflar a huma adcga frefca , e na qual os fooens iiao fajao impreP- fao. III. que , azedado o Vinho , 011 tendo algum pico , o cuidado do la- vrador deve fer em fazcr perder a configura^ao das particulas pungentes do acido ; o que fe pode fazer de muitos modos. I. , arrobando os Vi- nhos , que tern pico , e deitando-lhes mel , ou melajo. II. , deitando-lhes couzas oleozas. Mr. Lameri ( na Chj- mia ) obferva , que , fendo os oleos compoftos de partes romofas , e os acidos de partes agudas , a uniao def- ies com OS oleos fazem perder ao aci- do o feu pico. Para ifto podem fer- vir as amendoas , as nozes , os pi- nhoes j &c. ( Vej. as Memorias da Acadcmia Real das Sciencias , anno dc 1740. ) ajuntando ao Vinho , que tem pico, alguns Alcalis , ou abforventes , OS quaes , como podcm fer dc fnuitas caf- So M E iw 6 R r A s cartas , daqui provein a infinidade dt receitas , que tern os Mercadores de Vi- nhos fern diftinjao alguma do que po- de confervar a faude , ou dellrui-la. Os abforveates , que podem diminuir o acido do Vinho , fa6 as cafcas de ovos torradas ; todas as efpecics de con- chas queimadas , e reduzidas a p6 , o barro chamado de Ellremos , o fai- bro , a greda , ik.c. A cal , e geiTo , a lilharga fao venenos , que os tabernei- ros empregao nos Vinhos acidos fem confideracao alguma ao bem do Pu- blico. ^^'^^y 6 1. O perder o Vinho a forca , de dpi- OU gaz , que eltava combinado com ritos, 3g partes oleozas , cuio fummo grao he J o que chamamos Vmho choco , he peor doenja , que tornar-ie em Vina- gre. Efta doenja provem ao? Vinhos , que nao tern o vifcozo doce precizo para foraiar a parte oleoHi , a qual re- tenha o gaz. Os nioftos feitos de uvas demaziadamente podres eftao muito fufreitos a darem Vinhos fracos , e dif- poftos a apodrecerem nos primeiros calores. 6i Conhcce-re , que os Vinhos tern difpozir:a6 a chocarem-fe, quando , pol- ta no tonel a bexiga, de que a/lima DE AgR I CULT tin A. ^ j^llamos , ( n. 58 ) ella eila bem che^ de ar j quando os toneis perdem Vi- I nho ; por tcda a roda dos fundos , o que tudo he hum final 3 que o Vinho perde o ar combinado , que tinha , e que as ofcilagoes da athmosfera obra6 inuito nelle. 6:5 A cnra defta doen^a do Vinho Cnrai deve tender a duas couzas : reter cs efpiritos , que o Vinho conferva , e introduzir-Uie novos , fe poder fer. Os efpiritos retem-fe no Vinho por tudo aquillo , que Ihe pode dar ne- xo. O arrobe , o mel , o mela^ o , o alTucar , as paifas cozidas em Vinho fao fubHancias aptas para darem nexo , e fazerem , que os efpiritos do Vinho fenao deihpem. Para o mcfino fim pc- dem tambeiii concorrer as fubftancias oleozas ; a Agoa-ardente, a que chamao de cabeja , ou mejhor , aquella , que he fegunda vez eftillada. Todos eftes miftos metidos no Vinho , Ihe da6 nexo paraque os efpiritos fenao defii- pem. A dole he variavel a proporcao affim da iubftancia , que fe lan^a no Vinho , como da falta de efpiritos ^ que o Vinho tem. O lancar mexa nos toneis de tempos a tempos , he impe- ditivo paraque o gaz i'e nao exhale* Q enx'jfri? aueiinado ianja hv.m oleo » ^ Memotiias o qual , tocando a fuperficie do Vliilid forma liuma cfpecif" de abobeda , que impede a delTipa^ao do gaz. Pode-fe tambem curar o Vinho , que tendc a chocar-fe , ou apodrecer perdendo os elpiritos , introduziiido- Ihos novos. Fas-fe illo , ajuntando-lhe a tcrga parte de mofto ; pafliindo-o a outros toneis , que tenJiao borras de Vinho frefcas j ou lancando-lhe a lia Jica. Em todos eftcs cazos o Vinho enira em nova fermenracao , a qua! Ihe faz I'ubir diverias combinacoes , e formarnovo nexo , que firva de im- pedimento a exlialajao do gaz. CoiJu- 6^ O fazer-le o Vinlio gordo , e nho!^ ^ '" f"Zei" fio 5 como o mcl , he Jiuma das doencas , que Ihe vem algumas vezcs jkT iermentacao infenilvel. A cauza della doenca , dizem alguns Enojogif- tas , provem das uvas lerem colhidas muito maduras. Para evirar efte mal , muiros dos ProYcn^aes adianrao a vin- dima ; c entrc nos muitos lavr-adorcs nos annos quentes coftumao lancar hum almude de agoa em pipa. Porem quem iabe o modo , como fe fazem os ef- timados Vinhos de Sut, deque aflima fillamos , ( n. 37. ) e a Alalvaiia de Setubal , para a faclura dos quaes Vi- nhos as • uvas. fao meias pailadas , vc beiu DE AeRiGtJLTUR A "^^ hem], que o madiiro da uva de nenhuni modo pode concorrer para iemeihan-' tc doenca. O ourro exemplo bcm cla- ro , como ja dicemos , ( n. 5-2. ) fao as Aguas-pes , que engordao, quando vein OS tempos quente^ ^ nas quaes ie nio pode di2;er , que o muiro vifcozo do- Ce procedido do maduro das uvas he , que as faz engordar." Dizem outros , que a gordura dos Vinhos precede ' de nao lerem bem cubados , e per i confequencla lenao deftruir a parte vif-* ! coza ; porem he bem iabido , que mui- ' tos Vinhos engordao nos calores , e i que , vindo os frios de Inverno , tornao I ao antigo eftado : logo, fe era a do- I cnf a pelo vifcozo doce nao eftar ate- I nuado , a gordura do Vinho lempre devia permanecer : pelo que parece , que eda doenca do Vinho precede de perder o nexo , que tinhao as partes oleozas , entrando por elias o tartaro , que eftava depofto. A falta de tartaro depoflo , que tern OS Vinhos gordos , o calor , que produz a dilToiucao dos corpos , e pe- Ja exiilencia do qua! os Vinhos , e Aguas-pes fe tornao gordos , o frio , que reflringe , e conferva os corpos , e pela vinda do qual a gordura dos Viiihos fc perde , provao^ que a cau- F ii 2a ^4 M^MOXIAS za defta doenca dos VIdHos he o ne«* xo, que as partes oleofas perdem poi: via do tartaro , que fe elpalha por to- do o liquido ; porem de outro modo , oue na temientajao acetofa. Conhecef- le , que o Vinlio tern difpozicoes a fhzer-ie gordo , quando o tartaro fe nao picrepita , e quando perdcr a cor. Cura. (^- Alguiis dos noffos lavradores curao ella doenca , batendo-o por baf- tante tempo nos toneis de forte , que elle faca muita efpuma : fe o Vinho com OS frios torn a ao antigo eftado , deve-fe trasfegar , e lang^r-lhe alguma Agoa-ardente da mais cfpirituoza ) tam- beiii fe remedea cfla doen'^a do Vi- nho , pondo-o em nova fermentajao , lancando-lhe trez partes de mofio. yiniio ^^ Muitas vezes os Vinbos fe tol- dao , fern que , cu fe azedcm , oa enp;.ordem. Nefta iituacao tudo , o que aiTiaia dicem_os ( n, 5>. ) > T--'^ fervia para a clarificacao dos Vinbos , teui aqui bagar. FayciiT- 67 Os mercadores de Vinbos , e cacao tarerneiros J que nao fe contentao mui- nhos. '" fas vezes com a cura das enfcrmida- des do' Vinbo , que naa ilias maos fe deteriora , a qual , fendo pelos raodos afliaia diros , em nada faz mal a £im- de J porem eiies ambiciozos do bacro , com toldudo. DE Agricultural ^j com grande damno d6 Publico Eilfi- ficao o Viiiho , vendendo no pcvo Vinagre por Vinho ; enchendo os Vi- rhos damnificados de cai , e gefib , lanjando-Jhes agoa ; e vendenao os Vinhos novcs , e mal cozicios , per ve- Ihos. Convem pois examinar , fe ha al- guns finals , que defcubrao a faiiifica- g:a6 , a fim de evitar o mal. De todos OS remedies , que fe teni defcuberto para affucarar os Vinhos aci- dos , ou ja tornados em Vinagre, nc- jihum iguala a litharga , ou churnbo vitrificado , porem o Vinho afiim iai- fificado produz os mais terrivcis dam- nos na faude do homem. Ella falfifi- ca^ao do Vinho pode-fe conhecer per dois modos ; ou por meio dos alcd- lis , ou pelo hepar do enxofre. To- dos OS alcaJis , que fe lancao nos Vi- nhos vermelhos , os toldao, e fazem negros j porque cs acidos fe ajuntao ao alcaJi , e a parte , que dava cor ao Vinho , que eflava em difTolucao pelo acido , feparando-fe delie , toma a fua c6r negra ; pcrem , ie o Vinlio tern a litharga , enrao elle nao tcma huma cor negra ; porem cinzenta , e lanfa hum cheiro dezngradavel. O hepar do enxofre tambem faz teconhecer^ que o Vinho Jie falfuica- do S6 M E M O R I A S . - do pela litharga. Para conhecer a fallili?' cacao , fe lancao cm liura copo de Yir nlio algumas pingas de liepar de en- xofre ; fe o Vinho tern lidiarga , en- tao fe tolda , e fe faz negro. O aci- do fe ajunta a parte alcalina do hepar , e o enxofre , unindo-fe com o cJium- bo 3 fe precipita formando huma cor negra. Nefta operagao , fe o Vinho nao tern litharga , elle fe tolda fim j porem nao fe faz negro. Os mercadores de Vinho iifao de cal, e geflb nao fomcnte para o cla-? reficarem ; mas tambem para Ihe dar forca. Nao lomente elles iifio defies vcnenos lentos ; porem os recomcndao aos hivradores , ' prometendo-lhes facil compra , fe aifim os rempcrarem. Eil^" falfificajao lie mais difficil de conher cer-fe ; conhccc-fe porem pelos effci-; tos, que o Vinho aflim temperado pro- duz. Paflado algum tempo , o Vinho bebido cauza Jiuma fede fora do cof> tume ; a boca fica com mdo fabor ; e o corpo em lugar de ter huma re- para^ao de forjas , que o bom Vinho produz , fentc arjciednde. O Vinho agoado nao damn i fica a faude J e de todos os enganos , que os tabernciros fazem ao Publico, efle he, o c^uc menos mai Ihc cauza. Algu-* jr.as " DE AgRICUT U R a. ^ ff mas Camaras tern Polluras para co- nhecerem efte dolo dos vinhateiros.- Entre outros finaes o da torcida he o raais commum. Pofta eila no Vi- nho , as partes aquofas entrao por ella a deftillarem-fe. Poreni eila expe- riencia nao pode fazer plena prova , fenao , quando as partes aquoias , que fe delllllaiO , fao muitas. Eila fe tern Jpeito em Vinhos puros ; c nelles ie tern tirado algumas partes de agoa ; o que Jie procedido das partes aquo- fas , que entrao na compozicao do Vi- Jiho. ^ Outra falfificajao , que fazem os taverneiros , Jie a miilura dos moilos mal fermentados com os Vinlios ve- Ihos J a iim de os reputarem por bom prego : eila falfificacao Jie facil de fe conhecer ; porque , ccmo os Vinhos pe- ja dilatada iermentajao infeniivcl , que tern tido , eilao miiito claros , quan- do fe miilurao com os nioftos , que ape- nas tern acabado a i'crmentajao ef- trondoza , eilcs os cnciiem de impu- ridadcs , que ainda nao tern depofio , e fazem perder o criilaiino dos Vinlios veihos. 68 Ha outros enganos nos Vinhos , i"""tacao aos qu^es fe pode chamar dolo bom ; iiv.Mes aillm como aos procedcntes dolo mao. viahos. Eu 82 Memorias jEu fallo do modo de imitar a/Hm o? mais eftimados eilrangeiros , como Na- cionaes- Os AucHiores de fegredos , e re- ceitas dao diverlcs methodos , os quaes ie reduzeai a diffcrenies milluras de gromas , e llibLtancias dulcificantes. Eis:aqui algumas receitas. Tara cmtrafazer o Vinho de Hef- panha, E Vinho branco feis canadas , de mel huma libra , de boas paf- fas de uvas huma libra , ooriandra pi- zada groUa huma oitava , afiucar mai- . eavado huma libra : em vazilha tapa- da le ferva tudo em fogo brando per trez horas. Depois fe coe tudo ; e jneta em gariatas , das quaes fe pode- ra beber , paflados oito , ou dez dias« Para faze r Vinho mufcatel M hum pequeno faco fe lancem flores de fabugueiro , as que qui- ?rem \ efte fe fufpenda no batoque de forte , que fioue metido no moito , o qua! devc ainda ferver ; deve ti- rar'ie paiTados doze ^ ou .quinze dias. E D E A G R I C U L T U R A. t^ Para fazer Vinho do Rhim, M quarenta canadas de Vinho branco fe lancara hum punhado de cafcas de cidra leca , e huma Ca- nada de Ago-arozada. Tapada a pipa , fe deve rodar por algum tempo. De- I)ois fe abre o batoque, pelo qual fe he mete huma aftea de hormino , que alii efla por infuzao vinte , e qua- tro horas. A Para fazer a Malvazia. Verdadeira Malvazia ( diz M.' Garidel ) vem de Candia : aquella em que fe prepara em Coerjem , Soliers , Pignan , e cutros iugares , he quail tao boa. M. Rai poem a Mal- vazia entre os Vinhos naturaes , pof- toque feja hum Vinho , para aifim o di- zer , artificial. A Malvazia lie huma efpecie dc Carenuni , ou Vinho cozi- do \ elle fe faz do mofto das uvas mof- ca-teis , para o preparo do qual fe fas confumir ao rogo a terceira parte. Nos temos a Malvazia das Ilhas ; e a Malvazia de Setubal , a qual fc faz com us uvas meias palladas. 9© M E M O R I AS Outro methodo de fazer a Malvazia. GAlanga , cravo da India , gengi- bre , de cada couza huma oita- va , maxocado tudo le ponha em in- fuzao por vinte e qiiatro horas em Agoa-ardente em vazilha bem cuber- ta. Deitadas eftas drogas em hum pa- no , por dois dias ao menos fe devem ■deixar ellar no VinJio pendentes de hum fio prezo ao batoque. Se a ver- dade deftas imitajocs correfponde aos fegredos, comque as propoem feus AA , eu me nao atrrevo a afiirma-Io. Julgo porem , que eilas imiracoes por via'de efpeciarias i'ao mui fracas a vifta da- cjuellas , que ie fazem , quando com a extraccao , e fermentacao do mofto fe .prafticao as mefmas manobras , com que fe fazem os Vinhos , que fe per- teiidem imitar. Hum tanoeiro meu co- iihecido , baftantemente praclico por -cauza do feu officio na manobra dos VinJios da CJiamufca , foi perfuadido por mim , que fizelfe o mefmo aos feus , OS quaes Jhe haviao de fair , fe- nao tao bons , ao menos melhores , do que erao. No anno feguinte me pre- fentou Vinho , que nao tinha dilferen- ca tiaquclk ; cue fe imitou. AlTinia fi-« deAgricultura; 91 ca dlto o metliodo de fazer os mais eftimados Vinlios de Hungria , dc Champanha brancos , os de" Borgo- nha , &c. elles fe devem imitar pelo ineimo methodo de vindima , e extrac- cao do moflo. As vinhas do Fundao , Alcaide , Covilha , Guarda , &c. ferao mais aptas pclo clima mais frio para a imitacao dos Vinhos brancos de Champanha ; os da Chamufca , Gole- ga , Santarem , Setubal , Torres-novas , Lisboa , &c. ferao mais adquadas pa- ra a imitacao dos Vinhos de Hun- gria. Ifto he , o que tinliamos para dizer affim fobre a cultura dos Viniios , co- mo dos melhores methodos da extrac- cao , e fermentacao dos moftos , pa- ra formar Vinhos de qualidade. Tu lene tormentum ingenio adm.oves Plerumque duro : tu Sapientium Curas , et arcanum jocofo Coniilium rctegis Ly^eo : Tu fpem reducis mentibus anxiis , Viresque , et addis cornua pauperi : Poft te J neque iratos trcmenti Regum apices , neque militum arma. Horacio L. 3. Ode 21. **. NO- DE Agrictjltura; $^ N O T A S (T") Mariz DIalogo. 5. c. 5-; (llj Plinio i. XIV. cap. 21. (III) Os Naruraliftas chamao eftlminas J Jlamina, Lapillamema, aquellas partes da flor, c]ue conrem no fimo huma elpecie de p6, lem o qu.ti nao pode haver fru^flo. (IV) Piftilo he a matriz , na qual fe dtpoziti o p6 fecundante das Eftaminas. (V) Os Romanos faziao cazo de muitas Videiras , que linhao transferido de oucro'S paizes ://;?Jt Thafu vites , frmt et Mareoti- dcs alb£. Algumas razoes dao lugar a con- je6i:urar , Cjue aflim como os animaes le- vadob a di/1-erentes climas a proporfao, que fc afaftao das primeiras rajas, dege- nerao j alKm tambem fuccedera no reino Vegetal. (\''I) Efti regra he rirada de Palladas- , antigo Agronomo ; a qual a razao junta a experiencia tern approvado. (VII) As uvas , que melhor amadure- cem, e que mais facilmente fe paflTao , tern fua difFcrcnfa, aflim na penicula , como nas p.irtes ribroias , deque fe com- poem OS bagos , e mofto , que contem. Hu- mas ao partir cefpegao a penicula inteira , ficando tambem inteiras as partes fibrozas. Eilas ccmo fao a Italia , as Galegas , a que na Beira chamao Folgozno , dao iT.ui- to mofto ; porcm eftc abunda muito em partes aquofas : cutras dao hum eftalo ; e cfus iao as primeiras , que apodreccm , quan- ^^ ' Mem R I AS tjuando Ihes vem aguas repetidas s dao po- rem hum moftb, que abunda no vifcozo doce. Pelo que , a vinha compoftade huma porporcionacfa miftura deltas caftas , domi- nando fempfd aquellas , que abundao no vifcozo doce , he a mais apca ailim para A producfao, como para a qualidade dos •vinhos ; e fera para dezejar, que as vi- nhas fe fofTem fazendo mais uniformes : a deverfidade de caftas deftroe a qualidade dos Vinhos. (VIII) Os Romanos , comb referePli-, nio. 1. 17. c. 22., tinhac cinco gcneros de vinhas. F'incaritm quinque fnnt genera ; unum fparfis palmitibns hmnt repens ; alte- rum peditHUi finiplici adminiculo ffijlenta^ turn i tertitim jugatum ; quartwn compluvia" turn ; qnintum arbuftivMn. Nos defconhc- cemos o primeiro genero ; e no nolFo cli- ma teria muIro3 incomodos. O Segundo , o cerceiro , e o quarto fo fe differen9a- vao no modo de atar as parreiras ; porque no fegundo genero fe atava a parreira a hum fimples arrimo ; porem , quando fe el- la atava , imicando hum jugo de bois , en- tao Ihe chamavao jugara ; e , fe a forma era affemelhando-fe ao compkivio , que era hum lugar no fimo das cazas , cm que fc ajunravao as agoas para della correrem , C Varrao de L. ) Ihe chamavao compluvia- ta. Arbuftiva era a vinha , que nos cha-- mamos de embarrado. (IX) Columeia no c. 16. fallando da vinha de embarrado diz : Arhtifitim inter ijnadraj^enos pedes dijpofitum cjfe , convex hit ; fig cnini ff ipf>i arbor^s , ct appoft- t4. DE ACRICrLTURA. ^f f-i viies melius invalefcmt , fruSltimque me-^. \liorem dahint. (X) A experiencia prova , que as Vi- Ideiras , que ficao para deitar no anno fe- guintc, tern menost vircozo do9e , que as po- !dadas. (XI) A Labrufca he huma efpecie de ^uva preta de bagos compridos , porem delgados , e que amadurecc perro dos Santos : do que le moftra os inconveni- entes , que ella tern para a producfao do Vinho bom : carrega porem muito ■■, e ef- ta he a cauza , porque a efcolhem para as arvores. (XII) V. Blelfeld. Inft. Polit. p. 2. c. I. §. 40. (XIII) Denfa mag is eercH , rarijjima qiLcqui Li£0. Horacio diz o mefmo 1. i. Od. 17 : Nil! lam , Fare , facra vite prius feveiis arborem circa mite folum Tiburis. (XIV) Efta miftura lempre fe deve en- tender das caftasj que amadurecem pelo mef- mo tempo. (XXV) Quando os bacellos eftao ob- ftruidos per cauza da muita humidade , que tinha a terra , em que eftavao abaceilados , pode-fe de algum modo remediar efte mal , cortando a parte mais obftruida , que he, a que eftava na terra , fe elles fao com- pridos •■, tendo-os ao Sol algum tempo , ou cm parte , que Ihes nao caiao geadas. Os que eftao em mao eftado por cauza dc fe acharem fec'os , devem-fe ter alguns dias nietidos cm agoa , nao em toda a fua ex- ten9ao ; porem em parte. (XVI) Morifon ( Voyage au Mont- .6' ^6 Me MORI A 5 iinai ) d\7. , que na planicic de Magcdo Achi-^ ra cjuantidade He meloes bravos tao gran-* Vinhos nos quae fes mifturao muitas )) uvas BarbnroHX , a experiencia nos enfi- 5) na , que o Vinho , que fe extrae defta T\ efpecie de uvas , he muito fuicito a fer- Y mentar , c a toldar-fe , logoque o calor I ji da Primavera fe faz fcntir. » Garidel I Hiiloire des PUntes qui, nailTent ay.^: environs | t) E A d R I C U L t U R A* 9"^ iirAIx. Do que fe moftra , que a multipli-^ cidade de cauas , de que abundao as nollas vinhas , cujo mal nos vem dos nofTos Avos j he hum impedimento , pai-aqne o Vinho alcan9e o melhor grao de perteifao , de que he cnpaz. (XXI) Eu penfo , que hum dos me'os de melhorar os Vmiios , feria a introduc- ^ao deftas uvas : Aiigjler Ttaiihai : c tem- po , em que ellas amadurccem , n-:oicra , que nenhuma oucra efpecie pode tinio abun- dar no vifcozodocej tao neceiTario para a produc9a6 do horn Vin!-;o. (XXII) Hoffman. Hiilorla vini Tocka- vienfis . (XXIII) Devc-fe advertir , que iftd fe^ nao dcve cntender das va2ilhas , que poi? annoi tern fciio V'inagre ; porque eftas con- fervao hum fermenro accrozo , capaz de tor-> nar o Vinho em Viiiagre. (XXIV) O ufo de I'e deicar mexa nas vazilhas antes de Ihes lanfar o mofto he prejudicial ; porque", fendo o lumo do en- xofre hum impedciivo da ferrnenta9a6 , he claro , que , requercndo nelle tempo o mof- to huma boa fervura para fe tornar em Vinho , e impcdindo-lha o fumo do enxo- ffe , efte Ihe he entao nocivo. Boerhaave diz , que huma grande quantidade de qual- quer acido forte Ke capaz de produzir o niefmo effeiro , fendo mifturado com a ma- i teria fermentante : v. g. os acidos de pe- I dra-hume , de nitro , de fal do mar, Sec. piiem , que dies dcftroem os licores. j Chym. I (XXV) O vallo cfpirito de Boerhaave Q pa- 9$ M E r^ O R I A s ra examlnar o; pallbs , que a natureza ic;j;uc ti.T t'ennenL da a materia fc cntra a encher dc bolhas j e a parte mais cfpeflci paila a fupcrficie, e nella forma huma coJea , a qual con- tcm OS efpiritos : e efte he o pr'mciro poriodo da fermcnta9ao. No fe^undo a materia fermentante fe divide em trez par- tes ; a lia , ou flor do \''i!iho , occupa a fu- perficie ; a baixo huma fubltancia liquida ; e mais abaixo huma rabilancia , que co- me9a a pricipitar-fe , que he , ao que cha- mamos borra do Vinho. No terceiro periodo a materia fer- mentante fe divide em duas partes ; huma clara, a tpc ch.imamos \'inIiO ; outra craf- fa, a que fe ch.ima borra, ou fezes. Em cada hum defies periodos os diverfos mo- vimentos , que faz a fubftancia fermentan- te , dao gofto grande ao obfervador Boer- haave. Chymia. (XXVI) Boerhaave obferva , que a fcr- menta9a6 nao poje exiftir, fenao em ca- lor de trinra e feis graos para fima , ate novenra. ibid. (XXVII) Garidcl verbo Vitis. (XXVIII) As experiencias rciteradas mollrao , que hnma canada de agoa do Mediterratieo tirada nos clirr.as quctues tern | huma on 9a de fal ; e tirada no Bakico , I onde o dima he frio , nao tern mais, que meia onja. I Acua ! DeAgRICULTURA. t)!^ (XXIX) Agua de Berkelei faz-fe do fe- guinte modo : Em huma canada de alcatrad fe lan9em quatro de agoa fria j e por ef- pa90 de cirico minucos fe mexa tudo cortl hum pao. Tenha-fe de infuzao por dois dias em vazo bem rolhado , efpumefTe de- pois , e fe lan9e em frafcos , para fe uzar, quando for precizo. Recherches fuf les vertils del eau de Goudron. (XXX) Alem de outros menos inteligen- tes , que tinhao admirado a qualidade , for- 9a , e criitalino do Vinho feiro pelo mc- thodo defcripto n, 48. em 18 de Janeiro defte anno de 1787. , eu chamei hum gran- de lavrador das minhas vizinhan9as , o quat depois de miudas provas concordou com a opiniao dos mais. (XXXI) Em algumas partes o trasfegao pelo S. Martinho ; porem entao fe dcve iuet outre tra'^fcgo em Janeiro. Qii IN- I N D I C E D O QUE CONTEM ESTA MEMORIA. ROEMIO Pag. r; CAP. I. Da vatnreziZ da Fidcira. 2. CAP. II. Da cultura das Videiras. 7. CAP. III. Da viruiima , fcrmcntacao \ e conferva'^ao do Finho " >-• CAP. IV. Das enfermidades do Vinho , e fuas fa!cijica<^oes 75. Para contrafazer P'inbo de Hefpanha. 88. Para fazcr Finho mnfcatel. . . . ibid. Para fazcr Finho do Rhim. . . . 80. Para fazer a Malvazia. . . . ibid. ME- M E M O R I A QUIMICO-AGRONOMICA. SOB RE QUAES SAO OS MEIOS mais coavenientes de fupprir a falta dos eftrumes animaes nos lugarcs, onde he dlf- ficLiltozo have-los i averiguando-Te parti- cularmcnte , fe o revolver , e cxpor por varias vezes a terra a intluencia da At- mosfcra fera hum modo fufficicrkte de fer- tiliza-la ; e fendo tudo comprovado com experiencias repecidas , e autorizadas. Queflao extraonlinaria , propojia pcia Real ylcadcmia dns Scknci.^s de Lisbon. POR MANGEL JOAQUIM HEMRlQUES D E P A I V A. If s* enfmt done de Id que le vrai ntO" y^n defe pajfer des engrais , de fertilifer ncs urres , et (Pen titer tout le parti pdjjible , ne confijle fit* a produire heaucoup de terreau ; C*f/t a dire , ^«' a multiplier ies vegetaia. Dickfofl, CAPITULO I. J)os principiQS mitritixos dos ve- getaes. § I. fgm^ Onsistindo a meu ver , SS*(-=t^)) toda a forca da refolugao def- (iJ-J^:ft:Sl>) te problema no cofihecimen- jS=^^:^i:^<5' j.^ ^^ natureza dos eftrumes , dos feus principios conftitutivos , e do modo , porque obrao na vegetacao ; e nao podendo ifto confeguir-fe , fern. fe .Qpnhecerem tambein os principios nutritivos dos vegetyes , tratarei pri- meiramente deftes no prefente capi-- tulo. '' § n« Em toda a Hiflorla Natural naa ha por certo materia , que teuha da- do occafiao a tantas difputas , como' o determinar os verdadeiros principio!? das plantas. Os Filolbfos antigos af- lentavao , que ellas le alimentava6 uni- camente dci terra affas dividida , e RibtiL. DciV to6 M E M O R I A S § III. Defta opiniao ( § II. ) forad de- pois Tui/ , Dii-Hardel , Linneu , e ou- tros j nao fallando naquelles , que fe perfuadiao que o nutrimento das plancas conliilia em cartas particu'as organicas , que as raizes chupavao da terra , e que nellas fe preparavao , c convertiao ^ na natureza das melmas plantas. § IV. Porem a terra nao pode dividir- fe tanto , que as fuas particulas fejao capazes de enrrar pelos poros , ou de- licadifrimas bocas dos vazcs abforven- tes das plantas ; nem eftas admittem fuflento , que nao feja capaz dc fer abforvido em vapor fluido afias fubtiJ. Alem difto , dilpoftas as plantas fern nenhuma communicajao coin a terra , nutrem-fe pelas folhas , como fe fora pelas raizes. § V. E por confeguinte (§ IV.) as plantas nao fe nutrcm unicamente da terra ; nem efta concorre materialmente para <1 crcfcenca daquelias : fern que a illo ob- beAgeicultura. 107 obfte o alimentarem-fe , e medrarem mais n'um rerreno , que n'outro ; por- que iilodepende, como ad iante fe ve- ra das diiFerentes fubftancias miftura- das com a terra. § VI. Nem fe pode duvidar da verdade defta conclufao (§ V.) , refledindo-fe na iingulariffima experiencia de Helmoncio , confirmada por outra femclhante de Roberto Boile , a qual he a feguinte : Tomei ( diz elle ) hum vafo de bar- ro , e nelle puz duzentos arrates de terra fecca n'um forno : reguei-a com agua da chuva , e nella defpuz huma eftaca de Salgueiro , que pezava cinco arrates > a eftaca produzio huma ar- vore J que no cabo de cinco annos pezou i6q arrates , e quafi trez on- gas. Regou-fe a terra , lempre que foi neceflario , com agua da chuva , cu, deftillada. O vafo era grande , e efta- va fcguro no terreno j e paraque na- quella terra nao podefTe cair poeh-a ,, tapou-fe a boca com huma tarn pa de eftanho cheia de buraquinhos. Nao fiz conta do que pezarao as foihas , que iao caindo nos primeiros quatro an- nos, No fim do quiuto anuo fcquei a lo8 M E M O R I A S a terra , que ellava dentro do vafo , e vi J que pezava 200 arratcs , como d'antes , menos duas oncas , que fal- tavao. § Vll. Igualmente fe moftra fer verdadei- ra a mefma conclufaS ( §• V. ) pe- las experiencias de Gkditj'ch , e Bofi- vet ; OS quaes experimentarao que as plantas metidas em muigo , cu n'uma efponja entre vidracas , c rcgadas com agua , medravao bem , c flloreciao : e pelos experimentos de Dtc-Hajnel ^ que achou por analyfe Quimica , que as plantas cnadas em agua conti- nhao as mefmas partes , que outros pes da mefma efpecie criados em ter- ra ; e finalmente pelas experiencias de Kraft , e de Aljion , os quaes femcan- do avea , e canamo em diverfas fubf- tancias , a faber , em terra pinguc , em areia perfeiramente fecca , em aparas de papel , em pedacos de panno , em feno machucado , e regando depois as ditas fementcs com agua obfervarao que fe criavao igualmente bem , aifim n'uma , como n'outra iubftancia com curtiffima riifFcrcnja , em quanto ao tempo em certos cafos. Fi- DE Agricultura. 109 § VIIL Finalmente confirma-fe ainda mais a rcferida conclufao ( §. V. ) pelos experimentos de Tricxald feitos em Suecia , e de Eller em Berlin \ eile obrervou , que fe dera perfeitamenre huma porcao de pepineiros n'uma ter- ra , cujo pezo crefcera , em vez de di- ininuir-fe ; c aquelle vio , que , poftas as raize> de Jacinthos em agua def- tillada , nao fo prcduzirao plantas per- feitas \ mas depois de queimadas de- rao verdadeira terra. IX. Defies experimentos ( §. VI. VIL VIIL) podemos iim inferir que as plan- tas abforvem grande porcao de agua ; mas , que efta nao he o unico alimen- to dellas , como fe perfuadiao os ci- tados Autores ; pois as plantas, con- forme diz Sage , e outros , nutridas iinicamente de agua nao chegao a frutitica^ao completa j e as cebolas , que fe fazem florecer no Inverno em garrafas , iancao muitas folhas , e fio- res menos cheirozas \ mas nao fruri- ficao : e ;,fegundo adyerte Wooclvjard ^ as ilO M E M O R I A S as mefmas planras cefiao de crercer , e nao completao a vegctacao, onde nao ha terra vegetal. § X. Donde podemos concluir Coirl Bradley , c outros Fyficos que as plantas ncceflitao d'outro principio nu- tritive , alem da agua , e do que Ihes da a terra vcgetaL Qnal he pois cile ? Alguns Filoiofos , tendo obier- vado , que nenhuma planta pode me- drar em lugar privado de ar , e ten- do igualmente moftrado , que ha ar dcntro dos vegetaes , pertenderao com o Doutor Halles , que devia admitir- fe aquelle , como elemento dos mef- mos vegetaes ; e fundados niilo con-' chi^rao , que elle contribue fobre ma- neira para a vegetajao. § XL Mas , para averiguarmos com exac-^ ^ao efta queflao ( § X^ ) , devemos contempiar o ar. 1. ) purificitlo , e fcparado de qnaI-< quer outra fubftancia ncterogcnia j ifto he , como vcrdadciro ar. z , ) combinado c£ Agricultural ti^ todas as feis couves eftava6 igualmen* te rodeadas defte elemento ; e toda- vla as trez plantadas no feu jardim era6 mais vigorozas , que as outras , que eftava6 em ar delcoberto j mas eni liuin lugar efteril. § XV* Comprova-fe illo ( §. Xlll. XIV. > ttiais evidentemeiite com as experien-* cias de certo Autor das Reflexoes [o* bre o eftado aftual da Agricultura , Has quaes fe ve j 1. ) qiie a vergontea de arnendoelra ,' que eftava dentro de hum pequeno quar- to , cujo ar era inficiotiado dc vapores de efterco frefco , lanfara boroes , flo- res , e fdlhas , femque o refto da aman- doeira , que ficara de fora ao ar livre^ delTe nenhum fignal de vegetajao: 2. ) que t)3 ramos de outras amen- doeirds , de hum damafqueiro , de huma rozeira , e de hum jafmineiro , que in- tfoduzira por hUm buraco dentro da ca- valhari9a , cujo ar na5 he puro , vegc- tatao com vigor , e florec&rao primeiro ^ H que toque as raizes eftivefTem em boa terra , eraS mengradas , pallidas , e pequenas ; e ao contra- rio as outras , que eflava6 no jardim , nao ob~ flante a mi terra , em que eftava6 , a-s raizes fUQ grandes j c. mui vi5czas.^ |JI| - M E M O R I A S t; . que OS que eftava5 fora ; nao obftant* ^ nafcerem do mefmo tronco , e eflarenj ao ar defcuberro : :5. ) que duas ccbolas , que depen- ■■ durara n'um pequeno quarto , onde efta- vao apodrecendo pequenos animaes , t cujo ar por coniequencia era alias imr puro, engronara5 muito mais , e lanja- rao niaior numero de folhas , do que outras duas , que eftavao dependuradas no te£lo de hum ccleiro limpo, e,bem arejado. § XVI. Poiem , contemphdo o ar , comq Atmosfera , que he hum compofto dc muitas fubftancias , entre as quaes fe iiota o ar puro , o flogifticado , e o inflammavel , e no qual relpirao os ani- maes , brotao , vivem , e crefcem os vegetaes , he inconteilavel , que da as plantas certo principio nutritivo : e das expericncias aciuia rcferidas ( § XIV. XV. ) fe colhe evidentemenrc , que o mencionado principio dimana fern dii- vid^a dos eftrumes , eftercos , e ani- maes , que apodrccem ; o qual parece fer o gas inflammavel , e o flogifticado ; viito , que fe defprendem d'aqueiles corpos J fegundo moftrao os Qiiimi-*- cos J pela fermenta^-aoj e podridaCi , e' que conftituem Jiuma parte daAiracs-, lera. £.^ § XVIL E na verdade o c^lebre Priejlley , alem de moftrar , que as plantas ve-* geta6 no ar impregnado dos vapcres podres , ou flogifticos , que rezultaS da podridao , e da combuftao , e que ellas *ab!brvem f6mente os principios mallgnos , deixando intacHio o ar pu- ro , provou com expeiiencias , que as plantas crefcem muito mais no ar flo- gifticado , que no commum ; e menos no deflogiflicado , que naquelle. § XVIII. Alem difto ( § XVIL ) obfervou o Inefmo Priejlley , que 1. ) OS pes de Salicaria , qtie puzera debaixo de campainKas cheias de af commum , vegetarao alii optimamente i 2.) nenhum defies pes (I.) abfor- V&ra mais , que a quarta parte do dito ar: 5-) outros da mefma cafta, poftos no ar flogifticado, abforv&rao hum pou- CO , e chuparao todo o flogiflo , e o pufificarao fobre maneira j ifto he j-- tor- narao-no fimilhantc ao ar commum : 4. ) as mefmas plantas abforvcrao intciramente o gaz itiflammavel , quando J»uro , e au(]|uinra6 nelle grande vigor : JJ Ji pof-r %l6 Memorias 5. ) poftas eftas plantas no ar deflo- gifticado , murcharao j e durarao muiro pouco tempo. § XIX. DasreferidasobfervagoeS) (§ XVIII.) e das ounas ( § XIV. XV. ) fe colhe claramente , que 1.) as plantas nec^eflitao do flogifto, C fobre tudo do gaz inflammavea para medrarem , e que aelle fe apoderao avi- damente, onde cjuer que o encot^trao : 2. ) o ar podre, ifto he , o fluido ae- rlforme , que fae das fubftancias , que apo- drecem , o qual pela maior parte confta do gaz inflimmavel , do flogifticado , e do acido acreo , he o verdadeiro princl- pio nutritivo dos vegetaes ; poisque neile crefcem admiravelmentc , e o con- fomem fern deixar mais , cue hum pou*| CO de ar puro , que Ihes fervia de bafe» § XX. Porem > apezar d:is experlenclas , c obferv-^^oes aciraa referidas , ( § XIV. XV.XVIII.) comque provamos ferem os efiuvios podi es , e fobre tudo o gaz inflammavel , o principio nutritivo dos vegetaes; oDoutor Percival , Me- dico Inglez , a quern nao podiao fcr defconhecidas aquellas experiencias, ( § XIV. deAgtitcultura. 117 ^§ XIV.XV.XVIII.) difTe, e affiima em conlequencia de ver medrar plantas na maquina do Doutor Nootb por meio do acido aereo , que efte era o verda- deiro paflo , e alimento dos vegetaes. § XXI. Defpertado o Doutor Priejlley pe- la autoridade deile fabio Medico , ( § XX. ) a qual era contraria a fua opinia6 , repetio , mas inirucfluoza- mente , as experiencias do referido Medico ; e por confeguinte fufpeitou^ que efte fe havia enganado. § XXII. Porem , tendo o Doutor Ferchal feito as fuas experiencias na maquina de Nooth , cuja conftrucjao he tal , que lo permitte prefentar as plantas huma miilura de mul pouco acido adreo , e muito ar commum , e ha- vendo repetido as mefmas experien- cias em outros vafos com mifturas ar- tificiaes de acido aereo , e dc ar com- mum em difFerentes porporgoes , de que a menor era j do mefmo aci- do , e "I do dito ar, fern ja mais a imi- ' ilS M E M O R I A S imitar a proporjao accidental do cI- tado Fere real , nao he de eftranhar., que as plantas medraflem dentro da ra* ferida maquina , e que morrefTem com as experiencias de Priejlley , onde ha- via fempre maior quantidade de aci- do aereo. § XXIII. E com efFeito o mefmo Priejlley ^onfega , que fazendo crefcer algumas plantas com a raiz em agua pura, e outias na melma quantidade de agua impregnada de acido aereo , eftas me- drarao , e viverao muito mais , do que aquellag ; poisque as plantas , que "^eftavao em agua pura, morrerao no ca- bo de quatro dias, e as outras huma femana depois. § XXIV* Porem quer o dito Priejlley , que «fte efFeito ( § XXIII. ) dependa do ef- timuio , que nas raizes faz o acido aereo ; porque > conforme as fuas ex^ jperiencias , I. ) as plantas nutridas em agua , em que ha alguns gHos de fal , ou algu]- mas, gQttas de acid^ nitrozo 3 medraot DE ArJRieULTUR'A. fl^ f.'fluafi da mefma forte , tjuc na do acL- co acreo : 2. ) aquellas , cujas raizes eftao em agua , que concern cpafi trez graos de fai por onfa , crefcem com admiravel ce- .leridade: '5 3- ) ^5 plantas poftas em- agua ,' que - contenlia maior cuancidade de ial ^ ou dc - acido 3 morrem logo. § XXV. Mas , feja , como for , nao fe j.ode negar , a vifta das mencionadas cxpe- riencias , e autoridades , ( § XX» XXIV. ) que o acido aereo entra pe- las raizes das plantas , e que ou he hum dos feus principios iiutritivos , ou concorre , como inilrumento , para a vegetajao. § XXVI. Alem de todos os mencionados principios nutritivos das plantas , iia outro igualmente interelfante para a vegetacao , c ibbre tudo neceflario a frudiiicacao , que he a' hiz ; porqi;© I,) as plantas privadas daTuainfiu- . cncia fao mengradas , e apcnas dao^fo- i Ihas pequenas , mal conformadas , e def- ^T.'fcradas : 1. 2.) as que eftao na efcurldade , hao '^Jao flores , nem frudos"; , mui- tld Memoi^ias 5. ) muitas , criadas fomcntC a fom* bra, fao eftcrcis, § XXVII. Vifto pois pelas experienclas de Jlelmancio , Boyle , Gkditfch , Bon^ net , Du'Hamel , Kraft, Aljlon , Trie* nvald, e Elkr , (§ Vl.VII.VlII.) que as plantas abforvem grande quantidade de agua : pelas de Saffure Pai , do Ano^ -nynw^t&tPrieJlley, (§ XIV.XV.XVIL XVIII. ) que expollas as mefmas plantas ao ar podie , alterado pelo flogiilo , ou mifturado com o gaz inflammavel, vegetao , e medrao nelle affas bem , e Ihe abforvem os principios malignos : c pelas de Percival , e algumas do nieimo Priejlley , (§ XX.XXIIL) que o acido aereo , tendo contafto com as rai- zes , promove a vegerajao, e faz alon- gar confideravelmente as plantas: vif- to emfiin , ( § XXVI. ) que a luz he ef- fencialiffinia aos vegetaes , podemos de todas eftas experi^ncias , e autorida* 4es concluir, que I. ) o gaz inflammavel , e a luz ab- forvidas pelas folhas , a .igua , e o aci- do acreo chupados peias raizes , e mais partes externas das plantas , fao os feus verdadeiros principios cicmcntares , e Tiutritivos : lAi DE ASRICULTVRA.* Ill 2. ) todos OS principios proxitnos das mcfmas plantas , como os oleos , rcfinas , gommas , faes , &c. fao formados pelas varias combinagoes , e decompofifoes daijuelles , durante a vegeta9a6. C A P I T U L O II. Da nature'za dos eftrumes. § XXVIII. HAvendo moftrado no ' capitulo antecedente , que as plantas fe nutrera , e alimentao principalmente do gaz inflqmmavel , e do acido a(freo , colhe-fe direitamente, que as fubllancias, que derem ambos eftes principios , ou hum delles, fao os verdadeiros eftrumes, e OS que na verdade accelerao a ve- getacao , e fazem medrar os vegetaes ; concorrendo tambem , como flea dito , ( § VI.VII.VIILXXVI.) a agua, e a luz, que a Natureza da em ^bundancia. § XXIX. E como nos trez Reinos da Na- tureza ha fubflancias , d^s quaes , me- diante a fermentafad , podridao , fa^ .tifcencia , e outras vias , fe defpren- ^eiT) , e feparao os mencionados dois prin- Hi Memorial •: fcrinclpios ( § I. XIV. XV. XVII. XVIII. XX. XXIV. ) , podemos razoa- damente dividir os eftnimes em ani- maes , vegetaes , e mineraes , aos quaes acrefcentaremos outro com o nome de eftrume mixto. § XXX. Os eftrumes animaes fao *ou os eftercos deftes , ou as luas partes mo- les , e duras ; vifto que de todas eftas fubftancias fe defprendem por nieio da. podridao o gaz inflammavel , e o acido a6reo. § XXXI. Os eftercos pois (§ XXX.), que os Agricultores' fundados em principios falfos dividem em mais , ou menos quenres , devem-fe reputar, como ,-os JTiais infer lores ; porque 1. ) enrrao mui facilmente em podr?- <3a5 , e delles fe defprendc tanta copia de gaz inflammavel J e de acido aereo, <]uc efte deftroe as raizes , e acjuelle of- . tende as folhas , e botoes das plantas ; e por iflTo talvez os Agricultores os guardao longo tempo amontoados ao ar livre , e nao ufao delles frefcos : 2. ) a podrida5 he tao momerrtSnea J ■ ^uelles ; e por ifTo os feus efteitos durao mrxis : ^. ) rem a precioza vantagem de eftor- var a multiplicafao dos inie6ios. § XXXV. Defies ( § XXXIII. ) reputa-fe por melhor o ere , que , fendo puro , con- tem J fegundo as experiencias de Berg^ man , por quintal quail :54 anates de acido aereo , e i j de agua. E com efFeito todos os outros , ■como a marga , a cal extin£n;a , a ca- liga , &c. nao fertilizao os terrenos , fenao em razao da maior , ou menor quantidade de ere , ou terra calcarea , ^ue contem 3 ifto he, de hum com^i I pof- DE Agricultuka. I25: podo de acido a^reo , e de terra abforvente. § xxx\n[. D'aqui ( § XXXV.) pois , e do que difle no (§ XXXIV.) p6de-fe direitamen- te concluir, que os eftrumes mineraes ( § XXXIII. ) nao fertilizao o terreno j nem nutrem as plantas , fenao em razao do acido aereo , que contem , e que delles fe defprende , durante a fua de- compofijao. § XXXVII. Mas, como pode a cal viva, a quem o fogo privara inteiramente do acido aereo , e que tern a virtude de attraiiir efte , onde quer que exifte , enirar no numero dos eftrumes mine- raes , OS quaes f6 fertilizao os terre- no3 , como fica dito , ( § XXXVI.) dan- do-lJies acido aereo ? § XXXVIII. ^ A efta duvida, ( § XXXVII ) que i j prlmeira villa parece deftruir a te6ri- ca eftabeleclda, (§ XXXVL) p6de-fe dar liuma refpofta mui natural , fern nc- cefr Ti5 ■ M E M O R I A S cefTidade imaginar caufas , e cntida" dcs , cuja exiftencia , e realidade ja-? mais fe pofla6 provan He verdade , que a cal viva tende affas a attrahir , e carregar-fe do acido aereo , e da agua ; de man.eira , que efpalhando- fe fobre o terreno , longe de dar as plantas principios alimentares , priva a Atmosfera , que efla em torno del-* las , do acido aereo , e Ihes furta a iiumidade, que deveria fervir de ve- Wculo ali in en tar, as mefmas plantas ; pelo que algumas veze3 as fecca , e def-* troe : mas com tudo , abforvendo da At- mosfera o acido . ac^reo , de que fora privada pela calcinacao , pouco , e pouco fe converte no que d'antes era j ifto lie , em terra calcarea ; e entao he y que na verdade comeja os feus bons effeitos na vegetajao ; de forte , que fegundo as experiencias de Anderfon , ( ^ ) apenas fe manifeftao no primei- ro , e fegundo anno ; e fo defde o terceiro he, que fao notavelmente fen-^ iiveis , e vantajozos : ou , como obfer- vou o Doutor Home , {b ) no primei- ro anno nao faz mais, que matar os vermes ,5 e inferos ; o qual aflegura tam-' (a) EfTay relating to Agriculture , &c. torn. 1 I. pag. 39 1 ► - I Ck^ The principiss of» Agriculture, DE AcillCULTURA. IIJT tambem por confiflao dos Agriculto? res , que a calija , que efta totalmente extin(fta , e o entulho dos edificios" , he muito melhor eftrume, que a cal viva. § XXXIX. '," • D'aqui pois ( § XXXVIII. ) fe co^ the, que a cal viva nao pode fer util aos terrenos, fenao depois de convertida em terra calcarea ; e que , fe ha algu- ina vantagein na calcinagao , he cuf-. tar menos , e reduzi-la a p6 fubtil , e poder-fe melhor tranfportar. § XL, ij ' E com effeito ja Du-Hamel , fa- f zendo cortar , e picar marmores para I as chamines da uia caza de campo , ' cbfervou por acazo , que a poeira , e peda^os do mefmo marmore fizerao I crefcer com muiro vigor as gramas I no lugar , onde fe trabalhava ; c { que a vegetajao continuara ahi com . Hiais for^a , que n'outros lugares j e. j conjeiflurarido por ifTo , que a pedra ' calcarea em p6 poderia fervir de eftm- me tao bom , e tao aiflivo , como a cal j viva , efpaihou por fima do terreno •a pedra calcarea em p6 ^ e verificou a fua 128 M E M O R t A S Tua conjedura pela immenfa fcrtili-i dade , que fcmpre obteve. § XLI. O Arcebifpo de Dublin re fere nag Trail fac^oes Filofdficas , que em Cey* la6 fe tertilizao as terras , elpalliando nellas conxas calcinadas ; e que n'ou- tro tempo fe ufara na Irlanda defte mefmo methodo ; e adverte , que cer- to lavradoi' , ou por pregaica , ou por mizeria , ten do cfpalhado fobre o ter- reno as conxas fern as calcinar j achara ^ !. ) que a fua primeirt colheita fori tao boi , como a dos feus vizinhos , . ^ue fomence ufarao de conxas calcina- das : 2. ) que a fegunda foi multo melhor^ que a dos feus vizinhos j e a terceira ain-? da mais abundance. § XLIL Efte fucceffo ( § XLI. ) defenga- j nou , e abrio os olhos aos mais , que | defde entao preferirao com vantagem ' o fortilizar feus campos com conxas, ^em fcrcm calcinadas. UE Aqricultura; 129 .1. § XLIII. Mas independentemente das men- cionadas experiencias ( § XLI. ) fe de- viria ter advertido , que 1. ) as marges fertilizao os terrenos fo- mente em razao da terra calcarcn , q e concern com todo o feu acido a; r o : 2. ) as terras deixadas prio mar , , e compoilas de mui pouco lodo vege- tal , e muica quantidade de pedafos , e poeira dc conchas calcareas , fao ferci- liflimas. § XLIV. . Henry , celebre Boticario Inglez , depois de provar , que o acido aereo pode ler utilifTimo na vegetagao , (ci) accrefcenta as reflexoes feguintes : Ora a terra , ou pedra calcdrea antes da calcinacao , ou quando expofta ^ duran- te muitos mezes , ao ar livre , depois de caicinada , contcui quad amctade de feu pezo de ar fixo , ou acido aereo, e de agua. Nefte cllado ei'pa- IJiflda pelo terreno attnihe gradativa- mente o acido contido na terra , e o que fe acha no ar. No tempo da uniao I ex- (45 Memorias § LXV. He verdade , que em alguns luga- res fe obierva , que de duas porjoes do mefino campo , exaffbamente nas jnefmas circunilancias , e fetneadas da meiVaa quantidadc de trigo , aquella , cuja terra fora mais dividida pela la^ vra , prodiizira inais , que a outra , que fc lavrara menos. E o mefmo Mor- gue , ja cirado , diz j que , fazendo la- vrar piofuiuiamemc liuma por^ao de terra , cxpondo-a por vr.rias vezes ao ar 3 culdvando iegunda peio methodo ordinirio , ea tercel ra , eftercandc-a com dlerco de ovelhas , e carneiros, ficira afTas fatisfeito do produCio do trigo da primeira porcao , lavrada profunda, e frequentemente ; pois co- jijera huma quantidade qu'ifi igual a que tin ha tido ua porcao citercada. § LXVI, Pbr^m dcftas experienclas ( § LXV.) jiao fe pode deduzir , como com ef- feito deduzjrao lull , Du-Hr,7ncl , e outros , que as Javouras rcpetidas po-. dem fervir de cdrume j poisque o mefmo Morgue , fa- DE AgRICUTURA. 147 1. ) fazendo lavrar amiude , e com toda a piofundura , que permitria o ara- do , amctade de hum campo graridi^ , , fern o eilercar , e a oucra anierade , fj- gundo o coftume antigo, e fcmern.lo ambas de rrigo ao melnio tempo , as refultas forao totalmente oppollas ao que efperava ; porauc , nlcm de nao produzirem as reperidas lavras os efFeicos dos eftrumcs , o trigo , que aquel- ia deu , foi inferior , e muito menos , que o d'efta : 2, ) efcolhcndo para as fuas cxperien- cias hum diiatado campo , que paffava pelo melhor do lugar , e , dividindo-o em quatro partes iguais , fez eitercar a pri- meira com eftcrco do curral, e, que fe cul- tivafTe pelo methodo ordinario ; a fegun- da c(lercou-fe com o gado de la , e fe cultivou , como a primeira j a terceira fc lavrou a miude , e profundamente ; e a quarta em fim pe!o antigo co-tume ■■, if- to he , com poucas iavr:i5 , c fcm nc- nhum eftrume. A femen.teira de todas . ellas tez-fe ao mefmo tempo , e com a mefma femcnte • e por fim obrervou , que a colheita de trigo fora exceilentc nas partes eftercadas ; boa na parte cul- tivada com lavras , e neuliuui efterco ; e pellima na Oiie fe havia lavrado re- petidas vezes. § LXVII. • Aiem dido, ( § LXVI. ) repetin- K ii do- 148 M E M O R I A S do-fe por muitos annos a mefma e\'-^ periencia ( § LXV. ) fobre o terreno , em que nos piimciros annos furtira bem , nao fo i'e reconhecera facilmen- te o erro j mas vcr-fe-ha , que I. ) nos primeiros annos a porfr.o do campo lavrado a triiudc da mais fru- ^o ; ou por center ainda eftrume , ou por andar mais mal culiivado , e haver no interior dcUe alguma camada de ter- ra vegetal, que fc rcvolvera com as pro-- fini^.s lavras de nianeira , que expof- ta a fnper:icie deia as plantas os prin- cip OS nutntivos ' z. ) eila 'nefma por9ao de campo da meno; fni6\o , a medida da cvapora9a6 torfaji , c abundantiflimi dos princlp'os iuuritiv05 5 que occafionao as frequen- tcs lavras , vindo por fi;n a afracar-fe a terra , como obfervarao os Agricultorcs Romanes : 5. ) a por9ao de terra frcf|nentemcn-> te lavrada fica totalmcnte efteril mui- to antes , que a outra dc ilgnacs de peioi vapiento. § LXVIII, E OS Agricultores , que Iavra6 a terra , e a ex poem por varias vczcs ao ar , teriao ja experimentado ef- tas trifles confequencias ( § LXVI, LXVIL), fe tivcflt-miDtciramciHc abra* DE AgRICULTURA. I49 ^ado o fyftema de Tull , de Du-Ha-' 7/ie/ , e nao as reparaflcm dc alguma forte com os differentes ertrumes ^ de que ji fallamos. § LXIX. De todas cllas expericnclas fe In- fere direitamente J que, revolvendo-i'e muitas vczes a terra com frcqucntcs lavras , fen-ao faz mais , que accelerar a evaporacao dos principios jiutriii- vos J deflipando talvez trez quarto.> do alimento deftinado para os vegc- taes ; e obrigando o Agricultor a iuf- tentar immenias beftas , e fazer tra- balhos , que poderia fern duvida evi- tar. § LXX. E , pofloque Xencfonte , Findafo , Vtrgilio , e ourros Autores antigos , recomendaflem as lavouras , e Icuvai- fem a frequencia dellas , todavia o mefmo Virgilio adveriio ja , que eiao nocivas era ditferentes tempos do an- no. {a) Ef- (fl) Ncc tibi tarn prudens quifquam perfiiadeat audor , Telliirem borca rigidam fpirante movere : Et ftsrilis telku medio v^rl'sm fub srv.. jt^.o Memo R IAS § LXXI. EUc mefmo Pocta ( § LXX. ) difle , que as terras magras precizao de meiios lavras , que as forres , pa- ra nao pcrJereni a pouca iubicancia, de que gozao. (^) § LXXII. E de tudo , o que fica dito neftc capimlo , e ainda nos precedentcs , concluimcs , 1. ) que o revolver as terras , e ex- pSr por varias vezes a terra a influen- cia da Atmosfcra , na5 he hum modo fnrHcientc de fertillza-la ; e por confe- quencia , que elle trabalho nao pode fup- prir OS eftrumes : 2. ) que as lavras profundas , e fre- quenres , em vez de tertilizar a terra , a cfterilizao : i>. ) que as lavras feiras com pruden- cia , e accomodadas a natureia do rer- reno , e em tempos convenien-tes , po- dem de alguma forte promover a vege- ta9ao , e concorrer para a producfao dos fruilos. I N-. At, fi non fuerit telliis fseciinJa fub ipluni Ari£)Lirijm , teiuii fnt ent lulpendere lulco. Illic otficiaiu Ixits ne frugibi;-! herbnc- (a) Hie fteiilem exi^uus nc deferat butnof aren.i;r, I N D I C E '^' D O QUE CONTEM ESTA MEMORIA, V_^ AP. I. JDos principles rutritivos dos vegetaes Pag. 105, CAP. II. Da nature7a ^ci ejlnmes. 121. CAP. III. £m que fe averigua particw . larmente , fe revolver as terras , e fx- fo-las por varias vezes a infucncia da At- tnosfera , ferd hum n,odo Jiffficietite defer- tili'za-las. ».,...... 145. UE' I M E M O R I A, QUE CONCORRE A o ASSUMPTO EXTRAORDINARIO , de AgricLiltura propofto pela Aca- demia Real das Sciencias pa- ra o anno de 1788. P O R JOZE VERISSIMO ALVARES DA SILVA. Jnfelix a^er , cujus villicus magijirum non audit , fed docet, Colum. Recobra o anno fertil , e abundante , Na terra o lavrador , fe nella canfa. Camoes. Egloga V. 1 ^f^i.i5^,i^^*^,J!£>Si^*^^^9w^(^*^^ j^ ;oc<;cx;<;cxxx; quel vou a expor a vofTa cenrii- ra. Eu me julgarei bem recompenca- do delles , fe no vollb juizo eu po- der dar aos meus Cidadaos algumas 11050CS uteis ao bcm da Agiicuitura ; para augmento defte v6s propofeftes ,, 5, Qi^iaes lao os mcios mais conveni- 55 entes de fupprir a falra dos eftru- 3, mes aniinaes nos lugaies , onde he 5, difficultozo havc-los ; averigiiando- 55 le particuhirmente , ie o revolver , 55 e expor por varias vezes a terra a ,5 influoncia da Annosfera , fera hum 55 modo fufficientc de ferrilifa-Ia ] fen- 5, do tudo comprovado com experieii- 5, cias repetidas , e autoriladas. 5, Queira o Omnipotente dirigir as minhas ideas na fua folujaoi para a qual fera bom dar primeiro algumas nocoes , relativas ^o fucco nutritivo das plantas. C A P I T U L O I. Da feva , ou fucco nutritivo , das plantas. Diverfos 2 /^ Ual feja a natureza do fuc- fvltemas ■ ■ -' fbbre » V^ CO nutntivo das plantas , o feva. modo , como he traballiado , fe li9 hum uniyerfal , e hoinog^neo a to« DE AGRICULTtTRA'; 15^7 todas as plantas , ou fe he diverfo pa- ra cada claiTe de plantas , que meios fe poira6 empregar para as fazer ve- getar com vigor , fao pontes , que a probablidade Fyiica difputa varia- mente. 3 Muitos FyilcDS feguindo o fyf- tema de Mr. de BufFon ( Saintignon Trait- de Phyf. p. 4. c. i. ) dizem , que todos os corpos organizados , ai- nm vegetaes , como animaes , fao (1.) compoflos de partes organicas ; e que na formajao das plantas as partes me- talicas , oleozas , os faes , a terra , e o ar , entrao fo em certa porj ao pa- ra variar a materia organica , e viven- t? , c fazer diverfas claiTes de vege- taes : a qual materia organica , confor- me Heji-kg! , efta efpalhada por toda a parte aflim na terra , como no ar. 4 Mr, Tuil Inglez , e outros Fy- ficos , que vierao depois delle , iize- rao a terra o conftitutivo eflencial do fucco das plantas ; porem a terra re- duzida a pOj e particulas minutiflimas. As plantas , dizem elles , fe reduzem em terra pela podridao : os outros pincipios , que entrao na fua compo- Zijao , nao fervem taivez mais , do que pnra dar a terra as preparajoes ne- ceilarias para a fazer propria , para nu- trir 1'5'S^ Memoi^ias trir as planta?. Os fies atenuando a terra ; a agoa fervindo-lhe de vehi- culo ; o ar , e o fogo , dando-lhe a(fti- vidade. ( Du-Hamel de Monfeau. Trat. de la cult. t. i. c. 3. ) 5" Houve outros Filolbfos , que pu- Ehao a eflencia da feva das plantas na agoa. Nao contribuirao para ifto pouco as experiencias de Vanhelmon , e de Boile. Vanlielmon pJantando hum falgueiro , que pezava cinco arrates , em hum vazo cuberto de huma bar- ra de chumbo com aJguns pequenos buracos para fer regado , no fim de cinco annos achou , que o falgueiro pezava cento feflenta e nove arra- tes e trez oncas j e que a terra do vazo nao tinha perdido no feu pezo mais , que trez onj as. Boile poz em agoa clara ramcs de horteiam , c man- gerona , os quaes pezavao meia on- ^a , e depois pezarao trez on^as ; e fendo deftilados nao derao differentes princlpios , nem em menor quantida- de , do que outros ramos das mefmas plantas , e de igual pezo , que tinhao iido creados em huma terra forte. ( Geo- froi prin. dos corp. ) 6 O ar tambem teve Filofofos feus partidiftas. I. , dizcm elles : Por- que fern ar nap fe pode crear nenhu- ma DE AGRICULTtJBA. 1^^ jna plants : II. , porque fe vem gran- dcs aibuilos , arvores , e outras plan- ta;, em abv-Tturas de rochedcs, e em muros velhos , onde as raizes nao po- diao achar terra , ou agoa confidera- vel para a fua nutri^ao. (*) A eftas razoes , que propoem a Atmosfera , co- nio o fundamento da nutrifao das jilantas , nos podemos acrefcentar as feguintes : I. quaefquer fementes de plantas , pofloque fejao fcrneadas cm boa terra , e convenientemente humi' dicida , ajuntando-lhe os graos de ca- lor competente , fe rem debaixo dc hum copo , nem nafcem , nem d?6 lignal algum de vida. ( Boerhaave Chym. ) II. as plantas mais vigorozas , tira- das do ar , e fechadas em huma ca- za J pofloque fe liies de calor , e agoa preciza , afrouxao , e morrem ; e ss que eflao a fonibra dc grandes ar- vores , fao languidas , e frouxas. III. criem-fc quaefquer plantas com lachos frequentes , que as facao bem vege- tar ; cfcolhao-fe ac]uelliis , que tenhao igual vegetajao j humas fiquem em ar livre J e as outras ponha-fe huma ef- {)ecic de chapeo de fol , feito de fo- a, papelao 6cc. ; continueu>fe-lhes os ia- ' C * ) As teboliS ve^^taiJ uUeir-imente i;^ At* 1^ Mem©riAs fachos : as que eftao em ar livre , con- tinua6 em profp.erar; e as que eftao vedadas , enfraquecem , e pcrdem o vigor. IV. poiloque os Lavradores po- niiao OS melmos adubos , e Ibccorrao as plantas com fachos , e regas ne- ceflarias , elles obfervao , quff- as ter- ras produzem os fruiftos huns annos melliores , do que cutros j ao que cha- mao fer , ou nao , anno da coifa. A cau- za fe pode deduzir da diveriidade da Atmosfera ; porque efta , como he hum liquido , compoilo das particulas vc- lateis de todos os corpos , pelos di- verfos balanibs , correntes , e fermen- - ta^oes , que tern, nr.o he iempre a mefma. V. as plantas na Primavera , e Outono , he , que tern o maior grao de vegata^ao , tempos , em que cs cr- valhos , e os ferenos , fao niais abun-> dautes. ( H ) FeHexo- y _^s raizcs das plantas fao as OS Syrte. prmcipacs bocas , comque elhis tirao na^pre- (j^ terra O' feu fuftento ; feja por hu- tes, ' ma forja abforventc , e efponjoza j fe- ja por hum tado natural , pelo qual cada vivente procura , o que Ihe he precizp para a iua confervajao. 8 As anclyfes Chimicas mcftrao, que a feva , cu fucco nutritivo, das plantas p he compolto.de oieo ,, terra, agoa , DE AcRlCtyLTUR A. i^t agoa , ^r, e fal. E a maior probabi- lidade indica , que a leva he univer- fal , e homogenea em todo o Reino vegetal , diveifificando-fe as plantas em razao das differentes filtrajoes &c., que ella recebe em cada efpecie : dQ mefmo modo , que das mei'mas ervas fe fuftentao diverfas efpecies de ani- maes. ( III ) o Refledlindo nas diverfas thcori-^^^^; as , que hcao expcltas , e que enlinao jbie os qual leja , e donde vem , o fuftento'V/^enias as plantas , ve-fe bem , que cllas nao^emei. nos dao hum fyjftema fufficiente para explicar todos os diverfos mccos ex- perimentados de fecundar as tei'iras. Nao he fufficiente o fyllema de Mr. de BufFon j porque , alcm dos mui- tos , e fortes argumentos , que ha con- tra as formas organicas , elJe nao eii- iina OS meios , porque fe poira6 dar as plantas eftas partes organicas , de que fao compcftas. O fyllema , que fez a agoa o principal luilcnto das plan- tas , menos concorreo ainda para co- uhecimento dos meios de fecundar a terra : do mefmo modo , que o fyf- tema dos que derao a Atmcsfera as principaes fungoes na feva , cu fucco Jiutritivo dos vegetaes , fern concide- jarem os meios , com que a terra ie at- h te .l62 M E M O. R I A S ^ atteniia , e prepara , para receber^ as iniiuencias da Atmosfcra. lo O fyftema de Mr. Tull foi de . todos 5 o que mais aproveitou a Agri- cultura , e do qual na praclica fe ti- rarao regras proveitozas para a mais . intcreiranie arte , que os honiens lem. ^ Porem eile fyflema , poftoque muito util a lavoura , aleni de attribuir , ou • fazer a terra a elfencia do fucco nu- tritivo das planias , ( o que tern con- tra fi a maior probabilidade , que fe aprczenta da parte da Atmosfera ) nao' comprehende todos os diverfos meios de attenuar a terra para receber os metlie6ros , que a fecundao, &c. Ellc trata fo da machinal divizao da terra pela enchada , ou arado ; porcm ha ccrto , que muitas vezes os homens ou nada podem , ou nao tern utilida- . de nefta machinal atrcnuacao de .ter- ra. Pelo que parece precizo hum fyi- , tema , que comprehenda principios mais genericos , que expliquem Fyficamen- te todos OS diverfos mcdos de pre- parar a matriz dos vegetaes , e a terra-, ])ara receber o ar , que fccunda. Meios II Como as raizes das plantas fao niais ad-' • principacs bocas , por onde ellas re- ]iuraave-cebem 03 luccQS , quc. as vegctao j 'a getacao. propbrjao , que for maior o iiuiiiero^ ' ' .. - - • Yg, ■bEAGRIGULTURA." t6l^ fera tambem maior a fecundidadc , e vigor dos vegetaes. Para o maior nu- mero de raizes he preciza a terra ate- nuada , e reduzida , como a p6 : deile modo he , que ella efta difpofla para receber a fecundagao do ar , o qual pelo feu acido forma os diverlbs faes , que fe obfervao , fegundo a diverfida- de das terras , com as quaes fe combi- na. Pelo concurfo de divcrfos faes , e olios , de que a terra fe enche , fe for- mao fuccos faponaceos , os quaes dif- poem as partes componentes das plan- tas a entrarera-lhe pelas raizes para fua formafao. (IV) 12 A terra fe atteiiua , e divide, ou pelos faes , que fe Ihe da ; ou ma- chinalmente OS faes, que fe ihe dao^ podem fer L por calcinajao : II. por iermentagao piitrida : III. adubando a terra com faes ja formados. Machinal-? mente fe divide a terra i. pela millu- ra de diverfas terras ( I ) : 2. pela encha- da , ou arado. ( II ) Vamos agora a tracfhar de cada hum deftes meios de melhorar a cultura das terras pela or- fiem J em que os piopofemos. ( V ) t ii CA- 164 M E M O R I A S C A P I T U L O II. Da cakinacao , me'io mui amplo de eji" cher a terra de facs. A caici- 13 A Calcinajao he a applica- 'S'^'^ei'o "^^ ?^^ ^^ ^"^S^ ^^^ cdrpos Sol , e folldos , pela qual fc delh-oe o tecido j-.eio fo-das particulas aos corpos. Elle he hum fnum?'"" rncrhodo mui amplo de fertiJizar as terras, enchendo-as de faes alkalis. O Sol , ou fogo commiim , fao os inftrii- mentos , comque fe obra a calcinacao. Pclo Sol fe calcinao as terras cavadas a montes \ as que levao as primeiras enchurradas ; as que fao lavradas def- de Maio ate ao Outono. A' calcina- cao do fogo commum pcrtcncem a cal , as cinzas , as boujas , ou queimadas, as borralheiras. Peio Sol 14 As cavas a montes fa6 hum a L' man-^^ efpecie de pyramides feitas pela cava tes. de enchada , ficando a terra cheia de pyramides difpoftas em linhas recftas. Duas regras eilenciaes fe devem ob- fervar nella cava : a primeira , que a terra , que faz a bafc dos montes , fi- que be.n mexida ; a fegunda , que ef- ta cava fe fa 5a em tempo ; que os montes de terra %uem expoilos aos gran- DE Agricultura. t6^ grandes calores do Eftio ; porque def- te modo he , que fe obra huma boa calcinacao. Os iioffos camponezes fal- tao a legunda regra ; porque ordina- riamente fazem as eavas a monres em Janeiro , e as desfazem no principio , ou meio , da Prima vera. 15: Maisadquadas , para a fazer liu-N'os ai. ma boa calcinacao , faoas lavouras dcj^^j^^g Maio, Junho &c. as quaes ten ho vif-.Tunho. to pradicar com feliz fuccefTo da^^* Agricultura. A lavoura feita nos fiirS" de Maio , e em Junho , e Julho , he a melhorj porque ja nefte tempo as er- vas de Inverno nao coBrem a fuper^ iicie do terreno lavrado , tirandc-lhe OS fuccos , comque etia hade alimentar as fementes, que fe Ihe^'hao-de lancar no Outono ; e os grandes calcres do Verao tem tempo fufficiente para cal- cinarem por todas as partes as terras mexidas. Qiiando as p-imciras agoas ca-* hem nas terras affim difpoftas , ellas obrao n ellas , como em cal virgem. A, terra fe acha enta6 qucnte , bem af- fim , como a cal , quando fe derrega. As grandes leivas , qu5 erao compac- tas J e duras , fe reduzem a p6 com qualquer lavoura , ou cava. As femen- tes deitadns nas terras alFmi difpoflas , achan- lS6 M E M O R I A S achando facil padhgem com as fuas rai- zes , le imbebem de feva , que ellas Yao bufcar a grandes efpaftos. Primei- j^ PaiTado o Eftio , as primeiras ch'um- enchurradas , que vem no Outono , fer- dn-i fer- tilizao 38 tciTas baxas , que por ellas terras? ^^ ^^^ regadas. E a razao he ; porque as primeiras enchurradas trazem comfigo a fliperficie das terras , que fe achao cal- cinadas com os grandes calores do Vc- rao. Na provincia do Minho fe acha frequentemenre efta praftica , quaze. defconhecida nas mais do nollb Reino. Logoque comeffao a cair as prin^ei- ras agoas , embrulhados os cranpone- 2es nas fuas capas de junco, elles en-! caminhao as fuas terras as enchurradas ; porem, como eftas trazem comiigo areia, e calhao , que , em lugar de fecunda- rem , deitroem os campos , advertida- mente elles deixao os quebradouros dos regos altos , paraquc nao polfa paf-t far , fenao a fuperficie da agoa j a qual traz as partes mais ibltas da terra , indo as partes mais pezadas no refto da agoa , , que elles encaminhao aos ribeiros. Def-. te modo fe imita a Natureza , que nasi enclientes dos rios fertiliza os campos. na.s partes , onde o remanco das agoas ,j^ caii'e-deixa a fua fuperficie. ^ufida OS ly ^ g^l jj^ ^.ijj.^ ^Q £q^q commumvw D E A Q R I C U L T U R A. 1^-j " EilS fertiliza as terras principalmente' pelos faes alkalinos , que contem ; os ^ quaes fc provao pelos feus eifeitos. ■ ■ ' A cal ferve com os acidos j dif- fdlve as fubitancias refinczas \ tinge ■ o charope de vioietas em verde ; pre- cepita OS metaes dilTolvidos ncs mcnf- truos acidos , que Ihe fao proprios : todas eftas propriedades prcvem dos feus alkalis. ( Hift. da Acad. R. das Sci. anno de 1700 171 1 1720. ) Eu' tenho experimentado em horta boas pro- diicoes J adubada a terra de cal. A qu alidade do terreno , em que a deitei , era folto ; e por todas as razoes da Fyfica dos vegetaes efte adubo deve produzir melhores effeitos nas terras fortes j e argillozas \ por- que nefta obra nao fo em razao dos alkalis ; porem tambem em razao das moleculas ibltas , que milhiradas com' as terras fortes llies dao mais poros ,• e as torna mais aptas para receberem OS metheoros. 18 Os modos, com que eile adubo fe'^^°'^°' . ■' „ _j T^, . ^ com que ianca nos campos , iao difierentes ; re-xe lanca. duzida a cal em p6 , fe coftuma lan- ^ar em pequenos montes , os quaes' ^fpaihados cubrao o terreno. A qua- iidade do terreno he , que deve giiiar olavr'ador;, para conliecer a hicdida da cal , t6S M e m 6 r I a f cal , que dcve deitar ; devendo as ter- ras barrozas levar mais , que as terras de arneiro , ou fokas. Os da Normandia-Baxa a efpa- Ihao nos campos por hum methodo excellente. O campo , que fe quer fe- mear , depois de lavrado , fe enche de montes de cal em pedra : ao re- dor deftes montes fe forma huma ba- cia de terra de largura de hum pe , a qual fe cobre de terra em forma de zimbdrio , ficando a cal dentro , ?[U3 com a humidade da terra fe des- az 5 e augmentando o volume faz , que OS montes fe abrao. Se as fendas dos montes ficaifem abcrtas , a cliuva fie infinuaria por ellas , e tornaria a cal em huma argamaila inepta para, fe poder efpalh.ir pelos campos. Por qfta razao os lavradores de tempos a tempos vezitao as fua.^ herdades , para qubrirem com terra os montes fendi- dos. Quando a cal efta reduzida a p6 , miltura-fe entao bem com a ter- ra , e allim fe deixa expofta ao ar por algum tempo j porque nefle efta- do ella nao corrc ja rifco de fe tor- jiar em argamafla. Pedes montes fe formao outros mais pequcnos em pro-^ porcods juftas , e efpalnados pela ter- ra Ihe dao hum cxcejicnte adubo. ( Du- Ha- DE AgRICULTURA. 169 Hamel de Monceau Trait, de cult. torn. III. c. I. §. VI. ) Os Authores da Encyclopedia Eco- Ddmica propoem hum methodo ex- cellente de deitara cal nas terras. ( Art. Amander ) Feita huma miftura com lama , cinzas , terra frefca , &c. eflia miftura fe efpaiha com igualdade pelo campo , que fe quer adubar : defte modo as materias mifturadas fe enchem dos alkalis da cal ; e , formando com OS feus oleos fuccos laponaceos , fer- tilizao a terra , imped indo tambem por outra parte , que a cal fe vok' tife. 19 O uzo das cinzas melhora mui-<^''e •'»s to as terras , principalmente as fortes • f,'^'''''i'urn do que tenho experiencias frequentes.bomadu- Os antigos uzirao tambem das cinzas ^°" para melhorarem as terras. Virg. no I das G2org. vers. 80 , diz fievs pudeat Ejf(£tos cinerem imtnundum jaElare per agros. Com as cinzas os campos can- cados de produzir adquiriao novas for J as. 20 Eu adubei fete geiras de ter-Expe- ra , com feis carradas de cinza cada."'^"^'''' geira. Trez geiras erao de terra bar- roza J a que yulgarmente chamao .r.ou- ni- . I70 M E M O R I A S ■ rifca de cor alguma couza amarella;^ as outras erao de huma ere folta cor de cinza. A terra barroza produzio bem j de tal forte , que , iicando jun- to a huma eftrada publica , era a ad- miracao dos que palliivao , confecan- do que nunca alii tinhao viflo feara- de trigo femilhante. Nao foi porem' affim na terra de ere , na qual pou- ca difFerenca havia da terra adubada com cinzas aquella , que o nao tinha fido. Muitos Livradores das minhas ^ vizinhancas fe vao refolvendo a ufar das cinzas por cauza dos efFeitos , que tern prezenciado. Ao principio diziao , que as cinzas fo tinhao lugar nas ter- ras de regadio , e que nas terras de fequeiro nao tinhao lugar; porque as faziao mais aridas. As experiencias continuadas os forao dezenganando de forte , que as cinzas , que , ha poucos annos, nao tinhao valor algum, hoje fao. mui procuradas. Em huma terra con- tjgua , e da mefma natureza, forao duas pm-^oes nao pequenas adubadas , l\^ii^^^ com ellrume de ovelhasbem conido, outra com cinzas ; foi a cultura igual ,■ e ao mefmo tempo ; porem a pro- ducjao da terra adubada com cinzas foi melhor. Com efte adubo de cin- zas eu obfervei elle.aiuio era huma terra 1-ao as DE AgHICULTUJ A. IJt- terra duas novidades mui bellas. A > primeira foi de cevada , a qual deu hum bom ferrejal em Abril ; nefte mez foi outra vez a terra femcada de mi- Iho , que tambem produzio bem. ( VI ) Ella terra he de fequeiro , com algu- mas oliveiras , barroza alguma couza , mifturada de pedrinhas calcinaveis. No anno de 1786. paflado , a pezar da efcaces do anno , teve huma boa feara de favas ; e no outro anno teve hu- ma bella feara de trigo. Hum anno jdm , outro nao , he adubada com mon- tes de cinza. 2:5 As cinzas fao oreflo dos corpos ^^^°. vegetaes de natureza terroza, Eftasfecintas formao por meio da inflammajao y^^^^^^^^^ que faz fair o fogo , que eilava inclu- lis pro- zo nos corpos. As cinzas tern mais , '^^^^^y^, * ou menos abundancia de faes , fegun-dade. do OS corpos , donde fairao. Os faes alkalis fixos fao obra das cinzas. Ef- tas fe cozem ate dilTolugao dos fies ; e depois , filtradas , 2 agoa da lexivia fe faz evaporar j o rello he o fai alkaiino. A natureza deile fai he ^t- trahir a agoa ; e d'aqui provem huma parte da fecundidade , que elle da as terras ; porque a agoa he o vehiculo , que leva o fuftento as plantas ; attra- te tambem cs acidos 3 e , como he ef-. pon- Divcrfi- 171 Memorias ponjozo , e cheio de pequenos vafios , forma com os dcidos huma efFervefcen- cia J da qual refulrao fuccos convenien- tes a nutrijao das plantas. jid ferti^ htatem terris jlerilibus confiliandam gramina accenduntur , ut abeant in ci- neres , et in Sal jixum ; vel ipf^c ter- Ttie ejf£tte liquorihus falis lixivioris impragnantur , ut Sal in acre eonten- tum fe in fale hoc alkalino fjgat , et nitri'.m , quod omnis fd'cunditatis pri^ 7?iaria caufa ejl , confiituat. Holfmanus' Difp. Med. Chym. de nitro , et ejus natiira. § 5'. daJeda's ^2, As cinzas dos vegetaes fao as cinzaj. mais communs ; ha-as tambem de car- vao de pedra , e de terras betumino- zas ; das quaes terras os ferreiros fe Tervem em lugar de carvao. Eftas cin-; zas em razao dos alkalis , de que abun- dao , ainda produzem melhor fecundi-- dade. Das de carvao de pedra eu te- nho baftante expcriencia \ e Mr. Tla- vigni faz menjao de huma mina de^ terra betuminoza junto de Aflbi , cu-. jas cinzas adubao bem as terras. ( Du-; Hamel. t. VI. c. III. art. II.) a Na- tureza provida efpalhou por toda a parte os meios de fecundar a terra. ..» 23 Asqucimadas, ou bou^as , ferti- liza(5 bem os campos por via da cai* DE AgRICULTURA. I75 cinacao , que a terra recebe. Os me- tliodos , comque fe praticao , lao difFe- renres. Huns ro9a6 o mato , e , pon- do-o as mantas , o queimao em Agof- to, e Setembro. Efte mcthodo he mui- todefeiruozo ^ porque, calcinando-le a terra fo no lugar das mantas de mato , alii {6 he , que fe deixa ver a fe- cundidade. Outros rogao o mato no tempo de Inverno , e , tirado para fo- ra 3 cavao a terra , e depois efpalhao o mato por toda ella , ao qual llie lancao o logo no tempo de Vera6. Delle modo a terra , cftando mexida , fe calcin?. primeiramente pelo calor do Sol , e depois pelo fogo do mato y que cfta efpalhado por todo o terre- no 5 cujas cinzas tambem concorrem a fertiiiza-lo. 24 Maior grao dc calcina5a6 i"e- J^Jhd'^'^ cebem ainda as terras por via das bor^ ras. ralheiras j e por iflb a fertilidade he nclias maior. Ellas fe praticao em al- gumas partes do noiTo Reino do fe- guinte m.odo : Tirado o mato, fe cava a terra , em fima da qual fe fazem com o mato mantas em juftas pro- porfoes : eftas fe cobrem com terra , tleixando-lhes hum fufpiradouro , a ma- neira de quern faz carvao. A terra tanto inferigr ^ coino fupcrior , lica cni- ci- 174 M E M O R I A S xrinada j e fecunda por efte modo pc_ mais de dois annos , fen do todo o campo adubado com as cinzas , e ter- ra calcinada. As nofl'as borralheiras tern alguina femilhanja com o me- thodo , que algumas partes da Franca ,tem em queimar as luas terras. ( Du- •Hamel t. I. .c VII. art. HI. ) O? •jornaleiros tirao a fuperiicie da terra •em leivas , ou torroes , que tenhao oi- «to , ou dez polegadas em quadro , e ?de groffura aois , ou trez dedos , os •quaes ajuntao dois a dois em angu- Jos agudos ate fe fecarem. Logoque ^eftao iecos , formao com elles peque- J103 fornos de hum pe de deametro ^ -antes porem , que liies fa^ao abobeda , OS enciiem de mato , ou palha. Qiian-r do a abobeda efla para fe concluir , fe ]he Ian fa fogo ; e ao depois fe fe- cha a porta ; porem deforte , que o fumo tenha alguma pequena fani-- da. Se o fnmo faiie com grande abun-* •dancia por algimia parte , deve haver cuidado em a tapar; porque entao^ nao ficaria a terra cofida , o que fe faz em vinte e quatro horas. Nas pri-^ meiras agoas fe efpalhao eftes forni- Ihos de terra calcinada , que produ- ^ zem belias fearas. do"'An. 25 Os Antigos , OS quaes fo 4e?' pois deAgricultui cal- 'tj6 Memorias calcinavao as covas , ja, tendo-as ca- vadas de antemao hum anno para o Sol as calcinarj ja, calcinando as co- vas por meio do fogo ; o que faziao deirando-lhes mato dentro , e queiman- do-o. Ante annum quam pomaria dif- fonere voles , fcroi?es fodilo , ita Jo^ le 5 pluviaque macerabuntur , et , quod poJueriSj citb comprehendet \fed , Jiquo anno fcrohes feceris , etiam femina po~ nere voles , minimum ante duos men- fes fodito fcrohes , pojiea ftramentis eos complcto , et inundito. Coluni. lib. de arb. cap. XIX. Ao inethodo de calclnagao fe dc- vc actribuir a fertilidade , que os tre- jnores da terfa tern produzido em al- gumas partes do Globo. A terra abra- zada em fbgo , que a faz tremer , fe calcina , e d"'aqul a fertilidade. O an- jio de 1755' , tao fatal para os Portu- guezes , foi o maisfertil, que contao OS noitos tempos. ( VII ) CA- DE AORIGULTtJR A \'JJ C A P I T U L O III. t^a fermenta^ao pntrida conio fertl- liza as terras^ POr meio da podridao fe enclic- Q'^^. =°"* tambem a terra de faes , e por el-fennen~ Jes fe fertiliza. A podridao he huina taq-io pu* dilToIufao intima das partes dos cor- pos vegetaes , cu animaes j pela qua! fe deilroe a natureza , e qualidades dos mefmos corpos. Para Jiaver fei- mentajao piitrida , he neceflario duas couzas , calor , e humidade. As partes aquofas rem iempre Jium movimento inteftino. Ellas fao , como hum meni- iruo , que infinuandc-fe pelos p6ro;s dos corpos , OS defune , e fepara. Ef- te inovimento fe augmenta com o ca- Jor , que confifte em hum movimcnto rapido da materia , e terra. A humi- dade junta com o calor , cbrando nos corpos diipoftos a fe corrcmpc- ' rem , dilfolve as partes falinas , fulfil- reas , e terreftes. Que a podridao dc fees alkalinos que , attraindo a hu- midade , e o acido , forma fucccs con- venientes ( n. 21. ) ao fjftcnto das plantas , fe m.oflra I. pelo fcrido , cue dao as matcrias corruptas \, qua! , fc- 17^ Memorias gundo as andlyfes Chymicas , prov^m dc hum principio oleoib , e fulfureo , e de hum fal voJdtil : II. , porque a matriz do iiitro he huma terra feita alkaliiia por meio das materias cor- nipras ; como obfervao aquelles , que trabalhao nas nitreiras artificiaes. ( n. 21.) Se pois todas as materias corni- ptas fervem para encher a terra de faes , e por confequencia para a fecundar ; tudo , que concorre para a corrupcao , concorre tambem para fazer os cam- pos ferteis. O reino animal , e vegetal , fubme- niflrao por elle caminho bailante ma- teria para a fertilidade das terras. No rei- 27 O reino vegetal concorre para ta**]/^^^" fecundar os campos com as eftruma- das , com as ervas , e reftolhos enter- rados j com as covas de mato , ou fo- Ihas y com os limos polios em mon- tes ; com os farelos , e rafpas tiradas- das madeiras. Eihun-.a- 28 As eftrumddas fiio os matos , '^^^' que fe deitao nas eftradas , patcos , oir azinhagas , por onde haja paflage fre- quentemcntc. O tempo ordinario , em que fc cofluma lancar o mato nelte cortimento , he por todo o Oitono. A frequente paflage , feja de animaes , fe-* ja ( DE AgRICULTURA. l-J^ ja dos hoiTiens , moe o cftrume , e o torna mais apto para a pcdridao. Pa- ra eile fim , pallado hum mez , fe ihe coftuma dar huma cava. Na Primave- ra , quando o ma:o ella ja baftante- meute moido , fe tira , e poem em raontc para alii fe acabar de cortir. Dias couz s fe devem obfervar , quan- do fe tirao eftes eftrumes para montes : a primeira , que nao eile^a o mato mui icco ; a fegunda , que nao efccja em. lama. Eftas regras tern os bons lavra- dores , quando mandao traballiar nef- tes fervifos. O calor , e a humidade lao dois requeziios effenciaes para to- da a fermentacao. Se a ellrumeira ef- ta em lama, as particulas do fogo fi- cao como airogadas na iiumidade j e por iffo fe nao pode fazer huma boa diflolujao de partes \ do raefmo mo- do , fe efla nmiiamente feca \ porque entao Ihe falta a humidade , que he , como hum menftruo , que produz a dif- folujao. ( n. 26. ) Em huma reira confideravel defle Reino eu obiervei , que em name da Camara fe pailavao lodos os annos acima de vinte mil licencas para fe fazerem eftas eftrumeiras. Cauzou-me admirajao ver , que huma couza , 4g^ue corpo da Magiftratura Mu- M ii ni- i8o Memorias nicipal devia fomentar , a defficultafle , e fizcfTe dependenre das fuas licencas. Invelliguci a Poftara para conhccer a cauza da prohibicao j porcm tal Poftu- ra na6 havia. Soiibe cntao dos mais velhos , que as racs licencas erao hum mero util ao Juiz de Fora , que, coino Prczidente da Camara , aflignava as dr- tas licencas , e util no Efcnvao da Camara , que as pafTava : que era cof- tume cullar a allignatura dez reis f e c o iheor da liccnja hum vintem ; porem , que , havia alguns annos , fe ti- nha dado as ditas licencas o nome de Alvaras ; pclo que ficou cuRando a aflignatura dois vinreins ; e que proxi- mamentc tlnliao introduzido ourro Al- v.3ra annual , fem o qual os campo- nezes nao podiao alimpar fuas arvo- res. O oiiicio , que tinha em Camara- , mc obrigou a fallar pelo bem conr- nium. Eu moftrei aos Camarifes o mode , como os Grandes de PrulTia fa- Bieifeid 2ia6 Cortc a Federico 1 ; que era te- ]it. p. 2, rem grandes montes cle eitrumes nos * 2z. pareos das fuas quinias , e herdades , }5or onde clle havia de paifar : moftrei OS incommcdos dos camponezes , nao fdmente em Ihes imporem hum tributo , dc que nao liavia urilidade alguma ; mas no3 muinos dias , que perdiao do feu DE Agricultura. i8i feu trabalho , paraque o Efcrivao Jhcs pa^alle odencminado Alvara. Confegui, que a Camara fizclfe hum Acoidr.o , pa- raque fe nao pagallem femilhantcs liccn- ^as ; porem de baide. Como o pcder executivo eftava no Prezidentc , die nunca teve utb em tantos efcolhos do bem commum da lavoura , o qual nos levou a efta digreffao. 29 Os reilolhos , e ervas entcrra-Feiio- das tambem fertilizao as terras. Eis-^'.!"'^* ^ _ aqui o modo , como fe podc uzar def- tsaadas. te methodo com maior utiiidade :• Sc- meados tramocos , fenteio , ou outras quaefquer ervas vigorozas, no Outono , em Marjo , ou Abril , i'c dcvem en- terrar : em Julho , ou Agofto , fe Ihes deve dar huma lavoura ; c, pallado al- gum tempo , fe Ihes devem lan^ar as fementes de Inverno. Defce modo con- correm trez oauzas de fecundacao : a caicinacao das terras expodas pcia ia- voura aos grandes foes do Eilio ; a podridao das ervas cntcrradas ; e a rc- pctijao de fabr:cos tao cflcnciai para a fertilidade. 30 As covas de mato , as folhas Covasde das ervas , e das arvores ^ os montes .'."fj'*' ' de limos , os farelos ,e rafpas das rna-;cc. ' deiras poilas em montcs a cunir ; to- das ellas materias fecuiidao as terras por via da corrup^^ao. O lS2 M E M O R I A S Ko rei- ^j Q i-gino animal , precindlndo niai. da parte fecal , da qual nao traramos , fecunda os campos com os feus cor- pos , pelles , lam , olFos , pontas , unhas , efpinhas , conchas. Todas cftas inatcrias rcduzidas a podridao formao faes alkalis ( Geofrei dos princ. dos corpos ) aptos para attraiiem o ni- tre. Defte principio fe fegue , que fe- cimdao a5 terras os liros das lojas dos capateiros , correeiros , curtido- res 5 acougues , fibricas de materia de Oifo3 , pontas , barbas de Balea , &c. Os de M';cina cftercao as v in has com as unhas de Carneiro , e fuas ];onias ; ( En- cyclopedia Art. Vinha ) O; Inglezes no Condado de Norfolk adubi^o as ter- ns co^n facos de retaihos : ( Elem. c? Com. cap. 3. ) O mefmo fazem os Genovezes. ( Alemoria do Doutor Dal- ]a Bella fobre a cultura das olivei- ras. ) Da fecundacao caiizada as ter- ras pelas pontas de Garneiros , Ecis , ^':c. , metidos era agoa per algiim temi- po , e ao depois efj^alhados pcla ter- ra, e enterrados , eu tenho baftante experJencia ; affim como de hum po- mar de larangeiras , que efcava lan- guido ; o qua! com o foccorro de va- rias pontas , que fe entcrrarao perro dtis arv'ores , fe vigorou , e crcfceo com DE Agricultura. i8^ com forca. Em huma palavra , tudo , o que pode fer corrompido , he apto para fazer a terra fertil. C A P I T U L O IV. Dos faes jd formados , ou juntos a. corpos 5 de que facilmente fe fe- parao. 31 f~^ S faes per fi efpalhados^^^^^^^^J_- pela terra , ou juntamen-dos te langados com os corpos , dos quaes facilmente fe feparao , (*) femque ha- jao de fupprir a calcina^ ao , ou a fer- menta^ao putrida , fertilizao a terra ; poftoquc em algumas circunftancias a dcfpeza feja maior , que a utilidade ^ o que evita o lavrador. Aos faes fe deve a fertilidade , que fe experimenta nos annos trios , fe- gundo o antigo proverbio : anno de Jievao anno de pao. . . . by ernes ( Virg. I. das Georg. V. 100. ) optate ferenas , Agricol£ j hyberno Icetlffima pulve- re farrd Lcitus £ger : Os (*) A fertilidade, que produz o Nilocoiii as fuas encheiites , he pela abundancia di faes, que entr<6 traz : e erta he a caiiza das frecii Ga- tes defeiUerias , que entao alii Is rentem. Graji- gcr Voyage. l*arj.z. J 745. 184 M E M B I A S Os que trabalhao nas nitreiras ar- tificiaes , iabem por expericncia , que o iiitro fe forma , quando foprao os venros do Nafcente , e do Norte , cs quaes produzem Invernos ferenos , e aptos para a formajao do nitro , que fecunda os campos, ( * ) Do fal-gcma fe uza na AJta-Ungria , na Polonia , e em Hefpanha ; e M. PutuIIo enfina , que quatro , ou cinco quintaes de fal lazem hum excellente adubo para cem varas de terra em quadro. ( Encyclop. - Ecconomica Art Amender. ) A almo- feira mifturada com agoa , de que ufa-». vao OS Antigos para eflercar as Oli- veiras j as borras de Vinho , de que cu •P'^i^^'y tenho expericncia ; varios fosnis que c'.'i. * " fe tem acliado , e que adubao bera as 9. XXI. terras ; varias falmoeiras , e lixivias de falitre , de que fe ufa em algumas partes ; todas eftas couzas obrao em razao dos feus faes , que abrem , e di* videm a terra, ( VIII ) Xnfuzoos T^ Antes de patfarmos aos ireios ^as, de terundar a terra pela lua div;lao meciianica , feria aqui lu^^ar de tratar das inliizoes prolificas , fe ellas corref- pondeifem aos uteis fins , paraque as propo(^:n feus Authores. Vallemcn , ' ( * ) Vedi iioffii:^!), HiRoriii, et Ai.atomia lUiii Fiufi-.o Cbjmica ;um obfwvatioiiibus laiiyiibiw. DE AgRICULTUR A. l8^ Rabineau , e outrps muitos pertendd- rao fazer a terra ferril a pouco cufto por meio de varias infuzoes das fe- menres. Efle methodo teve grandes ap- plauzos. Os homens amao o maravi- Ihozo ; o que viao por tal methodo ; e mais , quetudo, o evitar os grandes trabalhos, que a Agricultura traz com ii- go. Pcrem a experiencia mcflrou , que tacs infuzoes pouco , ou nada valiao* ( Du-Hamel t. VI. c. V. art. III. ) , Eu iiz varias expericncias ; e nao ob- fervei couza , que merega tal traba- liio. O proveito , que podem dar as infuzoes , he nafcerem melhcr as fc' monies , quando a terra ella alguma couza feca , e o tempo tern dilpozi- coes para Eflio. Efte anno na ultima iementeira , que fiz , de meloes , par- I te da femente foi infundida em Vi- nho , parte nao ; como a terra eftava alguma couza leca , e Ihe fobrevie- rao calmas, a parte infundida nafceo I bem , a outra nao. Os Antigos tambem coflumavao infundir as fementes. Virg. Georg. lib. j. .J. verf. 201. Scmina vidi equidem mtdtos rnedi-' care ferentes , Et n'ttro pr'ius , et nigra perfunde- re amurcd. O iim era j Qrandlor nt iS6 Memorias ut jaUusfiUqiiis fallacibus ejjet. Poi(^m Virgilio eftava dezcnganado : Vidi leSla diu , et mtilto Jpe8iata lab ore , Degenerare tamen. . . . O verdadeiro fim das infuzoes he , para prefervarem as plantas de varias doenjas , que fe Ihes communicao no germe : como he v. g. no trigo a fer- ruge , o fungao , &c. Eu fci de hum feareiro , que , v^ndo-le perleguido de fungao no feu trigo , tomou o conle- Iho de infundir a femente em Vina- gre : parte foi em Vinagre forte , par- te foi infundida em Vinagre brando : a femente da primeira infuzao pro- duzio eite anno beliffimo trigo iem fungao algum ; a da fegunda por(^m achava-fe baftantemente manchada. Ef- te feareiro pouparia del'peza , fe em lu- gar da infuzao do Vinagre , uza-fe da infuzao da cal virgem , da qual eu tenho boas experiencias • ou ainda da infuzao do fal commum. CA^ DE AgRICULTUBA. iS^/ CAPITULO V. Da miftura de diverfas terras. 33 C E a terra he cievedora da fua ^^j^-;^^^ O fertilidade aos laes , que Ihe dao ; ella o nao he menos aos diver- fos fabricos , com que he trabalhada. Entre eftes tem hum deftiniilo lugar a miftura de diverfas terras. For dois modes pode a terra fer comraria a vegetacao das plamas : ou por muito folta , ou por muito com- pa(fta. No primeiro cazo as raizes , achando na terra muitos interfticios , palTao , femque recebao os fuccos com- petentes ; e daqui provem a langui- dez , e fraqueza das plantas : no le- gundo J nao podendo as raizes pene- trar por cauza da fortaleza , com que a terra efta unida , as plantas , quan- do principalmente Ihes vem loes con- tinues , perecem no meio da abundan- cia. Era precizo pois defcobrir hum meio , que delTe nexo as terras foi- tas , e abriffe as terras fortes , e ar- gillozas. A ifto fatisfez admiravelmen- te o marne. ^± O marne he huma efpecie de ^^^"""^ arro, que metido n'agoa ie desfaz ^a leja. com iSS Memorias com promptidao ; ficando as partes des- feitas a]guma couza pegajozas. Da definicao dada , que continuas experiencias me tem confirmado, fe fegue , que o marne he hum dos me- Ihores adubos , que os campos podem ter. Paraoue ^^ ^g propricdades do marne mof- ,a. trao , que elle ferve para toda a for- te de terras. Para as terras fortes ; por- que , mifturando-fe com ellas , as abre , e as torna aptas para a vegetacao ^ o que indica a facUidade , com que o marne fe desfaz , logoque fe langa em agoa : para as terras deJgadas ; por- que , fendo as moleculas do marne de natureza pegajozas , as une , e Jhes ta- pa OS demaziados poros , de que abun- dao. O marne he de dilFerentes cores ; branco , negro , pardo ; e eu o tenho achado tarabem vermelho. Muitas ve- zes elle eila a fuperficie da terra ; ou- tras vezes fe defcobre mais abaixo nas diverfas concavidades , que fazem as agoas. He felicidade para o Javrado.r acha-lo no terreno , que quer marnar. Para o defcubrir fe uza muitas vczes da huma fonda. Sonda he hum inf- trumento de ferro a maneira de hum uado de qiiatro pes de comprido , e de DE AgRICULTURA. I^^ de huma polegada de grocura : . final!- za por huma lingua de ago , ailima da qual efta huma calha de feis po- legadas de comprido para receber a terra. Dois homcns trabalhao com ef- te inftrumento ; de feis a feis polega- das o tirao para ver na calha a qua- lidade de terreno , que fae. A fonda pode fer de oito , doze pes , ou mais. O ufo defla machina faz muitas ve- zes achar bens , que os proprietarios das terras defconheciao ; v. g. minas de carvao de p,edra , bancos de mar- more , &c. 26 A quantidade de marne , queQ"«* . le deve langar nas terras, vana legun-desie de- do a natureza das terras , e qualida- vem ha- de marne. Du-Hamel ( t. VI. c. III. '^''• art. II. ) quer, que para cem varas em quadro fe lanjem vinte e fete })almo3 ciibicos de marne. O meu ufo le cobrir a terra de marne , como quern a cobre de efterco. Paifados trez annos , ei]ta6 he , que olavrador deve obfervar a confiftencia , em que efta a terra , e o modo como produz , para , ou a deixar , ou Ihe acrefcentar o mar- ne. Os eifeitos do marne durao a cima de trinta annos. O melhor tempo de m:arnar he no Verao j porque , eftando as terras fecas com os ^randes calo- res ipo Memo. RiAs res do Eftio , com as primeiras agoag? fe desfazein quaze a maneira de caJ ^ e fe fazem aptas para huma boa mif- tura. ( IX ) Efpe- -yj Q marne fe divide , nao fo em razao da cor , cuja divizao nada faz para a Agricultura ; porem tam- bem em razao dos miilos ^ que ella contem. E entao ou he grolTo , cheio de conchas , ou areento. O areento convem melhor as terras fortes , e ar- gillozas ^ o cralTo , e barrofo , he mais apto para as terras delgadas, Deile eu tenho ufado , vai em cinco annos , em terra delgada , a qual eila de boa con- liftencia , e tern produzido bem. Aro-iiia , -^g ]sj^g f^ Q marne fccunda as ter- ras , porem outras muitas mifturas de diverfas qualidadcs de terra fazem o mefmo effeito. Os Inglezes com baf- tante razao ufao da argilla y ou bar- ro forte , para melhorar as terras del- gadas , e folras : e pela mefma razao fe podem melhorar as fortes , miftu- rando-lhes area fina , ou faibro. Deile modo as terras fe engrolTao com a ar- gilla j ou , fendo argiliozas, fe attenuao , e abrem com area , ou faibro , ou ainda terra de arneiro. Eu tenho ob- fervado terras , que erao compacflas em fummo grao.j e que per beneiicip da 1 DE AgR I C ULTUR A. I9I ar^'a fe fizera6 fecundas , e de facil i^odo, h- trabalho. n^«s,scc. 39 O lodo , a lama das eftradas , o p6 das terras calcireas, a ferruge , OS cntulhos j todas eftas qualidades de terra milturadas com o rerreno , que fe quer adiibar , o fertJlizao , abrmdo-o , e tornando-o apto para receber as in- fluencias da Atmosfcra } no que obrao mechanicamente j podendo tambem pro- duzir a fertilidade por meio dos faes , de que abundao. He certo pelas experiencias Fyii- cas, que todos os rios abundao cm gran- de copia de fal , que junto as pajxir_ culas foltas do lodo fazem o terreno enlodado fertil. As moleculas do lo- do , poftoque fejao foltas , como fe moftra do facil fabrico , comque os nateiros fao trabalhados ; com tudo nao rem os grandes interfticios das terras delgadas; nas quaes, nao achando as rai- zes das plantas fuftento , fe fazem frou- xas , e languidas. Os que eftao per- to de terras, de mar , tambem adubao as fuas terras com o lodo do mar j porem elles por expcriencia conhecem , que a demazia lie nociva a frudlitica- cao. A lama das cflradas , e das ruas , tambem fccunda as terras. A experien- ci* leat. 19a Memorias cia tern moftrado , que , quanto mais huma terra he dividida , e expofta sL influencia da Atinosfcra , maior he a fua fecundidade : ora por elle princi- pio he, que as lamas fercilizao as ter- ras , onde fao lanjadas. Deve-le efco- Iher o tempo Icco para fercm lanca- das nos campos ; porque entao lie , que ellas fe miflurao bem com o terrene , que va6 adubar, ped?aV 4° ^ P° ^^5 pedras calcareas tam- caica- bem aduba as terras. Mr. Du-Hamel refere efta experiencia ( t. V. c. I. § XXI. ) Efte Academico , mandando trabalhar certas pedras calcareas , que tomavao o polido quafe taobem , co- mo o marmore , obfervou , que a rel- va , onde tinha ficado o p6 , crefceo com muito vigor j nao Uie fendo a ou- tra erva vezinha comparavel , e que o mefmo vigor confervou por muitos 3, annos. Se a cal , diz elle , forma „ hum bom adubo para as terras , tal- „ vez que feja pela razao , que a „ calcinajao reduz a pedra a p6 fi- „ nlffimo. Sabe-fe , que ha terras , onde 3, a pedra he tao abundante , que na6 „ fe pcrcebe mais , que pedras , quan- „ do tern cahido chuvas i com tudo „ algumas deflas terras fad mui fer- " "''• Da bE AcRlCULTUfiA. t^* Da fecundidade do p6 das pedras calcareas eu nao teniio exp eriencia j porem eu tenho baftantes experimen- tos dc boas , e frequentcs collieitas fei^ tas em terras cheias de pedras cai-* careas , nas quaes nao podcndo entrar o arado fao feitas as fementeiras ao enchadao. Efte anno hum fcareiro , fc- meando por elle mcdo alqueire e meio de cevada , teve cincoenta alqueires , o que lie huma grande producjao. O rrigo , que fe da por efte medio-; do J alem da produc^ao fer mui fe- Gunda , he o mais bello. Que terras de pedragueiros defta qualidade fcnao achao incultas , e que podiao fer fru- cftiferas a pouco cufto ? Nao poflb po- rem com^rehender a cauza Fyfica, que efte Academico da a fertilidade defta efpecie de terrenos pedragozos. j, 55 He mui provavel , diz elle , que o 5, p6 , que le forma pela fricfao na- 55 tural deflas pedras contribua para 5 5tal fertilidade. Para fe dizer, que por fricjao natural cntende a vegetacao oas pedras 5 cuja vegetacao Ihe dao alguns NaturaliHas (*) nem entao fe pode comprehender , que hum rafpa- N meii- (^*) Pournefort , relacao da dcfcida da griita ile antipaios. Hiltoria dij Real Acad, das Ss>. 194 Memohias mento , ou fricjao Datural , pofla pro- duzir hum p6 donde provenlia a fe- cundidade das plantas , que ahi fao fcmeadas quafi pelas pedras. He mais natural crer , que efta fecundidade pro- vcm do Aphronitro , ou do nitro dos Antigos , de que abundao as pedras calcareas. yjphronitrum , quod identic dem ex ipjis fpecubus lapide calcario elahoratis , generatKr , eft fal falfuni le niter amaricans folubile , minus au~ te:n inflamahile , et oritur ex [ale uniijcrj'ale acido aeris concentrato , ac fixato infixioribus alcalinis- lapidum particulis , qus cum ipfo fale acido intime combinantur. HofFmano Difp. jVIcd. Chym. de nitro , et ejus natura Fevru- ^i A fcrrujem , e os entulhos de ^^'"' paredes , tambern fecundao os cam- pos , muito principalrnente os que fe compoem de terns fortes , as quaes fe abrem e atenuao pelas moleculas foltas defies adubos j ao que fe deve ajuntar os faes em que elles abundao. A chymica enfina , que a ferrujem he compoua principalrnente de partes ter- reas volateis \ ( Boerhaave , Chym. ) ella contcm tambem hum fal acre alkali- no, que pelas razoes indicadas (n. 21. ) fcrtiliza as terras , do mefmo modo que . DeAgricultura. 195' ique a efcuma de nitro da qual eftao cheias as parcdcs velhas , principal- men te J puma nitri , quae vara , ,ac cadefcens in meatibus fuhterra?ieis iJi- njenitur , et e mur'is deraditur , fabo-' ies eft falls aerei in lapidibus calca- riam naturam habentibus coagolati ( HofF. ibidem. ) ~ 42 Os Antigos conhccerao tambem Grediw o uzo de fecundar os campos por meio de mifturas de diverfos tcrrenos. Var- rao conta , que algims Francezes do feu tempo adubavao as terras fecaa , e eftereis com greda branca ,, Qi^iall 3, por toda a parte , efcreve hum Fi- 5, lofofo refpeitavel ( Antonio Genu- ^, enfe Sefioni di commer. P. i. c. j". 5, §. II. ) ha grandes minas defta gre- ^, da , que para nada fervem. Que me- 5, Ihor uzo fe poderia fazer della do 5, que fecundar as terras ? Nao podiao „ ter melhor emprego tantos milhares ^, de vagabundos que infeftao os pai- ^, zes cultos , e certos reos que podiao 5, fer mais uteis vivos , que mcrtos. J,, Efla efpecie de greda he mais fre- J, quente nas terras de cafcalho , do „ que nas terras barrozas. Os Ingle- „ zes diftinguem cinco qiialidades de p, greda ; a primeira a que chama6 pu- 5j rap he terra mole , fem miftura algu- ^ 14 l^^i 'if^ Memotiias '„ ma , e cfta fe dcvide cm varlas qua- 5, lidades v. g. Jiuma qualidadc ierve ,, p:A-a o pizp das fabncas de Jam , e ^5 eftmme das terras. Outra greda tira „ para o azul , a que chamo Klcy „ Marl , e della uzao muito na cul- ,, tura das terras Icves , e arcnozas. A 5, boa greda Jie azulada fern millura „ aiguma de area , Iblida , crafla , e „ muito pezada : della fe uza na coiif- „ truccao do tcjolo, cem carradas fe J, jiilgao necellarias para hum acre de J 31 terra. Milord Toweshende , foi o 3, priiTieiro que fecundou as terras con"^ „ greda. EUe pelo feu cuidado efta- ,, belcceo rendas no meio dos matos. „ Cap.iii. ]^efei-;,nos cfta paflagcim do Author dos EJem, do Commercio , p?.ra dar- mos a conhecer as notas carad:erilli- cas comqne os Inglezes dao a conhe- cer a greda i e para a confrontar-mosi com aquella de Varrao , que recom- menda Genuenfe , que fendo branccj, hediverfa da azulde que uzao os Ingle- zes. A mim me parece , que hum fo cpi-. theto de Virgilio a carederiza melhor. Fallando do modo de fazer a eira Georg. I. V. 179. ells a caracterizou com o epitheto da ilia texmra icNaz. Area cum primts ingenti aqtianda, Cylindro* de'Agricultur A. 197 Et vertenda manu , et cretd fol'i- danda tenaci. C A P I T U L O VI. T)a repeti^ao dos fabricos , e efpecial- mente da Nova cultura. 43 A Repeticao de fabricos, que ^'^''i^^^^^ JTV difpolla por certo metho-em I'n- do fe Jhe da o nome de nova cultu-&i"''-='r^ ra , he o quarto , e mais amplo meio dc fecundar as terras. Da-fe o nom-e d2 Nova cultura ao methodo que in- troduzio Mr. Tull. no fabrico das ter- ras. Eile Inglez fabio retirado ao cam- po por experiencias repctidas formou hum novo fyfteina fobrc a agricultu- ra. A fua theoria fobre os fuccos nu- tritivos das plantas era que a terra dividida em p6 fiiii/Timo , Ihe fcrvia de nutricao ( Du-Hamel.t. I.e. XVllI. ) Delle principio ellc ccncluia , que pa- ra augmentar a fcrtil'idade , era preci- zo dar huma lufliciente divizao as mo- leculas da terra. A eftc principio fun- damental fe fcguiao outros accefforios. A jufta proporf ao das plantas para que humas a outras nao tirallem os fuccos , e todas ficallem languidas , a repeti^ao de fabricos eai quanto as pi^ntas ef- tao ipS Memorias tao na terra para por elles receberem novos fuccos , lao tambem pontos ef- fenciaes da Nova cultura. Para tiido fe fdzer commodamente era neceflariia inventar huina maquina para que os graoo na lementcira ficaflem em juftas diftancias huns dos oiitros , erao pre- cizas charruas grandcs , c ligciras , pa- ra mover bem a terra , e para foccor- rer as plantas com fabricos , quando folTe precizo ; a tudo fe fatlsfez. In- ventarao-fe tambem inftrumeiitos para arrancar as ervas , que com as I'uas muitas raizes deftroem os cair.pos j acharao-fe cylindros dentadros de pon- tas de ferro para qucbrar as eivas. &c. NaFran- ^^ A vivacidade Franccza , pro- ^"' curou logo imitar os inventos da me- ditacao Ingleza. O Alarichal de Noail- Ics empenhou Mr. Otter da Academia das Bellas Letras , para traduzir cm Francez a obra de Mr. Tull. ; porem. como para huma boa traduccao nao baf- ta lo entendcr a lingoa em que c{l;i clcripta a obra , que le quer traduzir , porem he precizo conhccer bem a ma- teria , que fe traCla ; Mr. de Bufibn foi cncarregado de a corrigir. A mef- ma £ilta de corJiecimento da agricul- tura rinha outra traduccao de Mr. Got- tert 3 e por citi cauza Mr. Du-Hamel foi DE AgRICULTURA. I99 fol Incumbido de a emmendar. Mr. de BiiiFon fendo informado do trabalho defte Academico Uie iiiviou as corrup- tees , que tlnha feito na traducf ao de Orrert para llie fervirem de fcccorro. Julgando porem Du-Hamel , que as ideas uteis de Mr. Tull. , ficavao obf- curecidas com huma multiplicidade de raciocinios vagos ; e que a diffuzao da obra impedia a fua intelligencia ; fez hum extra (fto da obra de Tull. , abreviando , ampliando , e accreicen- tando o que julgou utii para tazer comprehender o novo fyftema de Agricukura. Para eile fim elle trata das raizes das plantas , que divide em per- pendicuiares , e orizotiitaes ; das fo- Ihas com que ellas a maneira de bo- fes afpirao , e refpirao : da natureza do fucco nutritive das plantas ; fe o fucco do rcino vegetal he diverfo , fegun- do as diverfas clalTes de vegetaes , cu he fo hum , porque meios le pcde fa- zer a divizao da terra ; como fe de- vem trabalhar as terras novas ; que diverfas terras requerem diverfa lavou- ra. Todos elles pontos lao como pre- liminares para fazer comprehender a Nova cultura ; cujos principios ho , I. preparar bem a terra , que fe de- ve femear ; II. , efcolher a femente , que ^00 M E M O R I A S aue fe dcve deftribuir com igualda* e : III. , quando os graos fao naf- cidos , cultivallos de tempos a tem- pos com laclios , afllm como fe cul^ tivao as plantas de horta. f^^'aNr'^t 45' ^'•''^ ^'^^ fcguir cftes prlnci- vVcuku- pios Tull. quer, que a primeira la- «' voura feja de oito , ou dez polega- das. Para fazer efta , clle inventou a charrua de quatro cegas. Prepaiada bem a terra com repetidas lavouras , as fementes fao deitadas em regos em jufta proporgao , por huma maquina , que chamao Dril lemeador. Efta faz lancar a fcmente , que fe julga pre- ciza em altura , e diftancia , que fe quer. Para le conliecer a altura , que he preciza para os graos nafcerem bem , OS graos fe experimcntao pri- meiro fendo femeados em diverfas al- turas para por o fcmeador na altura em que elles nafcerem bem. Mas cc« mo nem todos os graos nafcem , he precizo em certa quantidade tomada ao acazo j e contados os graos ver OS que nao nafcem para fe augment tar eifa quantidade , que fe lanja na terra. Efpa^os, ^^ Como OS graos depois de naf^ vim ter cidos dcvcm fer cnltivados ; he ne^ r.s pUn- geflario efpajos para fe fazer cfla cul/» I I DE Agricultura. 20r tura. Eftes efpajos , ou feparagoes fao diverfas , fegundo o vigor das plan- tas , por fua natureza tern maior , ou menor for^a , mais , ou inerios raizes. E para fallar com maior clareza nefte fyftema fe podem confiderar trez ef- pecies de efpajos. Efpajo , ou diftan- cia de huma planta a outra planta ; efpafo , ou diilancia de rego a rego, OS quaes regos nefte fyftema fo fe confiderao juntos ate o numero trez. Alem deftas duas efpecies de ef- pafos , ha terceira , que he a maior, Efta he a diftancia , que hum , dois , ou trez regos de plantas tem de hum , dois , ou trez regos que fe feguem. Os primeiros efpafos de plan- ta a planta , ou de rego , a rego fao de feis , ou oito polegadas. O terceiro efpa5:o he de quatro pes , ou quarenta , e quatro polegadas. Eftas iao as medidas commuas , as quaes fe modeiicao fegundo a natureza das plantas. 20Z A C - - I. II. M E M R I A S h A b r A c b J U / t- ' u 4r 1 I / n A. B. Figura I. lie o primeiro re- go de hiun campo femeado em regos ou fileiras fimplices , porque de rego a rego ha o eipa^o grande de qiia- tro pes , V. g. Ab. cd. A fegunda fi- gura reprezenta hum campo femeado de dois regos , em dois regos , v. g. Ab. cd. que ilio os primeiros dois re- gos diftao a El", gh. quatro pes , que era a mefma diilancia , que havia dos regos fimplices Ab cd. da primeira figura. Efta mefma obfervagao fe po- de fazcr na fig. terceira , que he de trez regos a trez regos. ca^s'^dL" 47 ^O'^'io a baze da Nova cultu- fabngos. ra , he afofar a terra , e rcduzilla qua- zi a cinza , dando-Ihe a maior fepa- racao de moleculas , que poder fer , as plantas por iilb meiino Icvao mui- tos lachos ; e como iilo era dclpendio- 'zo , fciro a hracos de homens foi inven- tada a charrualigcira ; de huma lo rcda, c deAgricutura. 203 e do hum fo animal para lavrar os ef- pacos grandes , quando fe viffe que a terra endurecia , e fe tornava com- pacl:a. As plantas de Inverno , entre as quaes fe comprehende o trigo , genero que em lodas as idades foi o prin- cipal fuilento do homem civilizado , forao tambem cultivadas por eile me- thodo. Deo-le-lhe no Inverno a pri- meira cultura nos grandes efpaflbs , quando tinha trez , ou quatro folhas , a fegunda cultura na Primavera quan- do elle principiava a encanar ; a ter- ceira quando comecava a engradecer. As repetidas experiencias moftrarao a utilidade defte methodo , e que os grandes efpaiTos , ou ruas , que media- vao ennre os regos das plantas nao erao inuteis ; porque faindo de hum grao vinre e quatro , e trinta efpjgas , eftas fuppriao a falta dos muitos graos que haviao de cobrir a terra , e que pelo ordinario nao produziao mais que luima efpiga , e efta nial acondicionada. Outras muitas utilidades apparccerao por efte methodo de cultura. As mas ervas fao deftruidas pelos repetidos fa- bricos : poupa-fe grande parte da fe- mente : as fearas licao raenos fujeitas a camarem ; os eftruiTjes cuflozos _, e mui- tas 104 M E M O R I A S tas vezes defficeis de fe acolJierem , fi- cao beiB fuppridos , e o que he mais , a melma terra pode fcr todos os an- nos femecida , fcm rifco de fe Jhc ef- gotarem os fiiccos nutritives ; antes a proporjao dos annos a terra ficara mais Fofa, e por ilTo mais fertil. da'^anti-° 4^ Fez-fe o paralcllo das terras cul- ja com tivadr.s pelo metliodo antigo , e pela cuitura ^ova cultura , e achou-le , que efra dava ainda maior produc5a6. Reftava porcm huma difficuldade , que era a falta de paftos para os gados j poisquc ncRe fyflema todas as terras de cultu- ra fao todos OS annos femeadas. Elle inconveniente foi bcm fupprido com OS prados artificiaes de Luierna Sain- frin &c. com as quaes ervas , que dao abundantes cortes ; os lavradores fica- rao mais abafttcidos do forrages , do que com as contrafolhas. Provas 49 A Nova cultura Ingleza paflada cuituM^ ^ Franca , teve hum curfo rapido ; fegundo o genio da Najao. Publicou-fe hum Diario , que te- YC por fim inflruir o publico dos ma- ravjjhozos fucceflbs , que em varias partes da Franca , e ainda fora como na Polonia , Genova , &c. tinha tido a Nova cultura. Dcflinguirao-fe varios Fvflcos neilas uteis obfervacocs , e en- tre DE AgRICULTUHA. 10^ tre dies Lullin de Chateauveux , pri- meiro Syndico da Republica de Ge- j]ova , e' Vandusfel &c. Inventarao-fe novas Charruas , e os femeadores fo- rao aperfeicoados. Defcubriiao-fe no- vas grades de cylindros rodantes , far- pados de dentes de fcrro , que Icrvi- rao bem para quebrar as leivas , e tor- roes J que levantao as charruas. Al- gumas tentativas porem houve , que iiao correfponderao por falta de nao laberem alguns campoiiezes por em, praxe a Nova cultura ; porem as mais das experiencias feitas derao provas authenticas da grande utilidade , que a lavoura recebia em lodos os gene- ros de plantas , que forao cultivadas por tal methodo. Os annos de 1750, $1 , 52, forao de muitas , e repetidas experiencias da Nova cultura. Houve muitos , que para a animarem prometterao aos la- vradores o recariimento da perda , no cazo que a JiouvclTe ; porque eftes fal- tos de conhecimentos Fyficos fenao podiau perfuadir , que hum tao pe- tjueno numero de plantas difpoftas en- tre grandes efpailbs havia dar o mef- mo produd:o , que hum campo cheio ; porem a expcrieiicia os dezenganou. 50 Como as plantas crefcem , ^ fJi"o/^' pro- aa Nova $;ultura. io. 'til Memorial 3, pendicular , que divide o terreno j „ e como ella tern poucas raizes ca- j, pilares lateraes , eJla fenao appro- J, veita dos iuccos da fuperficie. Aitevna- ^j Ef|;e principio da devizao da tiva das ^ A . » . ~ _, femen- ^^^^ra por iTieio das raizes , que lao tes. diverfamente figuradas , he a cauza mais provavcl da fertilidade que pro- duz a alternativa das feraentes conhe- cida em todos os tempos (X) Ac- crefcenta-fe , que tendo as plantas di-» verfas raizes , humas vao bufcar os fuccos onde as outras nao chegao , o que parece mais provavel , que a multiplicidade de fuccos, que muiros Fyficos admittem para o luilento da» plantas. Os Antigos conhecerao tambem. alternativa das fementes para alcancar a fertilidade. Ouvidio ( 1. I. de Pont. El. 5'. ) diz Qti£ nunqtiam vacua folita cjl cef^ fare novali FfuSiibiis ajjlduis lajfa fenefcit humus. E Virg. Geor. I. v. 71- diz. Alternis idem tonfas cejfare novate Sy Et fegnem patiere jitu durefcere campum. Plinio faz mencao defte preceito de Virgilio ( I. 18. c, 21. /Ihernis DE AgRICUL'TUR A. 22J cejfare arvafuadet Virgilius , et hoc , fi patiuntur ruris fpatia , utiUJJlmum ejt. Temos tradlado dos diverfos mo- dos de fecundar a terra , feja dan- do-lhe foes por meio de calcinajao , ou fermentacao putrida ^ feja abrin- do-a , e devidindo-a por meio da mif- tura de diverfas terras > ou por di- verfas , e repetidas cavas , e lavouras , que expoem a terra as influencias da athraosfera. Como a queftao propofta he relativa : Quaes fao os meios mais, convenientes de fupprir os eftrumes animaes ( n. 21. ) ella fe deve de- cider legundo as fuas diverfas reia- §:oes pelos meios propoflo , v. g. nas terras de mato j porem que nao tern Marne perto , nem terra para millurar ' com a que fe quer cultivar ( n. ^^. ) ( n. i:^. &c. ) o meio mais provei- tozo he a calcinagao por via do fo- go. Nas terras em que ha abundan- ; cia de cinzas , porem faltao matos , nas terras em que ha pedras calca- reas , porem faltao cinzas &c. Mas o racio mais ampJo de fupprir a falta d.os eftrumes animaes , he o revolver por varias vezes a terra ( n. 43 , ) e depois defte a calcinajao por via do fol ( n. 14. } C A- ^24 Memorial C A P I T U L O VI. Synopfe. AAgricultura he a baze, e o fun- damento dos Povos civilizados ( n. I. ) Diverfos fyftemas fobre o fucco nutritive dos vegetaes : ( n. 2. ) infufficiencia deftes fyftemas ( n. 9. ) A divizao , e attenua5a6 da terra he o priiicipio da fua fecundidade: ( n.ii.) ou efta le abra por meio dos faes , ou machinalmente ( n. 12. ) os faes fao, ou por calcina^ao , ou por fermenta- ^ao putrida • ou fe efpalhao na terra ja formados. ( ibidem ) A calcinajao fe faz pelo fol , ou pelo fogo. ( n.13.) Pelo fbl nas cavas a montes ( n. 14. ) 310S alqueives de Maio , Junho &c. ( n. 15-. ) na materia das primeiras enchurradas ( n. 16. ) Pelo fogo com- inum obrao a cal ( n. 17. ) ^s cin- zas (n. 19. , ) as queimadas ( n.23.) its borralheiras ( n. 24. ) o^ ^'^^^ P^'^ fermentajao putrida vem ou do reino vegetal , ou animal. ( n. 26. ) O rei- no vegetal da a terra faes por via das eftrumadas , ( n. 28. ) pelos reftolhos , e ervas enterradas , ( n. 29. ) pclas coyas de mato , e follias ( n. 30. ) o ' p.ei- DE AgR1CULTU1< A. 22^ Reino animal com osfeusclTcs, pel^ les , Jaa _, pcncas , unhas , 8ic. ( n.:^i.) Os lacs ja tbrmados dados a terra , a fertili'zao tambem ; v. g. as lexi^ vias das nitreiras , o fal ccrr.mum , o fal gemma , o nitro , c:c. ( n. ^i. ) MaquiniJmente a terra fe fecunda por via do Marne ( n. 33 , e ^^ ) em certos cazos pela argilla , cuteira for- te , em outros pela terra del gada. ( n. 38. ) pelo Icdo J lamas, p6 das j pedras calcareas ( n. 39. e 40. ) pe- los entullios, ferriige , greda (n. 41., e 42. ) De todcs os meics de fe- cundar as terras , o raais aiiiplo lie a repetijao de fabricos , on grandes ama- nhos a que fe reduz a Nova ciiltura 1 ( n. 43* ) as cavas chamadas a gre-^ I ta ( n. 58. ) 5 as furribas , ( n^ ^c;. ) I as plantas que com fuas raizes divi- 1 dem a terra ( 11. 59. ) a alternativii ! das fementes ( n. 60. ) K (V DE AgRICULTURA. 227 N O T A S. ( I ) Mr. de BufFon . fallando da rfia |^roduc9a6 dos corpos organizados „ ( Hift. ^, dos Anim. C. II. ) diz : o primeiro raeio „ e mais fimples de todos , he ajuntar cm 3, hum ente numa infinidade de ences or- 3, ganicos femelhantes , e compor de tal 3, modo a fua fubftancia , que elle nao te- jj nha huma parte , a oual nao conrenha 3, o germe da mefma eipecie , e que per 3, coniequencia pode vir a fcr efla parte 3, hum todo femelhante aquelle em o qual 5, he contido. J, Elie fyitema inventado'pa- 13. evitar os argumentos que fe oppunhao a inclufive de cada efpecie de plantas no primeiro germe , tern contra fi argumen- tos mui nervozos ; porcue era precizo prl- inciro moftrar que as partes organicas erad primitivas , e incorruptiveis , fempre adi- vas , e commuas aos vegetaes , e aos ani- jnaes , fern ferem nem vegetaes, ncm ani- maes. Em fegundo lugar devia-fe moftrar como as partes organicas fe podiao >;unir para formar hum todo organizado , fcm. fe recorrer a huma faculdade occulta, v. Vi- tct Medicine Velerinarie. P. 7. T. i. Nos fo confideramos o fyflema de Mr. de Buf- Jon refpeclive a Agricultura. (II) Os Antigos parece que erao tam- bem da opiniao , de que a terra deve a fua fecundidade ao Ar j o que fe moftra por va- tiis palTagens de Antigos Authores , e entre ^utr^s de Virg. Georg. II. y, 525. 2i8 Memorias Turn paxr omnipatcns fa'cnndis imbrU I'fis JLthcr Anibos cftes dois granjcs Poctas fal- latiuo da fecnndidade cjue a terra tern na J-'rimavcra a r.ttribucm ao feu ajuntamen*. •to com Jup'tcr c o Ar. ^ ( III ) Qiic o fucco dos vegetaes feja ho- n".oi;eneo , e univ^erral , i=. port]u6 fe criao na mefma agoa muitas , c diverfiis efpecics dc }5lani.as Za. as planras juntas no mefmo lerrcno, humas as outcas ie lirao a fubftancia. ( R' ) Tantas , c tao divcrfas opinioes, fobre a naturcza , e forma9a6 dos fuccos. ' doo vc^c^etaes , inollrao bem que efta he" JiiiRia das op;;ra9oes occtikas danarureza/ na qual o raciocinio toma caminhos di- vcrfos ; partinJo muiras vczes de princi- ples prccarioi. As noiTas conje^turas fobre a t'ormayao da leva , Tao cftas. A nature- 7.a prin^ipalmente por meio de oleos , e laci de que abunda a terra , e atmosfera forma faeces faponaceos , de que as plan-' tas fe alimsintao. lilo fe prova , i°. por-. que por expjriencias fe fabe , que a fer-- t'.lidade exiitc ond- ha faes , c oleos v. g.^ lias terras adubadas bem com a parte fe-^ car do Reino animal , a qiial al>unda em ambas as couzas : 2^. as anjlyics chymicas^ t^05 fucco^ das plantas , mofirao que elles. alcm da terra ^ agoi j ^' ■> co'atcmfaes, e;,' parte; oleozas , do concur! o dos quaes jKnc'pal.mente alk.ilinos fe lorma o fabao^ rlcificlal , o quo nos indica o narural que- veg-'ta aj phnias , porque do concurlo dos- niJmoJ p.r..uip:o3 femprc fe julgao iguais,.' e (osmef.nj'j e.'i'.-ito.'^ feja que obre a Na-' tu- DE AgRICULTUR A. 229 tureza , feja que obre a Arte. Efies fuc- cos faponaceos exillein na terra pcio con- curio dos faes que a terra tern , c doi oleos em que abunda , como fe moftra cia? Analyfes Chymicas ;. e exiftem na arir.osfe- ra, e ahi parece que com maior abundancia ( n. 6. ) pois que as folhas fao tarr.bem hum caminho por ondc as plantas vegc: ,ta6. Do que fica dito podemos concluir , que o lucco nutritivo das planras fendo trabalhado por dois modes no leio da ter- ra e na atmosfera , vem , e he reccbido pelas plantas por trcz diverfos modos ; i-, tocando nas raizes capilares das planras cs fuccos formados pelos olcos da ccira , e pelos files que fe dao a mefma terra , ou elJ.i OS tern ; para o que nao concorrem pouco os diverfos iachos que fe Ihe dao ; pcrque c;;- tao fe faz huma boa miilura com as partes oleozas ( * ) 2°. os luccos faponaccoj d.i atmosfera , que cahem na terra por nieiu <3os ferenos , orvalhos , e outros metheo- ros , OS quaes como fe tern experimcnttdo deixa5 huma efpecie de limo s;rodurento , e faponaceo ; que da a fertilidade aos cam- pes : :?'. 03 fuccos faponaccos que nadao na atmosfera , que as folhas das plantas fnccac. (V) Parece que os laes concorrem do <3ois modos para fecundar as terras , )a dif- iblvendo-aj , ja formando com os oleos qa terra fuccos faponaceos. Os facs fao huns corpos duros , cujas pecjucnas partes pel a iua O Talves que efte feja o principio da f*;- eundidade que fe tern experimentado Da tultii- »a Nova , e nr.6 a? pr.ites tctrens miiuui(iu)i:<5 d« Wr. Tull. b>^b Memorias fua figura , fao mui proprias para obra'r rt fiivizao da terra. Os Chymicos dividerrt os faes em rrcz clafTes , acidos , alkalifaos , neutros. Aos acidos dao a figura de fufos i aos alkalinos dao a figura de esfcra , porcm cheia de pontaj : os Hies neutros fao hum compofto formado dqs acidos , e alkali- nos ( Geofroi princip. dos Corp.) ' ( VI. ) Elta mefma foi efte anno ou- tra vez femcada de cevada nas primeiras agoas , que vierao em Setembro. No prin-r cipio de Dezembro eu obfervei efta fe- menteira ; ella efta mui alta ja , toda de bum verde efcuro , e hum grande nume- ro de pis que obfervei tern a nove , e a dez •filhos , fern embargo de fer femcada bafta. (VII) A fertilidade , que tem alguns do-> torritorios da Italia, nao he improva- vel que feja procedida de calcina9a6 , que a;? terras recebem dos fogos fubteraneos ; para o que fervem as muitas materias com- bulViveis que alii ha , pols o enxofre i'a achi por toda a parte. Alem difto a fecun- didadc nos annos em que fe fcntem gran- ges tremores ; creio que com baftante fun- damento fe pode attribuir ao fogo ele£lri-» CO que ie commiinica a toda a terra qua tremc ; principalmentc quando o tremo» fe fente quizi ao mefmo tempo em par-» tcs difta-ates. O3 efrciros da caicinafao da fogo elecirico fe deixao bcm ver nas ma-*. terias mais folidas que os ralos reduzent a p6. ( Vni ) Parecera talvcz que o fyfte-«' ma de que fazemos depeudente a fecun'-ti Uidade da terra, he incomplero : poisquq, pro-s DE AgRICULTUHA. 2^1 propondo os faes como hum dos mais ge-* nericos principios da fertilidade , nao tra- tamos delles nas fuas diverfas efpecies , V. g. do vetriolo , da pedra hume. Sec. A ifto refpondemos , que o lavrador nao fe propoem conleguir fimplesmente a fertili- dade ; porem fim confeguilla pelos rneios OS mais commodos : 2.° que fo fe deviao propor aquelles faes de que ha experien- cia : ]o , que os lavradores judiciozos que eftiverem em alguns (Itios onde fe fabri- quem os diverfos faes de que nao tracla- mos ; podem fazer a experiencia , pois os gaftos , e as utilidades he que Ihe fervi- rao de guia , e ella he que moftrara os que convem aos campos. Hofibmano deC- crevendo huma terra vitriolica diz : Qjii- dam vevo agricolamm banc terram pro ni- ifofa forte hahentcs , earn per agros fnos pro meliore fxcnndatiorie dijiribiiernnt ; fed fpcm dcfidctatam non obtinnernnt , ac potms agri vitrioUco principio Jleriliorcs redditi fue- te quod in illis adhn: hodie obfervdtnr. (Oryclographia Halcnfis. c. I. de fitu et nat. agri Halenfis. j (IX) A utiliuade do Marne , e ainda da miftura de diverfos rerrenos , fe deixa bem ver comparando eftes modos de adu- bar a terra com os melhores eftrumes ani- maes. O das ovelhas paffi pcio melhor , pois que elle contem mais faes que ne- nhum dos outros ( Diftionaire Domeftique ) com tudo a fua maior dura^ao apenas che- ga a feis annos : fazendo as ovelhas o amalho n\s terras que fe hao de cultivar. « Os efcrsmcntos , a ourina ,60 calor dos )5 cor- S3^ M E M O R I A' .^ }) corpos deftc gado animarao em pouco )) tempo as terms cangadas , frias , e in- 3) ferccis ; cem carneiros melhorao cm )ium vcrao, oito arpens cem vams cm qundvo pa- ra fcis annos, Bufl-'on Kill. Nar. de la Brcbis. Efta melina rc:;ra »cral cjue poem cfte grande Nacuraliita do mcl!ioramcnra das terra? coni cftc ellrumc iiiimal dc feis annos , fe ac!ia nao po.iras vezes falfa. Eu tenho experiencia de repotidos annos , e cm cxterifao de inais dc trez legois do terreno , c cm diltcrentes partes onde as ovelhas amalhao todos o> anno? fobre a mefmo rerrcno pira elle Per fni^'-lifcro , e cjue ao muiio d'lra cfte adubo dois ay.nos. As terras cancidas dc c.ne hlia Mr. i^c Binlo 1 podem (er de difi'ercnre n.irijrcza , c concxtura , e a todas nao fe Ibe pode app'icar a niefnia rc^:;ra. Do que fe pode in^erir , que a miftura de terrcnos he mai* vatitajoza. (X) Hum lavr.idor das minbas vizi- n ban fas , amanre de hizer boa culrura , pro- jioida4he cu o prepare da terra com re- }-«erid.is lavo'.iras antes de fc Ihc deitar a iemcntc , principalmcnce com as lavouras «.io vcrao , me objei^ioii , (.jnc efta regra encrc n6> era impo'livel , porque as ter- ras no tempo do vcraS crao tau compa^ (ilas, principalmcntc as barrozas , cjue ror- ^ra"? nenbumas as poderiao lavrar. Eu Ihe Kcfpondi , que nao fo era poUivcl lavrar as terras de vcrao , mas que entao , pr'ncU palmentc no fim , fe dcviao femcar ; que t;n tinha efti experienc'a, e qne ella nao. ^rJt muTib'i. ^<3 , porjm tr.iha fijo dos Ra<. DE Agricultura. J^:} Jlianbs . , e antes delles dos Gregos* .. Ntidtis ara , fere nudus .... Virg. G^ I. V. jpp. Dtim ficca tellure licet ^ dum nuhila pen* dent. V. 214. Duas fao as razoens fyficas deftas ex- periencias que os Antigos nos tranfmitti- rao. A primeira he porque femeando-fe cedo as plantas , quando chegao as grandes chuvas , e frios do Inverno , tem ja raizes forces para poderem reziftir e fofFrer as "intempenes da atmosfera , a fegunda por- que a terra cftando fecca , e fendo lavra- da , fe calcina , e fe cnchc de faes alka- linos. Em qnanco a objecjao , de que era iiH' po'Iivel meter o arado nas terras compa- (J-^-as com 03 grandes calores do verao , ifto ailini he ; porcm era no cazo , que en- tao 'fe Ihe dcHe a primeira lavoura. Mas no tempo da fementeira a terra devc eftar preparada ao menos com duas lavouras da- das em differentes tempos. Ella eia a pra- ftica do3 Antigos ; e etla he a pratica das Nacois que melhor cultivao , e ha "■multas que Ihe dao quatro. Eu nao porTo ver iem grande magoa , o que todos os dias prezenceio. Ontem i^ de Janeiro do prezente anno dc 1788 indo ao campo vcr alguns homens que alii trazia a trabalhar , eu vi muitos lavradores ( c efta pratica he frequence ) que femeavao cevada pot ftma da terra crua , e que depois ihe da- vao huma lavoura fern grade , nem mais cultura alguma. Ifto msfmo fazem ao tri- go i e ao muico lavrao a terra, e fobre ?i^a terra layrada deicao o cr'so nor fima , Q 454 Memorias e dcpois gradao. Cdmo poderao ir as plan^ fas com as fuas raizes bufcar os fuccos que Ihe fao precizos , fe a terra fica compa6ta? Como poderao fcr vivificadas pelos me- thcoros, fc elles tern o caminho fee h ado ? Em algumas partes lavrao com jumentos ; em oatras fao os arados tao pcquenos , que apcnas tocao na fiiperficie da terra. Senao attendermos a efta ma culrura , nos nao poderemos crer , que as terras que habi- tamos fao aquellas que no Reinado de . Dom ]oa6 I. mandavao Naos depao a Ita- lia ( Faria , e Souza , Chr ; ) e que ain- da no Reinado de Dom Joa5 II. fuften- tavao oito mil cavallos ( Garcia de Re- zende, Chr. ) (XI) A mudan9a de fementes nao fo fe entende de difFerentes efpecies de fe- Tnentes , que fe alternao aos annos , mas tambem das fementes da mefma efpecie , as ques nao devem de fer femeadas na ter- ra que as produzio , a fim de fe poderem jiiclhorar. Efta regra he eftabelecida por JvTr. de BufFon , entre outros Agronomos » » o bello , diz elle , efia efpalhado por to- il da a terra , e em cada clima refide hu- y ma porfao que degencra fempre ao mc- 31 nos que fenao una com huma porfao to- y mada no longe ; de forte que para ter 3) bom gra5 , e bellas fiores he neccffario 31 mudar as fementes , e nunca a femear y no mefmo terreno que as produzio ( Hift. "Nat. du Cheval ) As mi»has experiencias fao cm pirte contrarias , ou para mclhor dizcr modificao cfta regra. Se o rcrreno ' he proprio da femente , cao longc efta que el- I BE AqRICULT UR A. 2^5? ella degenere , que antes fe melhora. Eii tenho experimentado , e outras mais pef- foas tern feito as mefmas experiencias em milho grofTo , feijoes brancos &c. os quaes femeados fempre no mefmo terrcno nao fo nao degenera5 , mas antes fe fizerao melhores ; porque o terreno Ihe era pro? prio , e para me explicar em fraze rufti- ca, era o terreno caroal deftas fementes. Se pelo contrario as fementes nao fao pro- prias do terreno , entao he que tera lu- gar a regra da mudan9a das fementes paf- lando-as dos terrenos proprios para os im- proprios. F I M, JN- 43? INDICE D O QUE CONTEM ESTA MEMORIA. ROEMIO. : . . . Fag. i^^, CAl^. I. Da feva , ou fucco nutritivo , das plantas 156^ CAP. II. Da calcina^ao , meio mui am- plo de encher a terra de faes . . 164, CAP. III. Da fermemai^ao ptitrida co- mo feniliza as terras 177. CAP. IV. Dos faes jd formados , ou jun- tos a corpos , de que facilmente fe fe^ parao. 185, CAP. V. Da mijtura de diverfas ter- ras 187. CAP. VI. Da repeticao dos jabrkos , e cfpccir.huente da Nova cuhura. , 1^7. CAP. VII. Synopfe 224. UU ^39 M E M O R I A S O B R E ASSUMPTO EXTRAORDINARIO propofto pela Academia Real das Sciencias para o anno de 1788. ^AES SAO OS MEIOS MAIS Conuen'ientes de fupprir a falta das ejlrumes animaes nos lu- gares aonde he dtfficul- tozo havellos ? FOR CONSTANTINO BOTELHO DE LACERDA LOBOi O F7M M^/J' PRINCIPAL da A?rtcultU}'-a conftfie 7ia format {;ao dos principios que cojlituem c fucco dos vege.taes , e prepaj'-ar terrcno de forma , rpe fcja fuf- ceptivel de conftrvar aqttella hum:- dade proporclonada d 'datureza de cad a plant a, EJles dois pontos fa^ rao objeSlo da primeira , e fe-^ gunda parte dejla Memoria , e na tcrceira exporei o modo mats Jim* plez , e natural , dvC fupprir a fal^ ta dos ejlrumes animaes. PARTE I. CAPITULO I. l)os principios primarios da Vege^ taCao, §'i. f**^^;! Ara decidir qiial feja o mo-' % P S'^ ^^ "^'^^^ fegiiro de lupprir a (^Sij..>- 1^'^ falta dos eftrumes animaes , he ^. Aos terfeiios muIto jfoltos , e ma^ 'ji^ros fe podem reduzir os puramente a i R ii re- ,,1 , t^ •- Bj -. (ji) A defpeza , que o cultivador faz na mif- :■'* tura da argilla , e exportagao longinqua da nief- fcia , quando mais perto nao fe pode acliar , fie* 'Compenfada com © inelhgramen^o eonfideraiiv^t ^o feu terieno., ■l6o Memokias 'a^'era.'eos , e aquelles aonde a area lia tao doraiiiantc , que nao fe podeni cukivar com urilidade do eiikivador. Eftes terrcnos tambem le podem corri- gir com a argilla guardando aqui tu- do aquillo , que ja a refpeito daquel- ■les tei]ho advcrtido. § XXV. Quando o cultivador nao poder defcobrir argilla para o mellioramen- to do feu terreno podera uzar de (ni- tra qualqner terra, que ieja de facii exporrajao , e menos Ibka , que a do terreno , que perteiide corrigir , e fa- ra a millura naquella proporcao, que for conveniente. § XXVL Nao querendo porem o lavrador ' uzar dos meios ja referidos para cor- rigir o feu terreno , ou por iJie pare- cerem difficukozos , ou por outra qual- quer cauza , devera procurar para q lobredito ten*cno aquelles vegetaes , que vivem felizmente com pouca liu-* midade , c que produzao perfeiramen- te o icu fruto antes dos calores , e"., efte talvez fcra o mCio mais fcguro^^ ^U9 / f deAgricultura. i6j( que fe pode empregar quando os ter- renes muito foltos , e magros tem hur. ! ma demaziada extenlao , os quaes , ou ' ! feria impofllvel corrigillos pelos' mo- • I dos fobreditos , on com exceffivo tra- • I balho , e delpeza , que os pobres cul- ■ livadores nao podem fazer. {a) § XXVII. Confide pois toda a induflria do : I lavrador , que poffue muitos terrenos •; foltos , e magros, ou era os corrigir • I na. forma rcferida , ou em procurar I vegetacs , que nos ditos meilior fe ) i.poimo produzir. Em confequencia dii- • to nao poflb dilTimular o c>bufo , que ; jtenho oblervado em muitos lugares da iProvincia da Beira aonde coflumao fe- ,mear milho nas terras ibltas , e ma- 'gras j coniervando-fe neflas pouca hu- imidade , e por breve tempo, fe accon- r Itece fer a Primavera pouco cluivoza , . lo lavrador nao tira lucro algum do . I eu trabalho iji mas antes perde muitas . fvezes a fcmente. , Ha )> I - os-Moiites j porquc o. iavradcr cora menos defpeza pooe ter huma col-'°i- ta mais abundante , e meaos arrijcu- di? i devcra efcolher muito prii cipal- mente aquella elpecie de centeio , i^ue fofffc fer desfoiiudo ; ou fegada an* DE AGRICUTURA. 26^ antes de langar o colmo , porque def^ te nao iomente rira paftagem para os feus gados , mas maior quantidade de pao. (a) § XXX. Concluo pois , que fe os terre-* nos magros de que temos fallado fo- rem formados de huma terra vegetal , muito folta , fendo ella mifturada com largiila, como ella .fubminiftra poucos meios de evaporajao , o humus con- ferva por mais tempo as fuas parti— culas oleozas , e por confequencia as plantas fe confervao vigorozas , e re- cebem huma nutricao proporcionada ao feu augmento. Se porem os fobre- di- C") Elle fenteio langa muitos filhos como viil- gannente fe exprimeiii os rullicos e vem mais tarde o feu fruto ; e pcrifTo feria conveniente o feu uzo a onde a experiencia tern moilrado, que o fenteio , que fenieiao lanca a fiia ef|iiga ;i-^empo que efla he damnificada pelo frio ; logo ros terrenos magros deve o cultivador preferir ao milho o centeio daquella efpecie , que a expe- riencia Ihe moflrar ineibor fe produz no feu terre- ne , e ainda que a efpecie de ceiv.eio , que foflrrer fer fegado , e desfolhado frudifique adniiravelmen- te no Minho e Trasos- Monies nau deve fervir de regra para os mais lugares fern que primeiro feja decjidido peja experiencia em pequeno , pa- I Mr^laviador nao perder trabalho , e feiuente. 1,64 M E M O R I A S diros terrenos nao poderem fer corri- gidos na forma rcterida o cultivador devera qxaminar por muitas experien- cias feitas en pequeno aquelles ve- getaes , que neceffirao de menor hu- niidade , e que melhor fruclifiquem ros ditos predios ; e por iflb eu nao polFo imaginar terreno algum nefte Jleino , que o induftriozo lavrador nao poiFa (converter em fua utilidade* C A P I T U L O IV. J)a prepara^ao dos terrenos , que fau inuito apertados , ou purarnente argillaceos, § XXXI. QUando porem o terreno for pu« ramente argiilaceo , ou muito apertado , como efte nao contem particulas algumas oleozas , ou fe exif- tem fao apenas fcnfiveis , deve fcr re.- putada a fua acgao como purament^ mcchanica , e por iiTo podemos cha- mar infeliz aquelle proprietario , que tern muitos predios deila natureza , porque nos annos chuvozos adquirem tao grandc quantidade de agua , que as raizes das phntas facilmente apo* dre> Hrecem , e com o calor indurecendo-* fe a terra , fe comprimem de tal for- ma , que fe faz languida a fua vege- tacap ate que finalmente morrem- § XXXII. Sendo porem a argilla pura , ou Si terra barrenta ( como vulgarmente )he chamao ) mifturada com outras de differente natureza em huma conve- riente proporjao teremos hum optimo terreno , e o mais fruiftifero , confif- tindo toda efta bondade na bem pro- porcionada miftura , e feita de mode , que fe conferve a agua em hum pon- to neceffario para a vegeta^ao da plan- ta , que fe confia da mefma terra , e que nao deixe evaporar fenao len- tamente a humidade , que em fi con- t^m. § XXXIII. Como OS terrenos puramente ar- gillaceos , ou barrentos offendem mui- to a vegetacao , e mifturados conve- nientemente fao os mais produiflivos , fegue-fe , que todo o fim do cultiv-i- dor deve confiftir em achar o ponto ^e perfeicao nefta miiUira , e nao fa delle modo fe podem melhorar os fo- bie- ^66 Memorias b^teditos terrenes , mas tambem de ou- tros muitos os quaes todo5 fe redu- zem a finco , i. as repetidas lavouras , 2. a miftura da area , 3. os eftrumes , 4. a combuftao do terrene , 5". o femear plantas , e deoois ente'rrailas logo que chegarem a numa certa altura. § XXXIV. * O melhoramento do terreno fo- mente fe efFecftua pela conveniente miftura de fubftancias heterogeneas , logo nada contribuem para efte fim as lavouras , e ainda que eftas dividao a terra voltando huma parte da fua fuper- iicie , expondo-a a chuva , aos orva- Ihos , a geada , aos raios do Sol , e a attracao do acido aereo todos huns fortes agentes da natureza , e capazes de attenuarem muito a terra , com tu-i do efta pallado hum certo tempo fe abaixa , e as fuas particulas ficao tao unidas entre fi , como fe nunca tivci-, fe lido lavrada. § XXXV; Tanto fao inuteis as lavouras pa- fa melhorar hum terreno puramente ar-l gillaceo , ou barrento , que baft^l £6 menr i DE Agricultura; 26-^ itiente a chuva de 24 lioras para con4 centrar , e unir de novo as fuas mo-* leculas , o menor calor , o vento o menos violento he capaz de defecar de tal forma a fuperficie , que nao po- de deixar evaporar a agua , que no mefmo fe contem , demora-fe pois ef- ta no interior do terreno , e a da chuva fe accumula na fuperficie do meiuio , dor:,ie accontece que por cau- za daquella apodrecem as raizes das planras , e por cauza defta- os novos vegetaesj que vao nafcendo, § XXXVL Se porem o terreno for formado de huma terra muito fclta , e arena- cea tambem nada contribuem para o ieu melhoramento as repetidas lavou- ras , antes quanto mais vezes for la- •vrado , menores ferao as colheitas •, lo- go fe as lavouras de nada fervem pa- ra raeihorar o terreno fegue-fe que o -feu uzo he fuperfluo , e defnecelTario j applicando-o para o fobredito fim. § XXXVII. O melhoramento do terreno pu* j/iamente argillaceO; ou barrento fe ob-. tem t68 M E M R r A s tern feguramente com a miftura da area em huma conveniente p-'ioporfao , porque como as moleculas delta terra tern huma minima adhelao , facilmen- te recebem a humidade , e como tam- bem adq^uirem hum maior grao de ca- lor , fe facilita mais a evaporajao da agua , que tern recebido , peio con- trario as moleculas da argilla fendo excefllvamente divididas fe unem hu- mas com outras , e forma 6 hum ter- reno tao dure , e compafto , que ape- nas pode fer penetrado pelo calor , e humidade , fazendo pois huma bein proporcionada miftura da terra a re- nacea com a argilla , ficao as molecu- las defta mais leparadas , e o terreno o mais produdiivo , porque nao £6 recolhe todas as influencias da ath- mcsphera , mas as conferva de hum mo- de util aos vegetaes , que produz. {a^ § XXXVIII. Se o cultivador tiver commodidi- de ((j") Efte inei9 tfe melhorar o terreno lie o mais facil , e fimplez , que fe pode defcobrir,, j e muito neceffarin para aquelles , a quern he dif- ficultoza a exportaca6 da area por terein os fejis terreiios diftantes das praias , e rios aond^' p\ais ordinariamente fe encontra. I DE Agricultura. 26^ 0e de efcolher a area , deveri antea fazer iizo daquella , que for mais feca , e de maior volume , e que nao tivei: milLura de outra qualquer terra , fal- tando efte meio , ou rendo muito dif- ficulrozo fe pode uzar de quaefquer pedras reduziJa^ a pecuenos pedajos p;-efe"indo iempre aquellas , que mais favilmcnte Te decompoem. § XXXIX. Efles pequenos pedacos de pedra I mlfturados com huma terra puramente I argillacea , ou barrenta na6 lomente ; corrigem a fua demaziada adhefao , j permittindo as plantas o poderem mais i livremente ellender as fuas raizes , mas i tambem concentrao mais o calor nos 1 terrenos chalmados frios ; porque hum jcorpo expoflo aos raios do fol , quan- :to ellc he mais duro , e folido , tan- ito maior calor adquire , e conferva 'por mais tempo, verificando-fe jflo nos fobreditos fragmentos lapidozos, Ineceflariamente eftes hao de commu« Jiicar o feu calor adquirido as parti- I iculas terreftes , que os cercao ; e por liiflb OS terrenos ainda que fejao frios jldquirem hum maior grao de calor, j \i ficfio ji.o eftado de iexem muito fru-, 670 Memo«ias iftiferoSj com tanto que os pequenod pedaf OS de pedra fejao mifturados eiU liurna conveniente proporcao, XL. A quantidade de area ^ ou de pe* (dagos de pedra , que fe deve langar no terreno , deve fcr malor , ou menor conlbrme elle fcr mais , ou menos apertado , e -como em geral nao po- demos determinar exacftamente a re- ferida quantidade, fe permitte ao pru-- dente cultivador , que o faga atten- dendo as circunftancias ; porera a reA peito do uzo da area devemos adver-* tir que he mais conveniente , que ef» ta feja efpaihada antes das lavouras por differentcs vezes em mcnor quan- tidade , do que muita junta por hu-* Hia vez fomcnte , porque nefte cafo a area fe amontoa toda nos regos feitos pelo arado , e com as chuvas fe in-* troduz no interior do terreno , e nadp cauza aquelle beneficio , que fe de-» zeja. § XLL A Intima comblnajad da argilM torn area nao he obra de duas 3 oil DE Agricultvita; r--^ trez lavouras , mas de muitas ] e luc- ceffivas , querendo por^m o proprie- tario obter o mefmo efFeito mais prom- ptamente devera antes mandar cavar p terreno , porque os obreiros com as enxadas levantao pouco a terra quebrao os terroens , mifturao a area com as differentes porjoens terreftes , depois as cliuvas , e geadas complc- tao a combinagao. § XLII. Quando porem o terreno for pro- ximo a lugares aonde haja muita le-? jiha , fe pode melhorar do modo fe- guinte i fe fazem de diftancia em dif- tancia , por exemplo de 20 ., em 20 pal- jnos huns pequenos monteculos dele- nha , OS quaes fe devem ciibrir de terra barrenta de que fe compoem o terreno , levantada em f6rma de trin- cheira , formando como efpecies de for- iios ( o que he facil praticar no tem- po de verao quando a terra efta mui-« to dura , e fe tirao grandes torroens ) ^eito ifto , e lan^ado o fogo a to da a lenlia , que fe acha recolhida nelies pequenos fornos , deve haver caute- la para que a chamma nao fahia pe- j^s pequenas fendas da argiila. ♦ ■ H i ft » 1 A s § XLIII. Feita a combuft;a6 defle modo fe exalta6 pelo fogo as partes calcareas , que na argil la le con tern , fe deftroe a nimia adhelao , que as moleculas delta tern entre fi de forma , que fi- ca o terreno com huma grande quan- tidade de parte alkalinas poftas no ef- tado de ferem uteis a vegetacao co- mo ten ho dita : Accrcfce ficar o mef- mo terreno mais porozo , e capaz de recolher as influencias da atmosfera , e de as deftribuir aos vegetaes na- quella proporcao dc que elles preci- 23 6 , por eftas mefmas razoens fe po- de fazer hum uzo mil da cal , geco, e marne para corrigir o terreno pu- ramente argillaceo , ou barren to* § XLIV. Qiiando o cultivador nao poder fazer uzo da area , ou pedras reduzi- das a pequcnos pedajos para corrigirl o fobredito terreno , podera fupprir 2f fua falta procurando outra terra j que' feja muito folta , e dc facil exporta-i gao , a qual millurada com a argilla* CjQi huma conveniente proporjao poflif mo- aioderar a demaziada adliefao , que at partes dcfta tern entre fi. A propor- ^ao que fe deve guardar nefta miftiH ra nao pode fer dererminada fenao pe* lo prudente lavrador attendendo as circunllaiicias do feu terrenOi § XLV* Os eftercos das cavalliarl^as , que nefte lugar fe coniiderao como obran- do mechanicamente , tambem com uti- lidade fe podem empregar para corri- girem os terrenos muito apertados , porque nao fomente dividem as fuas partes j mas tambem as levanrao de forma , que facilita huma conveniens te evaporacao da humidade. Etles dols iins fe obtem com maior vantagem j qnanto mais palhentos forem os efter- eos J porque Confomem mais tempo para fe decomporeni , e por todo eftei confervao as terras levantadas. § XLVL Langado porem nas cavalharijas em lugar de palha , juncos , urzes , giedas , e folhas debuxo ^ todos eftes vegetaes apodrecidos dao hum cftrume pieJihor J que o das pallias , porqua S aquiij- ii74 Memorias ^quelle nao fomente fc carrega mais de laes , e paiticulas pinguidinozas re- coUiidas nos cfcrementos dos animaes , mas tambem obra como outras tantas lavancas , que impcdcm a reuniao das particulas aa argiUa dc que fe coni- poem o tcrreiio. § XLVII. Efte methodo nao terii lugar , quan- do OS terrenos , que ic pertendcm me- jhorar forem ir.uito diilantes das ca- valharicas , por cauzar muita defpcza a cxportacao dos eitercos , porcm eu o exponho juntamente com os cutrosja reicridos para que o lavrador atten- dendo as circunlcaucias poila crcolher aquelle , que llie parecer mais convex niente. § XLVIIl. Sao dois OS tempos , que princi- palmente deve efcolhcr o lavrador pa- ra lanjar o ellerco no feu terrene. O primeiro deve fcr antes do Inverno , para que por tcdo efte l"e pofla in- corporar com a terra , o fegundo pou- co tempo antes da Tementcira para que a terra fe coni'erve Jevantada em quanto as I'ementes nao lanjao as fuas pri- piimeiras raizes , e como o eftercO de Invcrno foffre huma pequena de-t compozijao, as boas fementes vege- tarao felizmente por cauza de pode- rem eflender as fuas raizes mais fa- cilmente entre as moleculas da argil- la, e do ellerco. § XLIX. Como toda a preparagao dos ter^ renos fe dirige para que os mefmos nao contenhao J'enao aqueJla agua , que convem a cada planra , fegue-fe que o meliioramento do terreno deve ier relativo a natureza daquelles ve- getaes , que o mefmo houver de pro- duzir ; porque as arvores fruclireras OS bofques , as vinhas ^ os prados na- turaes , e artificiaes , o trigo j fen- teio , millio , painco , cevada reque- rem difterente qualidade de terrenes , os quaes devem fer de tal forma psj-e- parados , ou pela natureza 5 ou pela Snduftria dos homens , que confervem a humidade naquella exaifta propor- jao , que convem a cada hum dos ge-* Micros dos i^jbreditos vegetaes. ^M ^ ^7^ M E W o ir r A * '"' § L. Eftii rcgra he tao intercfrnntc > ■•que a nao cbfcrviincia della cauza gra- viilimo damno aos lavradores , os quaes perdem muitas vezes as femen- tcs quando nao examinao por hum breve , e repetido cnfaio fe cflas fao accommodadas a natuicza do feu terre- no. Quantas vinlias fe rem cortado em muiros kigares delle Reino para Jeinea- rem trigo , milho , eentcio , ceva- d;a , e outros generos , que cm muitos annos nem prou oito , que reftao , de nada ferveni , e por con- lequencia fao fupcrfluas. Se o terreno he apertado , ou argillaceo , e nao teiii Udo corrigido por aJgum dos modos refcridos ainda que feja lavrado vin-' te vezes baftaia chuva de hum f6 dia para ficar no eftado como ie nunca fofle lavrado. Accrefce mais , que a argilla por mais que feja attenuada , e dividida nunca pode fervir de nu- trimento as plantas , concluimos pois , que as muir^fs lavouras tan to nao I'up- prem a falia dos ellrumes animaes, que antes fao abfolutamente inuteisj § LX. Du-Hamcl , e Tull. perfuadindo-ib tarobem , que os vegetaes recolhia6 to-» j das as fuas particulas nutritivas fomen- 1 te pelas raizes , diziao , que ellendeni j dc-fe , e ramificando-fe muiro eflas , r5cebia6 os fobreditos vegetaes maior quail- t)E Agricultur'a. aSjf ijuantidade de nutrimento , como po^ rem as repetidas lavouras attenuao , e dividem a terra , ficava efta no efta- do de as raizes fe ramificarem , e ef^ tenderem mais ao longe, fendo pois ellas OS unicos orgaos da nutrifao das plantas na hypotnefe de TuU , e Du-Hamel , feguc-fe que liao de as mefmas vegetar mais vigorozas , quan- to mais attenuado e dividido for o rer- reno , o qual effeito fendo unicamen- te produzido pelas muitas lavouras , concluiao pois que as mefmas erao abfolutamente neceffarias. § LXI. Os vegctaes nao fomente rece- bem o feu alimento pelas raizes , co* mo falfamente fe perfuadirao Tull ,• e Du-Himel ; mas tatnbem pelas fo- Jhas , e pelo tron::o. Nas fendas dos duros rochedos fe obferva'o vegeta- rem plantas vigorozas as quaes nao podem tirar o nutrimento da athmos- phera fenao pelas folhas , e tronco. § LXir. O fim , a que fe propoem as fre-' iguentGS lavouras dc attenuar^ e divi- h.%5 M fi M u r A s - dir a terra , he executado pela nattii* Teza por meios mais efficazes fern foe* corro algiim da charrua , ou d'outro qualquer inftrumento , porque fe ob- fervar-mos a terra dos prados os mais fecundos , dos bofqiies os mais anti- gos , veremos que efta he baftante mo- vel , dividida , e branda ; efte efFeito, que debalde fe pertende imitar pelas repetidas lavouras he produzidt) pelo iiovo humus , que fe forma da putre- facao das folhas, dos ramos , que ca^, da anno coftumao cahir das arvores* Eila nova terra vegetal , que em hum anno he produzida , embaraja que aquella do anno precedente agitada pe- los ventos fe apcrte , e indurega. O' grande numero de vegetaes , que pe- netrao de todos os lados a terra , que: OS cerca reduzem efta a fer muito bran*' da , porque obrao como outras tantasn cunhas , e dividem o terreno miuito' meihor do que as repetidas lavou- ras. (a) O Qi') A forga que tern as raizes pnra penetraf | a terra, e aiiida inefmo as lubflancias mais du-' ras , he prodigioza , por efla cauza obfervamos jj niuros , e cazas lancadas por terra , rochedos e- iiormes eflalados peia incrivel forca das raises d que I'e inrroduzem por fcndas imperceptiveisj Iksb'ies confeffa tcr viflo nos Feriaeos faias , f feE AGRlCtJLTUR A. 287 § LXIII. O outro fim das repetidas lavou- ras 5 o qual confifte em arrancar to- das as mas ervas , que exiftem no terreno , tambem nao fe verifica ; por- :que lavrando-fe a terra com o arado ordinario nada mais fe faz do que cubrir as ditas ervas de algumas pol- gadas de terra , donde accontece que as mefmas continuao a vegetar co«io dantes , e as vezes ainda meilior. § LXIV. Nao fcndo a charrua ordinarla e iufficiente para arrancar as mas ervas inventarao os Inglezes huma maqui- na mais propria para efte Urn ; con- fifte efla em hum ferro incurvado em forma de arco com hum gume baf- tan- cafianheiros , que tern feito eilalar com as fuas raizes grandes rochedos fobre os quaes cafiia!- mente nal'cerao. O ge!o he tambem hum inftiu- mento , de que a natureza adm-iravelmente fe fervc para dividir as terras ; porque a agua , que fe introduz entre as particulas da terra augmen- tando de vohune pela conglaciacao as fepara , e divide , e as reduz a Terem muito mais impal- paveis. Eftes fad pois os inftrumentos deflinado ♦288 'M E M R r X 5 -. tantcmcnte afiado , o qual fe introduj na terra fern a virar , corta as raizes ■das plantas que encontra na fua pat* lagera. § LXV. As repetidas Javouras nao fo £a6 fuperfluas como tenho moftrado ^ mas tambem nocivas , porque accelerao a decompozicao do humus crcadoror de todos OS vegetaes , c mudao em de- fcrros OS mais fecundos terrcnos , c para cu dar huma prova mais palpa-* vel defta verdade , baila fo obfervar , que quando le rotea hum campo que rem Tervido muitos annos de boiqucj e fe femea de trigo , ceiiteio , ou ou- tra qualqucr planta accommcdada a na-* lureza da terra , no primciro anno fe recoihe huma grande colheita ; no fe- gundo diminue efta , no terceiro he muito menor , e ailim por dia^te , de forma que o tcrreno privado ja de ]iuma grande parte de terra vegetal de que abundava , toma huma cor mais branca , at6 que finalmente mudando j inteiramentc de natureza , fe transfor- ! ina em Jium campo polvorulento y e to- talmente eileril. U) Na_ (rt) Fallo de Imm tcrreno jnculta, que de- pois, que le priiTCfpia a cultivar nao receb^ bE Aqp. icullura; -z8^ § LXVI. Na minha patria tenho obfervado ^ que muitos iavradcres roteando alguns terrenos inculros didaiitcs da povoa- cao, e queiraando juntamente todos OS arbuftos , que nos mefnios arrancao j fazem no pnmeiro anno huma gran- de colheita dos frutos , cue ihe fe- meiao , que ordinariamente Jie cenreio* Nos annos feguintes , como pela dil^ tancia he difficil a exportaca6 dos ef- trumes animaes j uao ihe fazem outro beneficio aos ditos terrenes fenao la- vrallos algumas vezes ; donde aconrece que no fegundo e terceiro anno ainda OS frutos pagao o trabalho do culti- vador , porem depois diminuem de tal forma as colheitas , que efte he obri- gado a defamparar o feu campo. § LXVIL Conckilmos pois , que fe as la- ViDuras fupprilTem a faJta dos eftrumes animaes , nunca os terrenos , que fof-* fem frequentemente lavrados , de fecun- dos fe fariao progreffivamente eflc- T r e is , •utro beneficio annualmente fenae o das b* Vouras, ijo Memorial reis , como mollra a todos a expe- ricncia ; por eila caula fe obfervao em muitos lugares de Portugal incultos iiquellcs prcdios diilantes das povoa- cocns , e ainda muitos dos proximo s , quando cftas I'ao tao pequenas , que nao podem tcr todos os eftrumes ani- maes necefTarios para beneficiar os feus campos vizinhos. § LXVIII. A mri cultura dos Antigos Roma- nos os fez perliuadir , que as terras fe envelheciao fazendo-fe progrefliva- mcnte eftcreis , de f6rma que aquelles campos , que erao reduzidos a liuma grande eflerilidade , totalmente os de- famparavao. Conila pois da Hiftoria , que efles predios deixados pelos Ro- ananos , fao hoje tao ferteis como fc foffem terras novas ; o que nao deve- ria acontccer , fe os terrcnos folfem fuiccptiveis de velliice , ou de huma efterilidade progreiTiva. A cauia defte cfFcito nao pode fer outra , fenao que OS Antigos pofTuidorcs lavrav?.6 ex- ceflivamcnte os fobreditos terrcnos , e aquelles , que artualmente os cuitivao ulao de hum numero de lavouras mais modcrado. (a) As ' (it') A mi cultura introdiizidci pelos povos con"* quiftadores nos Paizes lubjugados , caufa mas el" t)E Agricultura; iyt § LXIX. As lavouras na6 fdmente decom^ poem o humus , como tenlio moftrado , mas tambem obrigao a fahircm do ter- rene OS principles nutritivos dos ve- getaes por huma continuada evapora- jaoj lego quanto mais efla he aug- mentada , tanto diminue a ferrilidade do predio. Como porcm as repctidas lavouras produzem huma for^ada eva- T ii po- trago do que IniiTia guerra fuccefTiva , porque cul" tivando fe inal os cainpos diminuem os friitos • c na mefma razao que eftes faltao , tambein a povoacao he cada vez metior ; e deRe modo muitas anti^as , e ricas Cidades fe deRruirao , das quaes ainda hoje admiramos as fuas ruinas j tal foi a antiga Palmyra : fendo pois ella Ci- dade huma das mais opolentaS da Afia pela fertilidade dos feus terrenes , hoje faz parte dos defertos de Tadmor , aonde fe olha ainda com adiTlira9a6 para algumas ruinas defla foberba Ci- dade , e como a Hiftoria nao faz mencau da deflruigao da dita Pahnyra ( porque todas as mu- dancas , que fe fazeai por degraos muito lentos « fempre em todos os tempos tern efcapado ao'? Hiftoriadores , os quaes fomente referem os acci- dentes repentinos e notaveis ) nao deve pois fer attribuida a outra caufa fenao a rr,a cultura , 1 ^ue introdiizirao os Romanos , quando a ecn- quirtarao , a qual lentamentc pode converter eiii dtffertos os centinentes mais fciteis, e po-ca-* 1 dos.: ipi M E M O R I A » porajao dos principios volateis , e nu- trienres , fegue-le , que tao longe eftao eftas de poderem fupprir a falta dos eftrumes animaes , que antes fao ca- pazes de converter em defertos os mais fecundos terrenes. § LXX. Como a forcada evaporacao dos principios volateis caufa a efterilidade dos terrcnos , fegue-le que demorando- • ie iielles por alguma cauia os fobre- ditos principios , os predios confer- vao , e augmenta6 a lua fertilidade , e produzem frutos em maior quanti- dade ; por efta caufa eu tenlio obfer- vado na minha Provincia , que nos an- nos em que fao mais frequentes as ne- ves , e geadas , e ellas fe demorao por algum tempo nas fcaras , entao produ- zem colheitas mais abundantes , por- que os corpufcuios volateis , que ape- nas fe defenvolvem do interior da ter- ra , chegando a fuperficie , fao condenfa- dos pela neve , e obrigados , ou a fi- carem no terreno , ou a ferem abfor- bidos pela neve, a qual fundindo-le , pouco a pouco, OS conduz para o feio | da terra , donde tinliao fahido. (a) Na I (<») No tempo de Inverno os fuccos recolliido^ no terreno Ibbein pouco , antes fao obrigadgs ^ BE AgRICULTURA. 295 § LXXI. Na feguinre Primavera a evapo- ra.jao fe faz fern obflaculo , e os ve- getaes gozao de hum alimcnto ad:ual , augmentado daquelle que feria perdi- do no tempo de Inverno , e defte modo fendo o fuftento duplo , tambem fera duplo o vigor , e numero das plantas. Fatigando-fe a fuperficie do terreno com frequentes lavouras , fe adianta a evaporacao dos principlos nutritivos de forma , que fe volati- lizao trez quartas partes da nutricao deftinada para os vegetaes , que hou- vefTem de nafcer. Caufao mais as fu- perfluas lavouras outros muitos incom- modos , como perda de tempo , aug- mento de trabalho inutil dos lavrado* rcs 5 e dos animaes. § LXXII. Ten ho moilrado , que as muitas lavouras nao fupprem a faita dos ef- trumes animaes , mas antes fao fuper- fiuas , defcer; porifTo nefta eftagao crefcem muito as raizes ; porcin na Primavera as neves , que fe fundem , as chuvas quentes , o fol que adquire forqas de momento a momento , contribueiri muito para que as plantas brotem , e vegctent :om vigor, c produzao muico fruto. $94 Memorias fJuas J e nocivas , porem Tull. , e Du- Ha-mel [c perfuadirao do contrario, tal-^ vez movidos da leguinte experiencia. Se em hum campo (a) tomarmos duas por^oens de terra iguaes em quanto a jiatureza do terreno , expofifao do mefmo, c todas as mais circunftancias j fe em homa , e outra for femeada ha-f ma igual quantidade , por exempio de trigo , dara mais fruto aquella por-» ^ao, que tiver iido mais vezes lavra- da. Daqui concluem Tull. , e Du-Ha- mel, que as repetidas lavouras podem jfupprir a falta dos cflrumes animaes, § LXXIII. O efFeito enganador deila expe-! riencia nafce , de que a fuperficie da- quella por^ao de terreno , que tem dado mais fruto, feita mais dezigual pcla lavoura , aprefenta hum maior nu- inero de fuperficies ao Sol , o qua! augmenta a evaporajao ordinaria dos principios volateis ; os vegetaes , que jiafcem cercados de huma athmosphera cheia deftas exahalacoens , que formao a parte principal do feu nutrimento , de- (a) ERe campo le deve entender preparado! de F6rma , que coiiferve a humidade naquella pro- porcao , que for convenience as plantas , que fq hoqvereii; de remear. DE Agrigultura. 295" devem augmentar a proporgao o feu fmto. § LXXIV. Porem fera facil conliecer o erro , fe for repetida mais vezes a fobredi- ta cxperiencia ; porque nos primeiros annos obfervaremos , que a por^ao que tiver recebido hum maior nume- ro de lavouras , da liuma maior quan- tidade de fruto j porem nos futuros tendo ja fido exhaurida dos fuccos mi- triticios por huma evaporacao forga- da , da liuma colheiia incomparavcl- mente menor , do que a outra por- cao , que modicamente foi lavrada i e quando a primeira for reduzida- a huma total efterilidade , a fegunda nao dara delta os mais ieves iinaes. § LXXV. Tenho moilrado os maos efFeiros , que fe feguem das rcpetidas lavouras adoptadas pelo iyllema de Tull. , po- rem para de huma vez provar a in- fufficiencia e inutilidade deiie fyftema , baft^i Ibmente advertirmos , que he def- conhecido na China , defprezado na Inglatcrra , na SueiFia , e em outros muitos Paizes , aonde a Agricultura o tern 1^6 Memorias tern chegado a ultimo ponto de per- feicao. § LXXVL Os Antigos tambem na6 aprova- vao as lavoLiras exceilivas , antes diz Virgilio 5 que era difFerentes tempos do anno fao muiro nocivas. O mef- mo Virgilio , e outros do feu tempo affirmao , que as terras magras fe de- vem lavrar menos vezes do que as for- tes, para que aquellas nao fejao priva- das do poaco humor , que contem, Donde podemos concluir, que os An* tigos nao eftavad perfuadidos , que as muitas lavouras fertilizavao os terre-» nos , porque de outra forma teriao re-i commendado o contrano. (a) Defta doutrina podemos deduzir alguns Go^ rollarios . COROLLARIO L AS lavouras nao tern por fim o por a terra no eftado de penc- trar pelos vafos tenuifllmos dos vege- taes J porque por eftes nao podc fer ab' (iv) ,, JSlec tibt tarn pradcns tjiilfijuani pcrfuft' ,, (ieat at porque como ordinariamente he habitado por poucos vegetaes , recebe huma pequena quantidade de humus nafcida da decompozijao dos mef- mos , a qual he roubada pela agua das chuvas. Accrefce mais , que efte terreno inculto nao pode fer penetra- do pelos adubos meteoiicos , e que a evaporacao produzida pelo calor do Sol , pouco a pouco Ihe difllpa todos OS principios volateis , que no mefmo ie con tern. § LXXXI. Concluo pois , que hum terreno inculto nada recebe , nem ^a decom- pozijao dos vegetaes , que fuflenta , nem da athmosphera, e perde lentam.en-' te todos OS principios volateis , que Jicr interior do melmo eflao recolhi- dos ; logo o cultivador que deixar as fuas terras de pouzio , com a efperan- ca de fazer dcpois maior colheita , ie acha inteiramente enganado , porque ji'do f6mente perde todos os Frutos , que poderia recolher naquelle tempo An que as ditas terras ficao em def- canjo , mas ate promovc a efterilida- de progieiliva d;is mefmas. Quan-* DE AGRICULTURi<; ^JOJ § LXXXII. Quando porem o terreno no tern-, po do defcanjo fe lavra repetidas ve- zes , recebe hum mais grave detri- mento do que fe licalle de pouzio , porque as muitas lavouras alem de nao fupprirem a flilta dos eftrumes aaimaes , como tenho moftrado , faci- Jitao mais a evapora^ao dos principios volateis recolhidos no interior da ter- ra , e reduzem efta mais brevemente a Jiuma jjrande efleriiidade. § LXXXIII. Em confequencia difto , devemos repurar como Iiuma corruptella o cof- tume adoptado por Du-Hamcl, e fe- [juido em muiros lugares defies Rei- nos ; o qual confifte cm femear as ter- ras hum anno J e no feguinte deixallas de pouzio , a fim de ierem eflas divi- didas J e attcnuadas pelas repetidas la- vouras j como temos moftrado , que eftas nao fo fao fuperfluas , mas no- civas , fcgue-fe , que efte coftume de- teriora o lavrador em metade , ou hum t«r*po dos feus frutos . na perda de tempo ^ no augmenro do trabalho inu-t '304 . M E M R I A S . til afllm feu , como dos animaes ] c tanto nao augmenta a fertilidadc do feu terreno , que antes padece eflc jnaior decadencia. § LXXXIV. Se porem nos terrenes , que fe deixarem por culrivar nafcerem fpon- taneamente muitos arbullos , como em alguns tenho obfervado , e fe fe con- fervar o humus produzido pela de- compozicao dos vegetacs , e fc impe- dir a evaporacao dos principios vo- lateis , nelte cafo os fobreditos terre- jios augmentarao a fua fertilidadc. Daqui talvez tivelTe origem o coftume introduzido de deixarem as terras do pouzio ; porem dcvemos advertir , que affim como eilas fuftentao muitos ar- builos , dos quaes nenhuma , ou pou- ca utilidade ie tira , tambem podeni nutrir plantas , das quaes o lavrador pofla tirar a fua fubfiflencia , e riqueza. § LXXXV, Ultimamente moftrarei , que he repugnante a experiencia , e a pratica, do? povos^ aonde mais florel'cc a Agri-' cui- tultUra , que as terras de pouzio aug- meiirem a iua fertilidade 3 porc^ue fe iangarmos os olhos para os bolques , e prados naturaes obfervamos , que o terreno fuftenta hum grande nume- ^■0 de vegetaes , e que a pezar delta •condnuada producgao , o terreno fe conferva extremamente fertiL Logo o deixar os predios alguns tempos por cultivar , nao he o meio de fertilizal- ios de forma , que fe poffa fupprir a falta dos eftrumes animaes , mas Rm o procurar , que os mefmos produzao a maior quantidade de vegetaes > que for pofllvel. Efta verdade nao era ab- folutamcnte defconhecida dos Antigos , OS quaes confefTavao , que na6 havia terra mais fertil do que aquella , que finha produzido plantas por hum lon-« go tempo, (a) § LXXXVI. Na China , geralmente fallando > as . ^rras nao fao de melhor qualidade , que as noflas ; entre eftes povos fe obferva6 boas , mediocres , e mas , ou para melhor me explicar , terras fortes , e argillaceas , ligeiras , e pc* ^ V dra^- (a) Talis fere ejl in novalibas , ca:fa viierc j^h»«i, qaa etnfenfu laudatur Plin. Cap. 17. "^06 -Me m r i\a s> 'dragozas , as qiia^es nas Provincias dp Norte dao fruto huma , e duas \^ ,2es cada anno , e algumas jfinco ve- zes em dois annos nas Provincias me<- ridionaes. Todas eftas terras nunca ja mais le deixarao do poiizio, aindaquc a maior parte dellas produzem friit© Xucceflivamcntc , lia mais de mil annos* § LXXXVII. Os habitantes do Tirol pela fuai induftria , e per huma cultura bem re- gulada chegarao a povoar de vegetaes OS rochedos mais efcarpados. E ain? ■da que a natureza dos feus terrenos ieja naturalmente ingrata , e o - clima pouco favoravel para a vegetajao , com tudo nao fe fabe entre eftes povos ^ que coila Ieja deixailos em delcanjoj antes annualmente fazem trcz , oij quatro colheitas de differentes frutos , as quaes tao.longe ellao de enfraque- cerem o terreno , que antes o tazem mais fecundo. He finalmente defconhe- cido o coitume de deixar as terras d^ pouzio em Flandres , Normandia y I Artoi , Piemont , Lombardia , Ingla- terra j e outros muitos povos para os quaes a Agricultura deveo fempre 05 maiores cuidados. Defta doutrina fe podcm deduzir alguns Corollarios. CO-, COROLLARIO L OS terrenos , que fe deixad alguni tempo por cultivar , e que ap&* nas fullenta6 hum ^ ou outro vegetal', ■nao adquirem melhoramento algimi , antes perdem a fua fertilidade. COROLLARIO IL ODeixar as terras de pouzio he hnm abufo , que caufa detri-- men to ao lavrador , e ao Eitado. COROLLARIO III. COmo «s lavouras muito repeti- das caufao huma forgada eva- poraca6 dos principios volateis , e adiantao a efterilidade do terreno , fe-* gue*fe que he igualmente abufo intro- duzido em muitos lugares defies Rei-*' nos , o deixar defcanjar as terras hum anno , para neflc ferem frequentes ve- ies lavradas. ^^ IDE AGRICtTLTURA; ^,i^ Utllidade que lefulta aos caftanhei- los , e oliveiras de ferem lavrados os feus predios ; por^m deve fer de for- ma que na6 fe confervem nus de ve- getaes. Pode-fe femear centeio , ou outra qualquer planta accommodada a, natureza do terreno. § xcv. Nao devemos crer , que os cafta- rheiros , e oliveiras fervem de impe- dimento a vegetacao das plantas , que no mefmo terreno fe houverem de fe- mear ( excepto fe as fobreditas arvo- res eftiverem tao proximas humas daa cutras- 5 que nao deixem entrar os raios do Sol ) porque como as raizes das ditas plantas nao fe extendem fe- iiao duas , ou trez polegadas abaixo da iliperficie da terra , recebem todo o nu- trimento , que fe contem nefta camada. § XCVI. Nem tambem os caftanheiros , ' e oliveiras Ihes roubao a nutrijao , que Ihe pode dar a athmosphera ; porque como OS vapores nutriticios fobem a differentes alturas , as plantas , que fao inccm^^aravelmente mais baixas do .que , f 14^ Me MORI AS que as arvores hao de abforber aquel-^ les , que eftao mais proximos a fuper- ficie do terreno , ncando os que fe fi]ftenta6 a huma maior almra , para favoreceretn a vegetacao das olivei- ras , e caftanheiros. Logo podemos eftabelecer como huma regra geral y que fe podem fcmear quaefquer plan- tas debaixo das arvores , com tanto que eftas nao eftejao muito proximas nu- mas das outras. {a) § XCVII. . > Todos aquelles campos defies Rei- nos J que de Inverno fe convertem em ' (o) Civltas Afi'icc in medlls aren'is , petentibtis' fyrtes Leplintjuc magnam , vocatitr Tacape , felici fuper ontnt miraculsnt vlguo folo : tern'is Jere millikus paffuttm , In emnem partem fons ahitndat , turaus tju'idem , feci ccrtit hornriiin fpatils dlf- penjatiir Inter incolas. Pnlnijc Ibi pr^grandi Jub' dltur olea , hu'ic ficus , fico pumca , llVi vilis ; fub vite ferilur fnuncntiini , mox legumen , de^ inde clus , cmrtia eodcm anno : omnlaqne alle- na umbra aliintiir, Et ni/i mulllplici porta txinaniatiir itbertas , perettnt hixuria Jinguli friiSius, Nunc vero toto anno niiititur alitjuid, Conjlat fcrtilitttll nnn cccurrere homines. Qua" terna cubita ejus foli in . quadrattim , nee iit a pcrreHis metiantur digitls ,' fed in pugnum contraEiis , quotern'ts dcoariis vsniiiidiiiitiir. Plin.' liv. iS. Capt 22. DE AGRICULTiryAr ^If em prados naturaes , e fao inundadoa pelas enclientcs dos rios , naa precifao ae ellrumes animaes , e fao os mais ferteis , que obfervamos. Porque os di-* tos campos annualmente recebem o humus depozitado pelas aguas , e pro-* duzido pela putrefajao dos vegetaes. § XCVIII. Se aquelles terrenes , que depols: das colheitas fa6 convertidos em pra- dos naturaes , pelas rauitas plantas , que nelles nafcem , fe confervao fempre ferteis fern neceffidade alguma dos ef- trumes animaes , porque nao havemos DOS imitar , quanto for polTivel , efte- meio facil , de que ufa a natureza nos predios longinquos das povoajoes , para os quaes a exportaj?.© dos efter-, cos exige dp lavrador hum grande tra- ballio , e dcfpeza. § XCIX. Em confequencia do que tenho di- to devo affirmar fer falfa a perfuaza6' de cfue as terras precifao de muitas. lavouras , e eftrumes animaes para pro- duzirem fruto. Devemos pois refor- mar o methodo da cultura. A nature- ' ■ za . ^t6 MlMOlIAS' ta. deve fer o modelo , que devemos" imitar , e o noflb trabalho todo elle' convem , que tenda a formar a maior quantidade de humus , que for pofli- rel , e obtido efte fim teremos fem- pre colheitas abundantes. § C. O caminho , que a natureza to^ ma para produzir huma grande quan- tidade de terra vegetal , he a multi- plicajao , e a reproduccao continuada de plantas , por efta caufa devemos procurar que os terrenos produzao o maior numero , que for pofTivel , de Vegetaes. Efte fera o meio de os con- fer var fempre ferteis , e de reduzir a efte eftado aquelles , que por huma ailtura mal entendida , fe fazem pro- progreiUvamente mais eftereis (a) § CI. Entre os vegetaes de que fe po- ^; de__ (j) Catao , e Pliiiio erao tambem defle fen- limento , e confefTavao que os tremoqos , as favas , e as ervilhas lerviao para eftrumar 09 terrenos. Solum , in quo fata cjl , latiJUat jler-, *cris vicehb. 18. Cap. 12. Bt vicla pingucscitnt «rva f nee ipfa agrlcolis operofa. Lib. iZ, Csp» IS' I € liv. J7. Cap. i8. bE ACRICULTtni A. ^tf. •fle fazer ufo para fervirem como dg, 4:ftrumes aos terrenos , fe devem ef- colher aquelies , que tiverem raizes mais groftas , e que penetrarem a ter^ ra a hum a maior proflindidade ; por- que huinas , e outras apodrecendo , dad huma maior quantidade de terra ve- getal J e eftes dividem mais o terre- no obrando como outras tantas cunJias. Por efta caufa os predios recebem em maior abundancia os adubos meteori- cos , e adquirem mais mobilidade nas fuas particulas. Temos muitos exem- plos, que nos podem fervir para con- firmar efta verdade , e entre eftes baP- ta fo referir o Condado de Norfolk em Inglaterra, no qual havendo mui- tos campos J todos de huma terra are- jiacea , infecunda por natureza , fora6 eftes fo pela fimplez , e repetida cul- tura dos nabos , transformados em ter^* \renos fecundos, e ricos. § CII. Em confequencia difto fe o terre- ro for de tal natureza , que apenas fe fizex a colheita logo for mudado cm hum prado natural , nao necejQl- tara de outro eftrume , mais do que a(juellep que recebe dos cadaveres dos ^himaes , que morrem no mefmo te'ft reno , dos feus excrementos , e deii pojos , e juntamenj:e dos vegetaes apo*- tlrecidos , que elle fuftenra ; e pari nos convencennos diflo mefmo , bafla attend«rmos para a reliexao feguinte; § cm. ': ■ O nuraero dos animaes, que vl- vem em qualquer tcrreno , he fempre J)roporGionado aquelle das plantas , que no mefmo exilcem ; e quanto mais as efpecies deftas variao , tanto maiof he o numero dos incetos ; a maiof parte dos quaes nao durao mais do que hum anno , e alguns nem efte tem- po. Qs excrementos de cada hum def- ies animaes no tempo da fua vida , fa-* iem o triplo do feu volume. Defpem k pelle em tod as as metamorphofes, at6 que fe transformao em hum animal perfeito. Devemos pois ajuntar o in- crivel numero de incetos, que vivem na terra dos prados , e fe fuftentao das fuas raizes , como fe pode ver ca- vando huma pequena porgao de hunt prado de dois pes em quadro. i^3 DE AgR ICULTtTR A. 319 § CIV. Os cadaveres deftes animaes , os jTeus defpojos , e extrementos fubrai- niftrando fubllancias oleozas , e al^ kalinas , a decompozi^ao annual de huma parte das folhas das piantas j 4e que fe compoem os prados , as fubllancias meteorlcas , que Ihe fa^ apropriadas , tudo contribue para que eftes confervem huma continuada fer- dlidaide ; por iflb a experiencia trof- tra , que aquelles campos , que dt Inverno fe convertem em prados na- turaes , dao nefte tempo paftagem aos gados ; e fem foccorro dos eflrumes animaes dao frutos ,. em abundancia. § cv. Logo fe a experiencia moflra ^ que aquelles campos , que naturaimen- te fe enchem de piantas fao os mais ferteis , e nao precifao de eftrume al- gum animal ; imitemos pois a natu- uez3. , fajamos , que aquelles terrenes , que depois da fua colheita nao pro- duzem vegetaes em abundancia , fe re- duzao a prados artificiaes , femeando Aquelles., qu(? fcrem mais accommo' da- i^'id < M E M 11 1 A 5 a dados i natureza do terreno. Eis-aqTrl temos que eftcs predios de Inverno podem dar paftagem aos gados , ou feno para os melmos ; e na Primave- ra femearem-fe de trigo , pain go , ou 'outras quaefquer plantas lem necelli- dade de eftrumes anima-es. Ifto mef- mo provo com a experiencia feita re- petidas vezes em muitos lugares def» te Reino. § CVI. No termo de Alafoens , aonde hi feis annos tenho eftado em diiFcrenteS mezes do anno , tenho oblervado , que alguns cultivadores defte paiz depois de fazerem a colheita do milho , ou antes da mefma , coftumao femear em eftes terrcnos herva molar , paflados alguns tempos tern o cuidado de os limar com agua de algum rio , ou fonte vizinha. Tem os iavradores her- va para os animaes por todo o tempo de Inverno , e na Primavera femeao de milho os feus terrenos ,- fern neftes lanfarem eftrume algum , dos quae? rccolhem depois huma abundante coi Iheita. § CVII. '! Em alguns lugares d^ ProvincI^ dQ bE A GRICULTUR A. 32! do Minho , e Traz-os-Montes ccflu- mao tambem praticar o mefmo , tendo lempre muita cautela de confcrvareni OS leus predios limadcs de agua o mais tempo ^ que he poffivel j de torm^ que a diflribuijao defta no Minho he a caufa da maior pane das lites e dezordens , que fe obfervao entre OS feus habitantes. § CVIII. De ferem os prados , ou lameiros como vulgarmente Ihe chamao , lima- I dos de agua o maior tempo , que ', he poffivel J fe feguem duas utilidades ; 1 a primeira confute na maior quanti- ! dade de herva , que tern os lavr'ado- res , muito principahnente por fazerem ufo de plantas , que fern muita hu- I midade crefcem pouco ; a fegunda pro- cede de fe augmentar a fertilidade ao terreno j porque o humus , que a agua tern diflblvido , fe precipita no mefmo pouco a pouco y por efta caufa os fo- i breditos predios fem ellrume algum I animal prcduzem frutos ' em abun- dancia. I § CIX. Coflumao pois nefte Reino recfu- '^21 ' M E M O R I"A S ' •air. a prados artificiaes f6mcnte aquel- -les campos , que por todo o Inverno ati a Primavera fao limados de agiia. Porem conio he maito pequcno o nu- mero delles predics em comparajao daquellcs , que fa6 deftituidos deltas circanllancias , fao obrigados os lavra?- dores a procurarem eftiumcs animaes para os aduburem ; e nao chegando ef* tes , ou fendo difEculroza a fua cx- poitacao , recorrem huns as rcpctidas lavouras ; oiitros deixao os fobreditos terrenos de poiizio \ outros finaJmeii- te OS deiam'parao dcixaado-os iiicukos ^ e deicrtos. § ex. Moftra a experiencia fcita em al* guns terrenos delle Reino , e daquei- les povos aonde mais floreice a Agri- culmra , como fao Inglatcrra , China , Lombardia , e outros , que os predios aonde os vegetaes fuccedem huns aos outros com o nienor intervallo pofli- vel , fiio OS mais ferteis. Na conformi- dade delles principios podcmos fupprir a faha dos cftrumes animaes de quatro por recolherem todos os adiibos ath* mosphericos , e inuito prjncipalnieiite aqucllas ^ (que chovem no tempo das trovoadas. Por efl^ principio era conveniente , que os iavradores fizefTcm grandes cillernas , aonde recebeflem tu- das eftas aguas para depois poderem limar os feus campos. (Ji) O diligente lavfador naa fe deve; elque- cer de encaminiiar para 03 feus prados , ou la- nieirbs a agua da chuva, e fazer com que a rnefma fe demore o mai" que puder i'ti. Pr;r- ticara oorcai. a conttaria , fg os terrenos i/ay tv- r324 M E M O R I A S * § CXII. Dcfta pratica fe podcm fegulr mui- tas utilidades ; i. ic augmentao os paftos , e pode o lavrador tcr maior luimero de animaes ; 2. crei'ce muito a fcrtilidade dos predios ; ^. fao ef- CLifados OS eftrumes animaes. Eftes prados podcm fer confervados fomcn- te no tempo de Invcrno , e na Pri- mavera lb IJies podem femear aquel- las plantas mals accommodadas ao cli- ma , e natureza do terreno. § GXIIL ir. Mo- Nos'terrenos montanhozos , e ma- gros , e que nao Je podem reduzir a prados , ie fuppre a falta dos eftru- mes animaes do modo feguinte. De- vem-fe femear todas , e quaefquer plan- tas , com tanto que pelas liias ilores nao tornem a fer rcproduzidas , como fao as ervilhas , favas , centeio , ce- vada , aveia , lucerna , rrevo , tremo- cos ; e outras muitas , que forem accommodadas a natureza do terreno. As_ rem pindos , e tiverem liuir.a tal inclinacao, que as aguas Ihes roubem as cetras. DE-AgR I CU LTU R A. 325" § CXIV. As fementes {a) deftas plantas , ou podem fer femeadas todas junra- mente , mifturando humas com outras , ou o cultivador efcolher aquella , que for mais accommodada a natureza do terreno , e vegetar neile com maior vantagem do que ourra qualquer. Em quanto a fementeira convem , que o lavrador ao mefmo tempo , que for abrindo o rego lanje a fementc de for- ma , que poiTa fer efla cuberta com a terra , que for fahindo , quando fe faz o outro rego im.mediato. Havendo al- gum inconveniente para nao fe poder executar defte modo a fementeira , fe fara conforme o collumej que tiver adoptado o paiz. § cxv. O tempo, em que efta fementeira fe deve fazer , icra regalado pelas cir- cunftancias do lugar aonde eftiver o terreno j porque fe for fujeito a gran- des calores , nao fe fara logo imme- -( dia- i " («) Ertas fementes podem fer o rebotallio daS lotttras , porque o fim nao he de fazer coHieiU lalguma, mas de mulupHcar plamas^ i^id. M E M O R I A S ■ ^ diatamente a ceifa , pordm convem antes cfperar por algiima chuva ^ fal- tando ella , o diligente lavrador nao deixara palTar o mez de Setembro j'em ter teito. a fua lementcira , porque ja nelle tempo fendo as noites mais frefcas , e os orv.ilhos mais frequcn- tes , as femeiites podeiTi mais facilmen- te gennar , e nutrirem-fe. § CXVI. Se port'm o pa^z nao for fujeito • a graiidcs cdorcs , e o terreno con- iervar aquclla humidadc , que for ne- cciT^iiia para que as piantas poflao germar , c nurrirei-n-le ; nepje caib fe flira a feme,)'*, 'ira logo immediatamen- to a ceifa , ieincando ao mefmo tem- po , que fe lavrar o terreno , poden- do fcr , quando nao daquelle modo , que for mais convenientc ao lavrador, § CXVII. Tanto que o terreno adquirir hu- jna ccrta conrii"ieiKia , fe deve lavrar dc novo , e enterrar todas as plan- tas, que no mefmo tiv-irem crelcido. O tempo dcdi fcgunda lavoura , dc-' ys fer t-ektivo i conltitiiijao da ath- deAgricultura. '327 mosphera do paiz aonde fe habita , ha- vendo lemprc cautela de prevenir as geadas. Porem logo que eflas pafl'arem , como tambem as chuvas , e neves , e a terra fe achar no cftado de poder- fcr lavrada , fe pod.em tornar a femear as mefmas plantas ; e logo , que ef- tas eftiverem floridas , convcm que iejao eftercadas antes , que lance as fiias fementes. (a) § CXVIII. Depois que na Prinmvera titer ii- do lavrado o terreno para enrerrar as fobrediras plantas , em quanto nao paf- far o raez de Julho , e Agoilo , deve ficar efte de pouzio , para que nefte tempo com o calor do Sol to- da a herva enterrada pofia apodre- eer. Vindo Setembro , ou Ourubro fe podera fazer a fementeira ; dcHe mo- do podcm fer efcufados os eftrumes animaes , e os terrenes confervarao fempre a ilia fertilidade primitiva. El- mil nas terras. § CXXVI. Todos OS vegetaes amontoados , e penetrados de humidade fermentao ,. a qua! fcrmentajao na6 a pode haver fem calor. Muis como hum dos effei- tos delte he volatilizar , e evaporar os • .': V flui- DE Agricvltvra. 3^5' fliwdos , fegue-fe que quanto malor for o calor interior pofto em accao pelo da athmospliera , mais aifliva ier^ a evaporafao. Por efta caufa fa6 ap- plicadas as camadas fucceflivas de ter- ra entre as dos vegetaes , porque nao fomente embarajao que fe volatilize a humidade , mas tambem concentrao o caloF de raaneira , que cada camada tern o Tea foco particular , e goza ao mefm. tempo do trabalho da mafla to- tal, (u) § CXXVII. Que OS vegetaes p'utrefatftos fa6 o melhor eftrume , que fe pode appli- car para fertilizar os terrenos, nao fomente fe prova pela experiencia fei- ta nefte Reino , mas tambem por mui- tas e repetidas dos outros Reinos. Na Irlanda fe fertiriza6 os campos com palha apodrccida pelas chuvas ^ na Tofcana femeando ervillias, e en-' ter- (0 Se as camada? de terra interpoftas entre as dns vegetaes fofTem de cal , ou de uiarne poderiamos obter o iiiefino effeito ? Certament^ nao. Poderia inn aiigmentar-fe fimplezmente o principio Salino. Porcin fe romperia a comhi- na9a6 dos principios dos eftiumes vegetaes , porque o Sal feria ein fuperabuiidanda , e pot confeqiisncia mui:© nofivo. j ' ^^6 Memorias terrando-as logo que chegao a floref- cencia , com as favas fe praticava ifto mefmo antigamentc em Macedo- nia. A utilidade delle mcthodo era muito bem conhecida no tempo dos Romanos como rcfere Plinio liv. 17. Cap. 19. (a) Attefta mais efte antigo Natural ifta , que em Treves confumin- do-fe em hum anno todas as fearas por caufa de hum grand e frio , fe iembrarao os feus habitantes de femear novamente as fuas terras no mez de Marfo, de que Ihe refultou terem huma abundante colheita. § CXXVIII. Devo iikimamente advertir , que o melhor methodo de que fe pode ufar para fupprir a falta dos eftrumes ani- maes , he o alternar as terras , fazendo- as produzir diverfos frutos em dif- ferentes annos. Ella altcrnativa fe po- de fazer annualmente , ou lomente de- pois que fe pallarem muitos annos. Obferva-fe por exemplo em hum cam- po femeado de lucerna , ou outra qualquer planta , que efta paifados al- guns Q') Inter omnes atttein conjLit nihil ejfc ittilim Jiipini fe^ete , priiijijiiam /iliijuetur aralro , vcl I'l-". . denli v i^. DE AgRI GULl^UR A. 345 § CXXXVII. Dos principios eftabelecidos fe con- clue a utilidade , que as terras podem rcceber das cinzas , a qual he muito vizivel principalmente nos prados ; o que paflb a moftrar com a feguinte lefle- xao. Se olharmos para hum prado aon- de OS vegetaes , que nelle vivem fe tocao huns aos outros , obfervaremos , que o mefmo fe augmenta cada an- no de huma camada de terra vegetal , produzida pela decompozijao de mui- tas plantas annuaes , e biennaes , que morrem logo , que tern dado as luas fementes j pela folha de outras , que, ou em parte , ou toda annualmente fe fecca. Accrefce mais , que hum ter-^ reno cuberto de muitas plantas fuilenta hum grande numero de incetos , os quaes pagando o tributo a natureza huns mais tarde , outros mais cedo fubminiilrao ao predio muitas materias oleozas , c huma terra foluvel na agua. Donde fe fegue , que liavendo nos prados huma grande quantidade de terra vegetal involvida com muitos prin- Ne . , . pudcat "E-Wcetos clnerem immundum jnSlare ver agros» V'lrg. Gccrg, lib, I. Y. iiO. ^544 M E M O R I A s principios oleozos , procedida da de- compozifao dos animacs e vegetaes, fe faz necelTario o principio falino para fazer milcivel com a agua as dif- terentes fubrtancias oleozas , e terreftrcs. Iflo he o que tazcm as cinzas por cau- ia do fil alkalino , que contem , o alkale , como tambem tern a proprie- dade de ablorber a humidade da ath- mosphera , e com efta o acido aerea faz mais promptamente mifciveis com a agua , e proprias para a vegetajad as fubftancias animaes. § CXXXVIII. Podemos pois daqui concluir , que OS prados recebem numa nova vida com as cinzas ; porque fem eflas , fen- do as fubftancias animaes em maior quantidade , que o principio falino , as plantas vegerao mai , fe fazem lan- guidas , e amarelas , e o feu nutrimen- to he indigefto , e nao pode chegar ao ellado faponaceo ; ajuntando-lhc pois em huma conveniente proporgao .OS faes , que as cinzas podem dar, a. combinafao fe faz mais intima , e exa- cla , e OS vegetaes recolhem entao hu«* ma nutri5a6 proporcionada as fuas ne^ cellidades 3 e fc reanima , e profper^ ©E AgRICULTU RA 945* miiito a fua vegetagao. Se porem for exceffivo o ufo da cinza , obfervaremos fazer-fe amarela , e defeccar-fe a her- va dos prados , como fe fofTe queima- da pelo fal ; porque o fal nao achan- do Jiuma conveniente quantidade de materias oleozas para com eftas fe combin-ar , e reduzir-fe a huma iubf- tancia faponacea , entra nas plantas no eftado lalino diflblvido na agua , cor- roe depois os feus vafos , e as faz perecer. Logo da jufta propor^ao dps principios unidos entre fi depende a boa vegetajao. § CXXXIX. A fecundidade , que caufao as cin- zas tanto nao he equivoca , que an- tes he decidida pela experiencia. A grande fertilidade dos campos vizi- nhos ao Etena he attribuida as cin- zas , que continuamente fahem defte Vulcano , e fe efpalhab nos ditos pre- dios. Em muitas Provincias da Franja , muito principalmente em Bourgone fe tern obfervado , que com o ufo das cinzas as vinhas quail mortas tem fi- de reftituidas ao feu antigo vigor. Em Auverne , e muitas outras Provincias ^e Inglaterra 3 e Holanda recolhem os la- :^46 M E M O R I A S lavradores muito bom fruto das fuas terras , as quaes fao unicamente adu- badas com cinzas feiras perto das met- mas , o mais que he poflivel. Uld- mamente Febroni refere no feu Jor- nal , que no anno de 1771 rendo fer- tilizado huma porjao de terra muito magra com cinzas , elle recolheo pou- co mais de treze , por hum, ainda que a ceifa do anno foi geralmente mediocre. § CXL. Se tirao das cinzas alem das refe- rldas utilidades , mais as feguintes j i. fao contrarias a multiplicajao dos- Incetos J e vermes ; {a) 2. deftroem certas plantas , como fao os mufgos , OS quaes cubrindo algumas vezes os- prados , Ihes caufao huma total ellc- rilidade ; 3. fervem uitimamente as cinzas para defenderem o trigo de muitas enfermidades como a ferrugem , c outras. (b) Em (j») Os caracoes coinendo os gomos das vi- des quando brotao , e as hortaliqas , caufao hum gravifTimo damno , o qual fe evita lan9ando cin- zas nas vinhas , e hortas. ^i) Febroni tein obfervado , que as cinzas mifluradas com o trigo nos faccos o livra6 dos ataques dos incetos , e einbaragao que o mef- 910 le coaoixipa. EiU (^ualidade das cinzas iie DE ACRICULTUHA. :^47 § CXLI. Em quanto ao ufo , que-fe pode fazer das cinzas convem advertir , que ellas nao devem ler empregadas fenao em huma proporjao conveniente , por- que fendo exceffivas caufao aqueiie damno , que ja referimos fallando dos prados j e fuppofto , que fejao uteis a toda a cafta de terreno , com tudo deve-fe attender a natureza do mef- mo , porque nas terras ligeiras , e quentes he util mifturar as cinzas com argilla , como tambem nas terras are- naceas. Praticando pois ifto , o lavra- dor experimentara nas fuas fearas hum bcneficio maior , e mais feguro. § CXLIL O methodo de fazer cinzas nos Ingares vizinhos das fearas para de- pois as efpalhar nas mefmas , fomente le devera praticar no cafo de haverem per- precioza nos paizes quentes , aonde lie difficul- tozo livrar o trigo dos incetos. Produzeni tan- to melhor effeito , quanto as ditas cinzas forem mais alkalinas. Querendo depois fazer ul'o do trigo he facil o feparallo das cinzas per meio da iium crivo. 34^ Memorias perto das ditas fearas muitas lenhas , das quaes nao fe polfa tirar outro ufo mais util , ou tambem eftas mefmas le- nhas fe podcm efpalhar nas terras em diiFerentes monticulos , e depois lan- ^ar-lhe o fogo. Porem como he mais facil a exportajao da cinza do que da lenha , fica ao arbitrio do lavrador o decidir , fegundo as circunftancias , aquillo que Ihc for mais conveniente, § CXLIII. Havendo porem abundancia de vc- getaes , que facilmente pofTao apodre- cer , he mais util ufar do methodo referido no § 122, ou enterrallos , do que tirar dos mefmos as fuas cinzas , porque as plantas pela corabuftao per- dem a maior parte dos feus principios , como fao a agua , faes , oleos , e mui- to do feu fluido aeriforme , os quaes o fogo fepara , e efpalha na athmos- phera , reftando por fim as cinzas , que fao hum compofto de huma porjao de terra vegetal , gaz , e hum pouco de fal. § CXLIV, Praticando o methodo referido no § 122, as plantas fenneiitao ; e como fc BE AgRICULTURA. :^4^ ft acha impedida a evaporagao fe re- duzem a huma materia putrida fem perda alguma dos feus principios. Ef- colhendo antes o lavrador o enteirar as mefmas plantas no terreno em que houver de fazer a fua fementeira , acontece o melmo eifeito ; porque e[- tas fendo penetradas pelas chuvas , Sol , e ventos , fe dccompoem por huma lenta fermcnta^ao , e deixao ef- capar pouco a pouco todos aquelles principios , que podem nutrir os no- vos vegetaes , que fe tern femeado. Devo ultimamente advertir , que ie as cinzas pela pcquena quantidade de par- ticulas nutritivas , que Ihe reftao fer- tilizaoas terras como tenho moftrado, com muita maior razao o devem fa- zer as plantas donde as mefmas cin- zas fao tiradas. § CXLV. Em muitos povos he coftume adu- bar as terras com cinzas feitas dos ref- tolhos , e em Inglaterra fe obferva6 muito efpeflos , fortes , e altos para com as cinzas defies eftrumarem os feus predios. Em Normandia , Auverne , e outros mais lugares co{luma6 trazer OS reftoihos para as cavalliaricas. E che- ^$ cia de frma , que perdem toda a fua forja , e vigor; e quando a cal ja na6 encontra oleos para mudar em fuccos faponaceos , necellariamente hade pre- dominar o principio iaiipo por caufa do ido qual fcra cada vez mais fraca a vegetajao , e crefcera a efterilidade do terreno tanto mais , quanto menos fre- quentes forem as chuvas no paiz. § CLIIL Nas terras fortes , e puramente argillaceas , como tambem nas frias ^ humidas , e montanhozas , he geralmen- te approvado o ufo da cal j e moflra a experiencia ter neftas produzido ad- miraveis effeitos , como le tern obfer- vado na Normandia , Irlanda , e ou- tros muitos povos. Porem dos boiis ef- feitos , que a cal produz em hum paiz nao fe deve concluir para outro , fern que a natureza da terra feja a mef- ma , e iguaes todas as mais eircunftan- cias. § GLIV. For efta caufa o intelligente cul- tivador , querendo ufar da cal nos feuS predios , deye primeiramente examinar a natureza da terra , e todas as mais circunftancias , e refledlir muito Ibbrc aquillo , que houver de cxecutar j de- pois fara alguns enfaios em pequeno , c fe o fuccelFo os coroar , ainda deve advertir fe elte bom eiFeito depende Z ii an-^ 35'6 M E M O R I A » antes da benignidade da eftajao db que da dita terra. Fazendo pois mui- tas e fucceifivas expenencias , podera o lavrador dcterminar-fe a fazer ufo da cal em grande , porque efte nao tern meio. He muito vantajozo fe as iubilancias oleozss exiilem em abun- dancia no terreno j he pelo contrario muito nocivo , fe as terras fao magras, arenaceas , e pouco humedecidas pe- las chuvas. § CLV. Quando a experiencia mollrar ao lavrador , que com vautagem pode fa- zer ufo da cal nos feus terrenos , fe eftes eftiverem vizinhos dos lugares aonde haja pedra calcaria em abuiir dancia , devera antes efcolher efta re- duzida em po.; muito principalmente tendo o lavrador a commodidade de ter perto dos feus predios hum moi- nho para a dita pedra fer moida. De- ve fer preferida a pedra calcaria pul- verizada a cal , nao fomente pelas ra- zocns jii referidoS , mas tambem por- qne cRa caufa grave damno aos ani-. maes que trcTbalhao nas terras , aonde a mefma tern fido efpalhada j donde fe fegue morrercm os ditos animaes , on D E A G R rc U L T U R A. 35-7 ficarem arruinados , e incapazes dc trabalharem. § CLVI. Como a pedra calcaria pulverizada fertiliza as terras por caufa do ar fi- xo , que da mefma lentamente fe de- fenvolve , fegue-fe , que fendo fatura- da , e neutralizada com o menftiiio , que tern feito fahir pouco a pouco o ar fixo , fica depois huma terra calca- lea pezada , que nao ferve para outra coiza mais , fenao para caufar efteri- lidade ao tcrreno. Por efta caufa fo- mente fe devera fazer ufo defte adu- bo de tantos em tantos annos , tendo antes decidido a experiencia , que o inelmo he conveniente. X>ejla doutrina fe pedeni deduzir or feguintes corollarios, COROLLARIO I, ASucceffiva multiplicagao do liu- mus he a bafe , e fundamento da fertilidade dos terrenes.. CO- i35B Memorias COROLLJRIO 77, A Terra humoza fe pode dizer , que he produzida pela decom* pozijao dos animaes , e vegetaes. COROLLARIO IIL OTerreno mais fertil he aquelle , que produz a maior quantidade- . CAP. VIII. Das Cinzas. . . . :^4u CAP, IX. Da Cal , e Marne, . ^51. IN- Z^7 I NDICE DOS TITULOS DESTAS QUATRO MEMORIAS. M EMORIA I. Sohn a cultura d/is Finhas, For Jofc Veriffimo Alvares da Silva, pag. I, MEMORIA. II. Sohre quaes fao os meios mats convenientes de Jupprir a falta dos ejimmes animaes nos hfgares , onde he dif- ficultozo havdos. For Manoel Joaquim Henriques de Paiva. lo^. MEMORIA III. Sobre o mefmo a/umpto. For Jofe Viriffimo Alvares da Silva. 154, MEMORIA IV. Sobre mefmo ajfumpto. For Conftantino Bocelho dc Lacerda LoBq. 259, VVSEVM BBJTAiJ MEM ORI AS agricuLtura PREMIADAS P P E L A " ACADEMIA REAL DAS SCIENCIAS D E L I S B O A Em i7po. Niji utile ejl (jmd Jacimus , Jltilta ejl gloria. T O M O 11. L I S B O A NA OFFIC. DA MFSMA REAL ACADEMIA. ANNO MDCCXCI. Com Vicefiqa da Real Alexfl da Coiumi^ao Geratjo' hre Exame , e Cenfura dos Livros. Vende-fe na loja da Viuva Bixtrand e Fiihon, Mercadoret de Livros , junto a I^reja de N. Senho* ra dos Martyres ao Xiado cm Lisboa. BRITAIN M E M O R I A SOBRE O ASSUMPTO PROPOSTO P E L A ACADEMIA REAL DAS SGIENCIAS Para o anno dc 1790. QU AL HE MET H DO MAIS conveiiiantc , e cnutcllas neceffarias para a cul- twa dits vlnhas em Portugal ; para a vlndiina ; txtracgco , e fcrmentagao do mrflo ; eonferva- fao , e bondude do vlnho , e para a n)clhi>r re- putagao , e vantagetn d'^jlc imporlantc vamo dt tioffo commercio ? PoR Francisco Pereira Rebello DA FONSECCA. Si mi dueiitt me poda de Dezlembro , ii de Enero , y Me cava , d ara de Febrero , vergnen- ffl me flier a , jl no le hinchara deVlno la bodega, Se*redos de As:ricultura. 1 N D I C E D O QUE CONTEM ESTA MEMORIA. I NTRODUCqAO . . Pag. i. CAP. I. Da natureza da videira. 5-, CAP. II. Das efpecies , ou varieda-^ des da pldeira. ■* 31. CAP. III. Da Plant a^ao da Vinha. 46. CAP. IV. Dapoda. 62. CAP. V. Das mergulhas. 75'. CAP. VI. Dos dijferentes lavores , que fe devem dar d uinha. - 80. CAP.. VII. Da erguida , ou cmpa. 88. CAP. VIII. Da enxertia. 92. CAP. IX. Da Opera ^ao de esfolhar ^ ejpampar , e capar a vinha. - 100. CAP- X. Da velhice , e das enfer^ midades da vinha , e dos infetios , que Ihe fao nocivos. 102. CAP. XI. Da vindima. — ^ - 113. CAP. XII. Da extracQao ^ e fermen- tacao do mojlo para fe converter em vinho. -------- — 123. CAP. XIII. Da conferva^ao do Vi- nho , das fuas doencas , e dos re- medios. — — -_- 14^, CAP. XIV. Dos diver fos methodos de fazer vtnho ^ e do modo de imi' tar OS jnelhores , e mais ejlimados vtnhos ejlra-n^eiros. 163. IN- INTRODUGCAO. |?>^JM| Og6 i\u6 vi no anno de :frXg***f|X^ 178 1 propofto pela Real %x$ ^ JkS Academia o Aflunto fobre *xSx^t^ S*^^ > poj" baixo cinzentas com tcipo -, bran- de Agricxjltura. ^^ J, branco ; vides aivermelhadas , botoes „ em efpafo de tres dedos j caches em ,, efcadeas , e abertos ; bagos media- i, nos , ovaes , pfetos lavados de azul , „ cafea grofla , e dura , huma gralinha j „ fucco doCe auftero : fica6~lhe mui- „ tos bagos miudos verdes por entre „ OS que amadurao , e difto toma o 3, nome. ,, „ EJpadeiro , fdlhas profundamen- „ te abertas em cinco , terminadas em „ pdnta de fetta , em roda recortadas 5, em forma de ferra ^ por lima de „ cor verde efcuro , pdr baixo cinzen- j, ras com felpo branco ^ vides cinzen- ,, ras , boroes em efpago de tres dedos; ,, cacho eomprido , mfediananiente fe- „ chado , e quafi igual , d feu pefinho „ amarellado , e eomprido de tres de- J, dos , bagos redondos j e alguma cdti- „ £i ibbre o eomprido , prctos , grof- 5, fos , carnudos , cafca grolTa , diias „ grafinhas ; lucco fubacido. ,, 5, Labrufca (17) , foihas medianas -^i abertas em cinco , terminadas em 5, ponta de fetta , deligual , e profun- ,^ damente recortadas em forma de fer- „ ra , de cor verde efcuro com maihas Jj vermelhas , e verrugas , por baixo ^i cinzentas com felpo amarellado ^ p6- )ii finho vermelho , nervos verdes j vi- C ii ., des ^6 M E M O R I A S des amarelladas com falpicos pre- tos , botoes em efpaco de cinco de- dos ; cacho comprido , unido , pe- finho da cor da vide , e comprido de cinco dedos , bagos miudos, rc- dondos , pretos lavados de azul , pi- co na ponta , cafca dura , e groila , tres grafinhas; fucco fubacido. ,, „ Lourela (i2) , folhas profurrda- mente abertas em cinco , terminadas em ponta de ietta ,■ em roda era forma de ferra , por fima de cor verde efcuro luzente , por baixocin- zentas com felpo brancoj vides cin- zentas , botoes em efpaco de tres dedos J cachos pequenos , e raros , peiinho comprido de tres dedos, bagos redondos , negros , com hum pico pouco fenfivel na ponta , liu- ma gralinha j fucco acido auftero. „ „ Malvazia (19), folhas profua- damente abertas em cinco , termina- das em ponta de fetta , em roda profundamente recortadas em f6rma de ferra , por lima cor verde cla- ro , por baixo o mefmo com muito felpo branco , pclinlio ruivo, ner- V03 verdes , vides vermelhas , for- raando angulos na parte oppofta aos botoes , que fao em elpajo de quaf tro ded^s j cachos graiides formados- „ de DE A G R I C-U'L T U R A. 37-- de efcadeas de figuni conica, bagos ovaes louros com falpicos pardos , cafca delgada , dura , duas grafinhas j fucco doce ambreado. „ Negrao , follias levemente aber- tas em tres , terminadas em pont^ de fetta , em roda profundamente recortadas em f6rma de ferra , por /ima , e por baixo nuas , e de c6r verde cinzento ; vides yermelhas , botoes em efpajo de cinco dedos ; cacho formado de efcadeas , groflb , fechado acabando em figura redon- da , pefinho comprido , vermelho , bagos redondos , groflbs , pretos la- vadcs de azul , calca delgada , e du- ra , duas grafinhas ; fucco vifcofo do- ce fubacido : produz com abundan- cia em qualquer terreno, ,, Pe agudo y ou pardainho (20) , folhas abertas em cinco , terminadas em lanja , em roda profunda , e de- figualmente recortadas em forma de ferra , pefinho vermelho , nervos cinzentos , por fima de cor verde efcuro , por baixo cinzentas com muito felpo branco ; vides cinzentas atirando a negras , botoes em dif- tancia de cinco dedos , e mais : ca- ches formados de efcadeas , e fecha- dos , pefinho da ^6r da vide ^ com- 3^ M E M O R I A S 3, prido de quatro e cincos dedos , ,, bagos redondos , medianos , preros , ,, pelle grofla , e dura , dqas grafinhas j 5, iucco dpce auftero. ,, Ficalpolho y folhas abertas em „ cinco , teiminadas em ponta de let- „ ta , em roda em forma de lerra , ,, por fima de cor verde efcuro , por J, baixo cinzentas ; vides avermelliadas , ,, boroes diftantes quatro, pu cinco de- ,, dos ; cacho qomprido muito unido, 3, pefinho comprido , verde , bagos re- 3, dondos , encarnados efcurps , cafca 3, delgada , du^s grafinhas ; fucco infi- 3, pido ; em qualquer terreno cria gran- „ de trpnco, produz muito. 3, Samarrinho preto ^ folhas aber- 3, tas em tres , terpinadas em ponta 3, de ferta , a do meio mui comprida , „ em roda em forma de ferra de cor ,, verde amarellado , com falpicos ver- „ melhos , por baixo felpo branco , „ pefinho vermelho , nervos cinzen- 3, tos \ vides vermelhas cinzentas , bo- 3, toes diftantes quatro dedos ; cacho ,, grande , fechado , pefinho compri- 3, do , e vermelhp ', bagos redondos , 3, medianos , pretos , com pico no fun- do , cafca groifa , e dura , duas grafi- ^, nhas ; fucco doce auflero : produz „ com abundancia ainda em terras fra- „ cas. „ Sou- 3> DE AgRICULTURA. ^9 „ Souzao (21) , folhas alguraas ve- 2es pouco abertas cm tres , figiira- das em cora^ao , em roda defigual- mente recorradas em forma de Ter- ra , de cor verde amareliado ^ vides avermelhadas com muitos elos , bo- toes em diftancia de quatro dedos ; cacho comprido , unido , pefinho da cor da vide , bagos redondos , pre- tos lavados de azul , cafca grolFa , duas grafinhas ; lucco avermelhado de ii^bor fubacido ; em terras fortes , e humidas produz em abundancia j em terras fracas produz pouco ; e as uvas , que ahi produz , la6 fu- jeitas a feccar ainda antes de per- feita madureza. „ Tint a cam (22) , folhas grandes lizas , abertas em tres, terminadas em ponta de fetta , em roda defi- gualmente recortadas em fdrma de ferra , pefinho cor de rofa , por fi- ma de cor verde amarellada com al- gumas manchas carmezins , por bai- xo mui pouco felpo branco ; vides avermelhadas ; botoes ate ao meio da vide em diftancia de tres dedos , para diante em diftancia de cinco dedos ; caches pouco unidos , me- Vj dianos fem regularidade na figura , 4> bagos ledondos , pretos lavados de „ azul , 4© M E M O R I X S ■„ azul , pico pouco perceptivel n^ ,, ponta , cafca groffa , e dura , tres „ grafinhas ; fucco doce auftero. „ Ti}Jta Cajlelam ( 23) , folhas fo- „ bre o redondo , abertas em trcs , ter- ,, minadas em ponta de Janja , ejn 10- 3, da mui ligeiramente recorradas err\ 3, forma de ferra , cor verde efcuro 3, com manchas avermelhadas ; vidcsi J, curtas , avermelhadas , botoes diftan- j, res dous , e tre-s dedos ; caclios mui 5, pegado? A vide , redondos , groiros , 3,muiro fechados , bagos groflbs , pre- j, tos , redondos , carnudos , cafca del- „ gada , duas grafinhas ; fucco doce , „ ajucarado, „ Tinta Coufoeira, folhas median^-> 3, mcnte abertas cm tres , terminadas em ^, ponta de fetta , em roda em torma de 3, ferra , cor verde efcuro luzenre ; vi- j, des muito curtas , vcrmelhas , bo- j, toes pouco diftantes ; cuchos grolfos , ,, fechados , bagos redondos , media- j , nos , carnudos , pretos , cafca groi- ,, fa , huma , ou duas grafinhas , fuccQ 3, infipido ; produz muito ainda en) ,, terras fracas , he muito fujeito o J, feu fruflo a apodrecer , morre eni 3, poucos annos, nao havendo a cau- 3, tela de a podar em hum talao de 3j feis botSes ao muito. D E A G R I C U L T U H A. 4I . „ Tint a de Franca (24) , folhas pe- 5, quenas fobre o redondo , abertas em ,, cinco , terminadas em ponta de letta , ,, em roda defigualmente recortadas em 3, forma de ferra , cor vermelha por 5, baixo, e felpo cinzeiito; vides cur- ,, tas , vermelhas denegridas , boroes 5, em erpa5:o de poJlegada ate dous de- 5, dos ; c;icho pequeno fechado , bagos 3, redondos , pretos , cafca deJgada , ,, duas grafinhas; fucco encarnado do- 53 ce. ,, Tjnta Mufguenta{i^), folhas pe- 5, quenas , e retorcidas , abertas em rres , 3, terminadas em ponra de fetta , em 35 roda defigualmente recortadas em ,, forma de ferra , por fima cor ver^- ,, de , por baixo cinzenta , e.muito 35 felpudas \ no tempo da primavera 3, como erafarinhadas ; vides curtas , „ vermeJhas denegridas , botoes em el- ,5 pago de dous dedos ; cachos curtos 3, quafi fechados 3 bagos medianos , 5, mui unidos ao canganho, redondos, _3, pretos com hum pico na ponca, 3, caica grolfa , e dura , duas grafinhas j ,5 fucco doce auflero. ,, „ Tinta de Manoel Fereira , fo^ ^, Ihas fobre o vedondo , leveraeute .J, abertas em cinco , terminadas em ponr ;,-ta de lanja , em roda miudamcnte „ cor^' 4* Memorias „ cortadas em f6rma de ferra , ped- 3, nho , e nervos roxo fanguineos, por 5, fima cor verde elcuro , por baixo „ verde cinzento , com pouco felpo 3, branco j vides fanguineas , botoes 3, em efpajo de tres dedos ; cachos 3, fechados , redondos , com duas ef- 5, cadeas no fimo , bagos pretos , re- 3, dondos , grollos , carnudos , com 3, pico no fundo , cafca grofla , tres „ grafinhas ; fucco doce infipido. „ 3, Tinta Pinbeiya{i6) , folhas aber- 3, tas em tres, a femelhanf a da de figuei- 3, ra , por fima de cor verde efcuro „ luzente , por balxo cinzenta ; vides ,3 vermelhss , botoes em dift;^ncia de 3, tres dedos ; cacho formado de ef- 3, cadeas , curro , aberto , bagos nao 3, unidos , pretos , redondos miudos , J, cafca grofla , c dura , tres grafinhas \ 3, fucco doce auftcro. ., „ Touriga (27) , folhas extraordi- „ nariamente abertas em cinco , ter- 3, minadas em f6rma de coragao , em 3, roda miudamente repicadas , e mui 3, femelhantes na figura as de Amorei- 3, ra brava , por fima cor verde cla- 3, ro , por baixo verde amarellado com 33 felpo branco muiro futil ; vides cur- 3, tas J denegridas , botoes em. efpajo d© „ tres dedos i cachos compridos , fe-- „ cha- DE Agricultura. 4^ 3, chados , bagos mals que medianos , „ pretos , ovaes , com pico na ponr „ u , calca delgada , dura , tres , oi| „ quatro grafinhas j fucco doce ajuca- „ rado. „ „ yerdTaI(i2) , folha crefpa , le- 3, vemente aberta em tres , termmaci^ „ em ponta de fetta , e a do meio „ muito mais comprida , em roda rcr ,, cortada em forma de lerra , c6r ver- j, de claro , peiinho roxo , nervos cin- ,, zentos ; vides avermelhadas , botoes „ em diftancia de cinco dedos j cacho „ fechado , comprido , groflb , no fun- j, do redoudo , no fimo duas efcadeas 3, fahidas , pelinho comprido , roxo , ,, bagos medianos , ovaes , pretos la- „ vados de azul , pico no fundo , caf- „ ca delgada , duas grafmhas ; fucco „ acido muito vivo : alguns bagos ficao „ fem tomar cor , e daqui provem o J, nome de verdial. „ § XXVI. Fixar huma regra certa , e inva- riavel para a efcolha das efpecies da videira mais proprias para fazer bom \inho , he o que me parece impofli- vel ; todas as que fe tern dado ate ago- Ja fao mui faliiyeis : no bajlardo te- mos 44 M E M O R I A S temos huma prova de que nao fao hem fundadas as regras de Paladio : eile tern a pellicula ddgada , palla-fe com niuita facilidade : he das uvas mais faborofas , e comtudo nao lie proprio para fazer bom vinho , co- mo fe diz em a nota (14). O Ab- bade Rozier nao quiz abaianjar-fe a dar huma regra a e(te refpeito : de- pois (29) de eibbelecer o piincipio de que fo o corpo mucofo he fubllancia rermentavel , e que quanto efte cor" po mucofo he mais doce , tanto mais he perfeito , e fe conferva o vinho , que delle fe faz ; palla a dividir o inucofo em infipido , acido , auftero , e doce , ou acucaraJo , e diz , que o vinho aonde domina o infipido he fu- jeito a apodreccr ; que o mucofo aci- do paifa mais lentamente a podridao ; que o mucofo auftero , porque con- tem muito mucoib doce , faz hum vi- nho mais auftero , e adftringente , e que he fujeito a fazer^-fe gordo , ou azedo ; que o mucofo doce he o uni- co fufceptivcl da fermentacao efpiri- tuofa : conclue finalmente , que fobre ■ eftes principios fe deve fazer a efco- iha das efpecies de uvas ; e que , pa- . ra melhor acerto , fe devem fazer as experiencias que elle indica, § DE A G R I CU L T U R A. 45" § XXVII. Os Commerciantes de vinhos da Praqa do Porto , mais liabeis no co- nhecimento das qualidades que deve ter o vinho para fe conlervar dilata- dos annos , e refiftir melhor a pafla- gem do mar , depois de repetidas ex- pcriencias ^ e oblervacces de huma. longa ferie de annos , tern geralmen- te convindo , que o vinho deve ter hum labor auftero , adlliingente ftipti- eo para fe confervar , e rejeitao , co- mo incapaz de conCervacao , todo '.aquelle que nao tem efte labor" aufte- To : querem , alein dillo , que elle te- nha hum pico vinliolb , que o faga rijo J como elles fe explicao. He pois pela miftura de uvas , que tenhao fa- bor doce aullero com as que o tem fubacido , e com algumas que o te- nhao doce acucarado , que fe pode confeguir hum vinho efpirituofo , ad- ftringente , e com o pico vinhofo con- veniente : daqui infiro , que nao he acertado o methodo preicriro por mui- tos Oenologijias de fazer o vinho dc eada efpecie de uvas feparadamente : devem fim para cada vinha efcolher- is as clpecies , que cenhao aquellcs cii- 46 M E M O R I A S diverfos fabores , e que riiehos diftem humas das outras no tempo da madu- reza ; fe comtudo le houvefTe de fa- zer vinho de alguma el'pecie fepara- da , eu pi"eferiria a de fabor doce au- ftero , o que fe prova com a expe-- riencia feita com a tinta cam referida €01 a nota (24). C A P 1 T U L O III. i)a Planta^ao da Vtnha. § XXVIII. COnhecIdas as efpecies de videira , , que deveifi efcolher-fe para for- mar numa vinha , que produza vinho da melhor qualidade pofTivel , he ne- ceflario efcolhef o terreno , e a expo- fi^ao , que concorrcm muito para i qualidade do vinho (30). Hum terre- ne gOrdo , e lodofo nao he propria para vinha ; a terra delgada , ligeira , e pedragofa he a melhor : deixa paf- far mais facilmente a humidade da athmosfera , e a agua das chuvas , e diflblver os oJeos , que pelos raios do Sol concentrados em as pedras , ou fe infinuao pelos poros das raizes , ou fe eleva6 em yapores proprios pa- ru DE Agricultural 47 ra alimcntar as videiras pelas folhas : a expofifao deve ler em coftas , ou ladciras , que eftejao dominando algu- ma nbeira , cuja viziilhanga Ihe minif- tre OS orvalhos forinados dos vapores que dellas fe levantao , e que tendo em dilFolugao os gazes , os oleos , os laes voiateis » e os mais principios aeri formes , Ihes firva6 de nutrifao , ou ablbrvidos pelas folhas , ou introduzi- dos na terra , e elevados em feva pe- las raizes , mediante o calor do Sol (^i). Deve o terreno eftar virado do Nalcente para o Meio dia : efta he a expofigao que goza por mais teiitpo' as intiuencias do Sol , e efta mais a falvo do furor dos ventos tempeft:uo- fos de Oefte , e livre do frio dos ven- tos Septentrionaes. § XXIX. A efcolha da planta para formar a nova vinha he tambem hum pohto muito confideravel : as planras fao de duas qualidades , I. barbadas , 11. ba- cellos : barbadas fiio plantas com rai-' zes ; bacelios I'ao as vides do anno an- tecedente com a vara nova na ponta, ou a vara nova com hum bocado ve- Iho no fundo , ou a vara nova feai '48 ' MeMorIAs velho algum : he controveifo entre os Oenologijlas fe he mais convenience plantar bacellos , ou barbadas : divi- dein-fe os pareceres (^2) \ nao deve demorar-nos efta cjuefiao , pois que para as planta^es cm grande n36 he facil apparecer barbad^is ; por iflb de for9a he neceflario ufar de bacello : igualmenre fe dividem os pareceres at reipeito de ferem os bsfeellos de vide velha , ou de vara nova : Mr. Bidet ^ e muitos outros preferem vides de dous, e mefnio de tres annos; dizcm, que produzem mais cedo , porem nao afTignao razao alguma : Columella quef que fe Ihe corte toda a vide velha y porque mettida na terfa , diz elle , nao cria raizes , e apodrece damniH-" cando a planta : Beguillet deixa ifto k experiencia ; porem diz, que em Bor- deaux fe plantao as varas novas fem velho algum , e que produzem tao de- }>fefla como as outras j e que fabe de lum habil cultivador de vinhas , que a experiencia moftrjiva , que o velho damnifica a vinha , que no velho na6 criava raizes , e que eftas fahiao to?" das no encaixe da vara nova em o velho , que efte aprodrecia , c ficava a nova videira com huma chaga incu-» 1-aveL A minha experiencia nic con-' duz D E A G R I C XJ L T U R A. 49 duz a rejeitar o bacello de vara ve^ Iha (3^). § XXX. De qualquer dos modbs refer! dds ( § XXIX. ) que haja de I'cr o bacello para plantar , depois de ter cahido toda a foiha , que rnoftra ter ja deci- do a leva , deve fer cortado por pef- foa , que tenha toda a intelligencia ne- ceflaria para efcolher as efpecies , que quereiri plantar-le ; e o mais leguro pa- ra evitar os enganos , he mandar mar- cair as videiras , de que i"e ha de cor- tar o bacello , em quanto eftao em uVas : Mr. Colas (34) recommenda , que feja cortado daquellas videiras , em que ficalFem os pes dos caches curtos , duros , e groflbs , que he hu- ma prova de que o fruflo fora bem nutrido , e que a videira efta vigoro- faj que as varas , que fe hso de cor-^ tar , tenhao os nos yedondos , pouco diftantes , e os eios pouco enrodilha- i dos ; que as vides mais grolTas iem I eftes finaes , que antes tem os nos cha- I tos , e em muito efpaco , devcm re- ijeitar-Ce como fujeitas a dar mais ra- ma do que fru'5l:o ; que a planta mais diftante da cepa he a mdhor j finalr. Tom. U. I> \vxi\- ^» Memorias niente que a planta fe na5 deve rirar de liuma terra mellior para outra me- nos boa , porque fendo nella menos bem nutrida corre o rilco de degene- rar. Mr. Beguillct quer que ie elco- Ihao para plantar as vides mais bem nutridas , que tenhao a cafca unida , e luzente , o pao firme , e bem madu- ro , e que cortadas com o podao moi- trem hum verde claro ; que fejao as vides , qre moftrem tcr produzido mais caches , e que nao iejao de nenhum mode OS ladroes , ou pampanos , que rebentao pela cepa , e que de ordina- rio lao eflereis. Se o bacello ha de fer plantado pouco depois de corta- do , bada enrerrar dous palmos dclle , e deixar o rello fora da terra ; e fe ]ia de demorar-ie a plantaqao , deve en- terrar-fe todo de maneira que fique por entre elle terra baftante para que nao arda , e que ficando todo bem co- berto , nao feja damnificado pelo ar , e pela geada , e conlerve melhor a I'ua feva. § XXXI. Antes de tratar do modo de pJan- tar o baccllo , he neceflario faber pri- Hieiro lea deftino , porque ha qua- tro t) E A G R I C U L T U » A. ff tro modos de formar a vinha : i.° tra- zendo as videiras fobre arvores , a que nas Provineias do Alinho , e Beira chamao de enforcado , e na da Eftrc- madiira de cmbavrado ; 2.° em lara- das baixas , como fe ufa na ribeira do Lima ; \° em bardos , que fao fi- leiras de videiras diilantes humas fi- leiras das outras quinze , vinte , e mais palmos , e levantadas em chantoes al-^ los como fe ufa nas terras mais frias do Alto-Douro \ 4.'^ em vinha baixa do modo ordinario , de que geral- mente fe ufa no Reino : cada hum deftes modos pede diverfo methodo de planta^ao. Para o primeiro modo dcvem abrir-fe covas de nove , ou dez pahiios de comprido , quatro de lar- go , e einco de alto : em hum dos la- dos do comprimento deve plantar-fe a arvore , que ha de iervir de arri-- mo a vide \ no lado oppofto deve unhar-fe o bacello , ou baibada le- Vando-o deitado para a parte ^ qm que efta a arvore , e antes de chegar a el- Ja em diftancia de tres paliTins fe for- ma hum anguio a vide, que fe levan- ta direira 5 e fe vai cortando terra dos Jados , com que fe entupe a cova j Galea ndo-fe a arvore, e a videira pa- ra que Hquem direitas , e na clifiaa-' 5'2 M E M O R I A S cia convenience de modo que as rai- zes de iumia , e outra tenJiao Jugar de crefcer iem fe roubarem a nutricao ; fori da terra ie corta a vide, fican- do-lhe lomente dous , ou ires botoes defcobertos •, continuando-le defte mo- de a planra^ao em dillancias taes , que as arvores , e videiras fe nao allbm* hem humas as outras (35") . § XXXII. O 2.° modo era pefTimamente con^ duzido na ribeira do Lima , porque na altura de finco , ou feis palmos for- ma vao huma latada continuada , e unida , que cobria toda huma pefTa de terra , que dellinavao para vinha , fi- cando affim toda aquella latada quafi impenecravel ao fol , e a luz , de lorte que produzia6 muito pouco, e de mui- to ma quaiidade; porque alem de na6 ferem as uvas vifiradas pelo fol , re- cebia6 da terra , que Ihe ficava muito proxima , e toda affombrada , muitos vapores , que as nao deixavao amadu- rar ; ainda alii fe confervao rauitas def- tas laradas ; alguns lavradores conven- cidos delte erro rem reduzido eftas la- tadas a altura de dez , e mais palmos j^ e a quail Jgual largura em roda dai pef- DE A GRIGU^LT UR A. 5'3 peffas , que andavao todas cobertas ; no meio culrivao pao, erne confeila- rao que affim mefmo colhiao mais vi- nho , e melhor. Para as formar deve plantar-fe o baceilo em covas de fin- co palmos de diametro , e quatro de al- tura , diftantes humas das outras vin- te palmos na fua fileira , e doze de Jiuma a outra fileira , formando efta fi- gura .•.••• , ficando alFim com as vi- deiras convenientes para cobrir a la- tada I'em excefl'o , nem falta , defte mo- do fao melhor vifiradas do loJ , e da luz •, nao recebem tanta affluencia de vapores , porque ticao mais elevadas , e porque as plantas , que cultivao por baixQ abibrvem grande parte delles ; por ilFo nao temibbejo de alimento , e alem de produzirem muito mais , amadurao as uvas melhor. § XXXIII, O ^.° modo he o que fe chama plantacao a bardos ; para elle fim fe abre Jiuma val/eira de I'eis palmos de largo , e quatro de alto , em cada hum dos dous lados fe planta huma fileira de bacelloi em diftancia de quatro pal- mos de hum a outro , de modo que as duas fileiras vao formando efta fi- gu- ^a ate ao meio da vajleira , aonde ie levanta di- reito fern o forj ar de maneira que ef- tale , e ifto he que vulgarmente fe chama unhamento (40) : depois de le- vantado o bacello , fe corta de hum , c outro lado da valleira a terra crua , ao que chamao pefco^ar , para que fique a terra cortada , e movida em maior diftancia , e pofla o bacello ex- tender melhor as fuas raizes , e para com efta terra encher a valleira , fican-^ do a fervir a que fe tin ha tirado pa- ra formar o cavallcte da parte dchai- xo , que nas culturas futuras ferve pa^ ra fe hir puxando para o pe das no- vas plantas ; ao lancar a terra dentro da valleira , fe deve hir calcando Jun- to ao bacello para que Ihe lique bem unida , e para que elle fique bem a prumo no meio da valleira , que deve ficar bem arrazada , e depois fe deve cortar o bacello ficando-l!ie foraente dous botocs a/Hma da terra (41) . § xxxvir. Pedindb fempre a vinha huma muito cuidadofa cuUura , muito mais a re- deAgricultuba. 5'9 feOjUer nos primeiros cinco annos , que fao OS da iua creajao , e em que de ordinario he mais delprezada ; em mui- tas partes he mais lufFocada por di- verfas plantas , que Ihe femeao , e que em toxio o cafo fervem de ruin a aos bicellos , e Ihes roubao a nutri^ao. (42) No anno , em que he plantado o ba- cello , nao he ordinario nalcer planta alguma , porque tica na fuperficie a terra crua , aonde nao havia fementes ; fe com tudo cria algumas , convem ri- lallas antes que«Jancem lementes , que fe propaguem , e he quanto bafta fa- 7er-lhe ate que chegue o tempo de ter cahido a fua primeira folha , chegado o qual , fc deve efcavar , formando cm roda de cada bacello huma cova da altura de hum pajmo , para fe ihe poderem cor tar as raizes fuperficiaes, o que deve fer feito com o poda6 na occaliao da poda , e para que por ella fc communique mais profundamen- te a humidade do Inverno ; no fiin delle he que deve fer podado , e lim- po , porque fendo-o antes , ficavao as feridas feitas pelo podao expoftas aos efFeitos das geadas , e a perecer a plan- ta ; deve porem fer antes que a feva eftcja cm movimento , para que fe nao cxtrjvazc pelas feridas 3 e fe enipobre-t 5* 6o M E iM O R I A S ^a o bacello ; na poda devem deixar-fe*' Ihe dous boroes no mellior lan^o, que tiver (4^) ; depois de rebentarem os botoes , e de rerem os novos lanfos aJgum vigor , e o cornprimento de quatro , ou cinco dedos , fe cava a terra chegando-a muito bem acs ba- cellos para que os lanjos fiquem com ella amparados da for^a dos ventos ; i'e ate ao S. Joao a terra tern produ- zido hervas , he conveniente redrar. § XXXVWI. No 2.° , e ^."^ anno fe dev^m conti- miar as mcfmas operacoes com a diffe- renca , que na poda fe Ihe vai deixando em cada anno hum botao de mais , fe a for^a , com que puxa , o permitte , e fe ihe deve efpetar ao pe Jium pao de quatro , ou cinco palmos , a que fe ate a ponta da nova vide para fe hir formando o pe da videira direito, e fe • vao abra^ando com o pao os no-, vos lanfos para nao efgacharem com o impeto dos ventos , ou com o feu proprio pezo : no quarto anno , ou para me explicar melhor , depois de cahida a terceira folha fe continuao as mefmas operaqoes , e na poda fe efcolhe ja a vara mais capi^z de pro-: du- DE A G B l"c U LT U R A. 6l duzir , que de ordinario he a terceira afliina do pe , e le ihe deixao ieis bo- t6es , ou mais fegundo a forja da vi- deira (44) ; e efta vara ja le levanta em dous paos antes de rebeiitarem os botoes y a curvadura , que fe f6rma a vara com o pao , que le mette proxi- mo a cepa , deve ler feita adiante dos tres primeiros boroes da parte da ce- pa , porque ate ahi deve ficar a vara quanto for poflivel perpendicular a ter- ra para ficar ainda iervindo de pe , e para lancar no terceiro botao a p6- da mais certa para o anno futuro : nef- te quarto anno he o tempo de povoar por meio de mergulhas os efpa^os das fiieiras , que fe achao fern videiras y porque nao pegou o bacello , ou por- que ao depois feccou por algum in- cidente : depois de caJiir a quarta fo- Iha ie come^a a tratar ja o bacello como vinha feita , e elle da fua par- te comeca com o feu frmHio a coroar o trabalho de quem o tern trarado na fua infancia. C A- 62 M E M O R I A S C A P I T U L O IV. Da pdda* § XXXIX. DEvem podar-fe as vinhas : efta propofijao he demonftrada pela eonfenfo univerfal de todos os povos , que cultivao vinhas (45) : nao me de- nioro em produzir as razoes , por que fe deve podar, Mr. Bidet me difpen- 5a defte rrabalho , aflignando tod as as que eu poderia produzir (46) : palTo a trarar I. do tempo , em que fe d-eve podar ; II. do modo , com que fe de- ve podar. Difputao muito os Oenoh- gijlas fobre o tempo de fazer a p6- da ; huns preferem o Outono , outros o fim do Inverno , e todos provao o feu fyftema com muito boas razoes y ie as eilajoes foffem lempre regula- res J e nao podelfem fobrevir acciden- tes fora de Efta^ao iguaes aos que fao proprios nas Elb§:6es , feria facil ef- tabelecer a relpeito do melhor tempa de podar a mais conveniente regfa ;. quaiquer que fe eft^beleja , pode tef inconvenienres , e o mais das vezes nos Paizes de grandes Vinhagos a fal- ta D E A G R 1 C U L T O R A. 6:5. ta de obreiros pioduz a neceflldade de ie aproveitar rodo o tempo defde que cahe a folha ate que as videiras comecem a brotar , fem que os dam- nos fejao viliveis a todos os olhos : de todas as regras , que a efte refpei- to eftabelecem os Oenologiftas , eu me acconimodo mais a de Mr. Bidet , que em rodas as terras , a exceflao de al- gumas mui frias , em que as vides amadurao mais tarde , convem melhor a poda do OutOno , porque Jiavendo a cautela de deixar adiante do ulti- mo botao na extremidade da vara hu- ma poliegada de mais , fe acha efta iecca dentro de fete , ou oito dias , e as vezes em menos \ todos os feus pdros fe apertao , fecca , e endurece a medulla , edreita-fe o diametro do tubo , em que ella exifte , deforte que por alli nao pode penctrar a neve , ou a geada , nem derramar-fe a feva na Primavera ; alem difto nao fe con- fome a feva em fullentar inutilmente as vides, que fe hao de cortar, e fe emprega toda em nutrir as raizes da videira , e as varas ,^ que Jicao para a produccao futura (47) . § &4 M i: M o ^ I A s • § XL. Nada mais facil aos oUios de hum podador do que a irnportante opera- §6 de podar huma -vinha ; tanto que I'abe mar>ear o podao, e dar os gol-' pes na viJeiia lem ferir as vides, que o leu arbitrio deftrna deixar-lhe , tem poifuido toda a Iciencia da fua arre-y lienhuma regra , nenhum conhecimen- to J e are huma incrivel indocilidade para os adquirir ; eifaqui o que fe- encontra de ordinario nos podadores, em cujas maos os proprierarios de vi- ^ nhas irremediavelmente as facrificao ; ^ rada pois mais neceflaria do que re- duzir a regras , e a preccitos ella de- licada opera^ao (48) . Para .intelligen- cia de algumas , que vou eftabelecer , he neceflario primeiro convir nos ter- mos. l^arj , he a vide principal , que fe deixa a huma videira , que tem dcz , doze , e mais bot6es : Talao he huma vide, que le deixa mais curta , tendo i'6 de quatro ate oito botoes : polle- gar he huma vi4e ainda mais peque-* na J que tem fomente de hum ate t res. botoes : poda em galheiros he for- mando a Jiuma videira muitas cabejas todas em taloes , cu poliegares letn va- DE Agrigultura. 6^ vara alguma : carregar huma videira he deixar-lhe hum grande numero de botoes , feja em varas , feja em ta- loes , ou cm pollegares , pois que o numero dos botoes , e na6 o com- primento das vides he que deve regu- lar : defcarregar a videira he deixar- lhe hum pequeno numero de botoes. § XLI. Para bem podar a vinha he ne- ceflario faber conhecer I. a quantida- de j II. a qualidade de vides , que I'e devem dcixarj 111. o modo de as tra- tar : para regular a quantidade he ne- celTario attender a idade , ^ forca , a natureza do terreno , a boa , ou ma cultura, a regularidade , ou irregulari- dade das Eflacoes do anno antecedcn- te , e ao eftado de cada huma das ce- pas em particular : quanto a idade , huma vinha nova tem huma grande abundancia de feya , por iflb he ne- ceflario carregala , e lie menos noci- vo deixar-lhe alguns botoes de mais , do que deixar-lhos de menos , como ponderei ( nota 44 ) i fe a vinha he velha , necefllta de toda a economia na leva , por iflb deve deixar-ie-lhe antes algum botao de menos , do que Toyn, JL E de 66 M E M O R I A s' de mais : qua n to a forja , fc ella fc reduz a ter produzido muitas uvas , o que fe conhece pela multiplicidade de pefinhos groffos , que ficarao nas vides , deve moderar-fe-lhe cfla for^a de produc5a6 , deixando*a mais defcar- regada , para que acuda tambem a pro- duzir vides fufficJentes , em que fe continuem as producjoes futuras ; fe elia fe reduz a produzir muita rama , deve carregar-fe para que dividindo-fe a feva , produza tambem frucfto : quan- to a natureza do terrene , le elle he iencoftado , jfraco , e hem expofto ao fol , deve trazer-fe a vinha baixa pa- ra melhor gozar dos vapores da terra , que a nutrao , e para receber maior intencao de calor de reverberio , que augmente a matura^ao ; deve nao fe carregar , porque abunda menos em fe- va ; e fe o terreno lie forte , deve carre- gar-fe a vinha para dar maior movi- menro , e util confuramo a abundancia da feva ; fe he baixo , ou menos bem expofto ao fol , deve puxar-fe a vinha a huma altura conveniente , em que melhor polTa receber as influencias do foL $ D E A R I C U L T U » A. tj § XLIL A boa , ou mi cultura , que fe tern dado a vinha , tambem he cir- cumftancia , que deve confiderar-fe , porque huma vinha em boa cultura , que tern mais abundantQ nutrif a6 , p6- de mais carregar-fe , do que a mal cul- tivada , que tern huma efcaja nutri- jao ; fe as cepas eftao pouco diftan- tes , deve fer a poda curta em galhei- ros , para que a rama feja formada na circumferencia da cepa , e lique alguma entrada livre ao ar , ao fol , e a luz ; fe tern maiores diftancias, p6de carregar-fe mais em vara , e me- nos em pollegares , ou taloes : quanto a regularidade , ou irregularidade das Eftajoes antecedentes , fe ellas tem li- do regulares , deve attender-fe ao efta- do das videiras j fe tem fido irregu- lares , e que a vinha efta diminuta em rama por alguma geada intempeftiva , por falta de chuvas aos tempos com- petentes , ou por ter havido foes fortes , ou fe moftra ter produzido pouco fru- fto , e ifto provem de chuvas , ou ne- voas humidas no tempo da fiorefcen- cia , dcvem attender-fe as mais cir- cumftancias , e nao o eftado das videi-» E ii ras , €8 Memorias ras , que neftes cazos poderia fer Iiu- ma indicacao muito enganofa : tirado o cazo dos accidentes procedidos da ir- regularidade das Eftacoes , deve olJiar- fe muito para o eftado das videiras 9 fe ellas com doze botoes , por exem- plo , nao puxarao com vigor em to- dos elles , devem reduzir-fe a menor rumero j fe em todos puxarao com vi- gor J e fern excelTo , deve continuar- l"e-lhes o mefmo numero; fe puxara6 com exceflb , lanfando duas , ou tres vides em cada botao , deve augmentar- fc-lhes o numero ; fe ao travez do pao duro da cepa rebentarao ladroes mui- to vigorofos , final de que nella girou abundancia demafiada de feva , deve- fe reduzir o melhor a hum talao pa- ra por elle fe defaffogar a cepa , que de outro modo fe iria obftruindo com a fuperabundancia da feva. § XLIII. Do conhecimento das vides , que fe 4336 de deixar na poda a huma vi* -deira , depende muito a fua produc- §a6 , e confervacao , e he o que de ordinario falta aos podadores, que as -mais das vczes fo attendem , fe a vi- ^eira fica bem , ou mal parecida > pa-" ra deAgricultura. 69 ra que huma videira fique com maisi galhardia , e mais bello ar ao feu mo- do de penfar , facrificao vinho , e vi- nha ; tambem muitas vezes fazem elles prejuizos , porque ficando as melho- res vides , nao acliao tao bom geito para os golpes do podao : em todo o cafo fe deve procurar , que as vides , que fe deixarem a videira, fejao fru- (fliferas ( § XX. ) , por iflb a vide pro- duzida no primeiro , e ainda no fegun- do botao immediatos ao golpe da va- ra do anno antecedente , fe nao devem aproveitar para vara , ou talao ; po- dem porem fervir para pollegar , que fe deftina mais particularmente para produzir ra^na , em que fe fegura a poda do anno futuro , c para abaixar a videira , que nao va tomando huma exceffiva elevaj ao : entre as vides fru- dliferas devem efcolher-fe as que fa- hirao em botoes da vara do anno an- tecedente , e que fe conhece terem produzido mais , e melhores fruilos , pois que difto fe ve que a natureza -tern para alii encaminJiado a for^a pro- jduftiva (49) , devem fer feguras , bem encaixadas na vara velha , e que na6 fejao fobrepoftas , fern que importc ■^ftarem muito diftantes da cepa , por- [ que para ifTo Jia o remedio de deixar hum jQ Memorias hum pollegar mais proximo a cepa , que me firva de fiador para a poda do anno futuro : fe a videira , ou pe- la fua efpecie , ou pela fua fituacao , ou por liuma grande pobreza de ra- ma deve formar-fe em galiieiros (5'o) , podem aproveitar-fe quaefquer vides de vara do anno antecedente , e mef- mo algumas , que tiverem rebentado em a coroa , ou joelho da cepa ; fe abfolutamente nao tiver a videira vi- des , com que ie pofla formar em ga- liieiros , deve-fe-Ihe deixar hum polle- gar na vide mais proxima a cepa ; e l"e efta fe acha tao pobre , que nem para ilfo tenha , deve-fe-lhe formar da vara do anno antecedente hum polle- gar , a que chamao de olhos mortos. Em tres cafes fe pode tirar partido dos ladroes ( § XX..), i.° quando a videira anda exceilivamente elevada , porque entao convem deixar-lhe hum ladrao em pollegar, para no anno fe- guinte a abaixar arredondando-a fobre o lugar , em que fe Ihe deixou ; 2." quando a videira nao teve vide algu- ma do anno, em que ficaffe pollegar , porque ficando no velho, fempre he incerto o puxar, convem deixar hum ladrao em pollegar j 3.° na efpecie fi- gurada (§ XLII. ) (p). § DE AgRICULTURA. Jl § XLIV. O modo de tratar as videiras na opera5a6 da p6da tambem influc mui- to fobre a lUa producgao , e confer- Viijao, e he no que fe tern introdu- zido danofifllmas praticas, procurando emendar erros antigos com outros ain- da maiores , principalmente no Alto- Douro , aonde fe prefume ter levado a cultura das vinhas ao ultimo pon- to de perfeicao : no lugar , em que hao de ficar as novas vides , he ne- celtario cortar as velhas , para ifto Ihe dao do lado oppofto a vara hum gol- pe tranrverfai , ou em forma de apparo de penna, que va terminar na ultima extremidade da haze da vara , que fi- ca, com o fundamento de foldar me- Ihor pela extenjao da cafca ( § II. ) > mas he hum erro perniciofo , porque cortada alFim tranfverfalniente a baze da vara , fica expofla a rachar pelo meio, e a efcachar com qualquer leve im- pulfo , como a experiencia me tern moftrado ; deve fer efte golpe horizon- tal, e dado duas linhas adiante da ex- tremidade da baze , ou encaixe da va- ra , porque fo afllm fica fegura , e no anno feguinte quando ja nao tern pe- ri-' ti 72 Memorias rigb de efgachar , fe reduz aquelle gol- pe horizontal a tranfverfal , entao fe recebe o beneficio de foldar fern effe damno de efcachar : devem limpar-fe as varas dos elos , e das enrrefolhas (^a) , porem deve haver caurela , que nefta opera^ao nao fique a vara feri- da , nem a cafca levemente tocada , porqiie ifto he noclvo ; no corte das entrefolhas deve fer maior a cautela , cortando-as fempre duas , ou tres li- Tihas a fima da fua baze , para que lenao offenda o botao , que ao mais leve toque fica defpido da fua cafca ( §• XIV. ) , e expofto a perecer ; he por idb perniciola a pratica de cor- tar as enrrefolhas muito rentes, pois dahi procedc o mais das vezes enca- vielarem (53) as vides , o que de or- dinario fe iinputa a intemperanga da Eflajao : devem tambem limpar-fc- Ihe todos OS botoes , que eftao em ro- da do encaixe da vara , que nao fer- vem fenao de produzir huns pequenos Tamos , que roubao a nutricao , e o niefmo fe deve praticar com o pri- meiro botao da vara junto a fua ba- ze : a ponta da vara , talao , ou polle- gar nunca deve fer cortada horizonral- mente ; porque para fazer efta opera- jao he necelTarJo curvar a vide, que de deAgricultura. 75 de ordinario racha pelo meio, o que he damnofo , e nos taloes , ou polle- gares muiras vezes ao curvar , e dar o goipe, acontece eftalar pela baze , como tenho viflo , ficando a videira deftruida , fern que com tudo daquel- le golpe horizontal fe figa utilidade al- gunia -J deve pois fazer-fe efte corte tranfverfal duas pollegadas adiante do ultimo botao , e virado para a parte oppofta delle , para que fe nao fuffoque no cafo de correr alguma feva do gol- pe. § XLV. Depois de prcparadas as varas , taloes , e poUegares fegue-fc trarar a cepa , que deve limpar-le dos ladroes, que em todo o calo fera6 cortados a. ponta do podao para os extirpar at6 a fua origem , fern que com tudo fe corte nada da cepa ; i'c cfta tiver can- cros , tumores , excrefcencias , ou algu- ma coufa fecca , deve cortar-fe-lhe , entrando os golpes pelo fao o menos que for poflivel ; todas aquellas fuper- fluidades confervadas na cepa fao ver- dadeiras doencas , que as vao condu- zindo a morte , fazcndo preverter to- do o giro dos fuccos , obftruindo huns vazos , e mudando a direcjao a ou- tros , 74 Memorias tros , deve tambem limpar-fe de toda a cafca veiha , e fecca , que le acha defpegada , debaixo da qua! fe acha ja outra regenerada ; efta cafca velha , e por affim o dizer , errijada he o ber- ^o dos infedtos, e a fua principal ha- bitajao , ate que chegue o temj^o de fe dcfenvolverem , e fahirem a devo- rar os arrcbentos das videiras j alem difto recebendo a cepa por entie aquel- las cafcas muita humidade , corre o rifco de fe geiar alii , e arruinar a videira , o que fe evita , limpando-a bem : devem tambem cortar-fe-lhe as raizes fuperficiaes ( § XXXVII. ) , que nafcem do collo ( § X. ) , e fe exten- dem quafi na fuperficie da terra , e que alem de cftarem por iflb fujeitas a ferem alteradas por frios , ou calo- res exceflivos , impedem as raizes prin- cipaes mais profundas de as produzir novas, mais proprias a chupar a feva , como bem adverte Mr. Beguillet (5" 4) , para o que he neceffario efcavar as cepas. Na occafiao da poda he que devem efcolher-fe as videiras , que de- vem mergulhar-fe nos lugares , que eftao defpovoados , para o que fe deve iiao fo efcolher a videira , que tenha vides proprias para fe mergu- Iharem, mas attender a que ella fcja de DE A G R I C If L T U R A. 75: de boa efpecie , e que fique fempre da parte debaixo , ou de hum dos lados do lugar , que pretende povoar-fe (jj) , CAPITULO V. Das mergulhas. § XLVI. SE he util , ou nocivo as vinhas lanpr mergulhas , he para mim hum problema bem difficil de refol- veri deixada porem efta queflao , que pede fer tratada feparadamente , expo- rei o modo , que me parece mais con- veniente de mergulhar ; nao ha outro meio de povoar os efpa^os das vi- nhas , que eftao defpovoados de videl- ras, que defapparecerao dos lugares , cm que haviao fido plantadas , ou por velhice , ou por doencas , ou por al- guns accidentes , pois que a encrepiaiT- ta he hum modo abfolutamence inutil de povoar as vinhas (5'6) . Lancarhu'- ma mergulha nao he outra coufa mais do que enterrar huma videira , de mo- do que a cepa fique enterrada , que as vides voltem para fima da terra pelos lugares , que querem povoar-fe \ para ifto Jie neceflario , que a videira , que ha 7^ Memorias ha de lanfar-fe , tenha vides bem nu- tridas j e compridas para que nos lu- gares , em que devem fahir da terra , fiquem dous botoes , aonde a vide fe- ia vigorofa , como fe diife do ba- cello (41) : o tempo de langar as mergulhas be o mefmo que para plan- tar o bacello ( § XXXIV. ) ; como diz Serres no feu Theatre de Agri- cultura pag. 160. § XLVII. Para fe langiar bem huma mergu- Iha , deve no lugar conveniente ( no- ta ^^ ) abrir-fe huma cova de altura tal que fe defcubra o unhadouro da videira , e que permittindo-o as prin- cipaes raizes , tenha fempre de cinco palmos de alto para lima , quatro pal- mos de largo , e a extengao convenien- te ao terreno , e as varas da videi- ra (5'7) -y depois de aberta a cova , fe deve mover a terra na altura de Jium palmo , como para o bacello ( § XXXVI. ) ; ao principiar a abertu- ra da cova , fc deve feparar para hum dos lados a terra , que fe tira na fu- perficie da altura de hum palmo , pacr te da qual fe efpalha por lima da ter- ra movida em o fuado da cova, para que deAgricultura. 77 que a cepa , e vides nao fiquem fobre a terra efteril , e para que poflao lan- jar as fuas delicadas raizes em a ter- ra da fuperficie fecundada pelos me- teoros , e pela influencia da athmos- fera (jS) ; fobre efta cania de terra allim preparada fe lan^a a cepa elten- dida horizontalmente , tendo o maior cuidado para que ao abaixar nao ef- talem , ou fe nao defpeguem da terra as principaes 'raizes da cepa , que de- vem ier confervadas com a maior vi- gilancia ; depois fe eftendem horizon- talmente as vides nas direcjoes dos lugares , em que devem ficar , e ahi formando hum joelho , fe levantao perpendicularmente langando-fe-lhe fo- bre tudo ifto o redo da terra da fu- perficie , que i'e tinha feparado , pef- co^a-fe a terra dos lados ( § XXXVI ) , e fe vai enchendo a cova , calcando a terra , e confervando as vides per- pendiculares at^ a fuperficie da terra , que nao deve deixar-fe raza com a ou- tra , e depois fe Jhe deve continuar o melmo tratamemo , que ao bacello ( §§ XXXVI. XXXVII. XXXVIII. ) ; fe o fundo da cova he argillaceo , ou por algum outro principio na6 he per- meavel a agua , deve rormar-fe-lhe na fuperficie -hujn defaguadowro para que fe- 7^ Mer^orias fe nao eftagnc a agua , que eftagnada faria recozer a mergulha. , § XLVIII. Ha outro modo de mergulhar muito analogo a efte , menos difpen- diofo J e com a vantagem de fe nao per- derem as cepas , a que no Ako-Dou- ro chamao niergulhoes ; para povoar hum efpafo de terra defpovoada de viaha per meio de mergulhoes, devem deixar-fe as cepas , que eftao em ro^ da , poilegares de dous botoes forma- dos em os ladroes mais proximos a terra , para que alii puxem vides ca- pazes de mergulhar-fe; havendo-as , fe riprma no lugar , e diftancia conve- nienre huma cova de dous palmos de diametro , e da neceflaria altura , abrin- do-fe hum rego em direcjao da cepa para a cova , pelo qual fe conduz a vide , a que na cova fe forma o joe- Iho para fe levantar perpendicularmen- te , fazendo-fe-lhe as mais operajoes applicaveis (§ XLVII.) , a vide fica pe- gada a cepa formando hum pequeno arco , aonde no anno feguinte fe da hum golpe horizontal ate ao meio da vide para defte modo a hir feparando lentamente da nutrijao , que fe Ihc com- DE AgRICULTURA. 79 communica da cepa may ; no 2." , ou 3.° anno , o que fe deve regular pela forja do mergulhao , fe acaba de feparar da cepa , e efla cauda do mer- gulhao fe enterra na maior profundi- dade poflivel ; deve haver todo o cui- dado de limpar de todos os botoes o arco da vide , que fica pegado a cepa , para que alii nao rebente , por- que rebentando alii perderia o mergu- lhao a maior parte do fuftento , que fe ihe communica da cepa may j igualmente fe lanjao mergulhoes das vides do fimo da videira , mas alem de fazer ifto maior embarago na vi- nha J tenho repetidas experiencias de que nao medrao tanto : a videira may fe p6da , como fe della fe nao tomafle a vide para o mergulhao , porque fup- pofto que pareja , que ella difpendera parte da fua feva para fuftentar o mer- gulhao , e que por iffo na6 pode fi- car carregada , como fe o nao tivera j deve com tudo refledlir-fe , que tam- bem do mergulhao fe communica pa- ra a videira parte da feva , que el- le recebe pelas fuas novas raizes , e dos principles , que recebe pelas fuas folhas , ou ella communicajao fe faga por circulacao , como querem muitos , ou por afcenfo , e defcenfo , como que- rem outros, C A- Bo Memorias C A P I T U L O VL Dos djfferentes lavores , que Je de* vem dar d vinha. § XLIX. COmo as raizes da videira fao do- tadas de boccas abforventes para por ellas afpirar os luccos nutricios ( § XI. ) , he neceflario procurar , que ellas le eftendao , e que a terra abun- de dos principios, de que fe forma a feva j fendo pois , como diz o Abbade Rozier (yp) , o fim dos lavores divi- dir as molleculas da terra para facili- tar o crefcimento das raizes , e facili- tar a efta terra a abforfao dos princi- pios efpalhados na athmosfera , he evi- dente , que fe devem dar lavores a vi- nha : determinar , le elles devem fer frequentes, e profundos , parece que depende da refolujao de outro Pro- blema propofto pela Academia ; po- rem lembro-me, que tudo quanto dizem OS fequazes do fyftema Tuleziano , e OS que fobre os alicerces de Mr. Fa- broni tern formado fyftemas oppoftos aos lavores frequentes , e profundos ,• fe reduz com efpecialidade a culture?] dp DE Agricultwra. 8i do pao j a vinha efta em diverfas circumftancias ; as fuas raizes exten- dem-fe a profundidade de muitos pal- mos , e nao as feis pollegadas , a que Fabroni diz , fe eftendem as do pao j fe pois he hum dos fins dos lavores dividir a terra para facilitar a exten- fao das raizes , devem per illo fer profuiidos OS lavores das vinhas , em que fenao verifica o damno , que Fa- broni teme de fe enterrar a terra fer- til tao profundamcnte , que fe nao apro- vcitem della as raizes das plantas, e de fe tirar para a fuperficie huma ter- ra , que nao he vegetal , em que as plantas nao medrem ; antes por efta mefma razao devem fer profundos os. lavores da vinha , para que a terra fer- til fe aproxime das fuas raizes. § L. Tambem nao he applicavel as vi- nhas o temor , que tern Fabroni da evaporaqao dos principios, que a ter- ra contem promovida pelos Jrrequentes lavores , pois que nutnndo-fe a videi- ra muito principalmente pelas* folhas ( §§ XVII. XVllI. ) , parece dever-fe promover por algum modo efta eva- poraqao (60) j com tudo como os Tom. IL F mui- 8i Memorias muiro frequentes lavores accelerao a decompofijao do humus (6i) , e in- terrompem a combinajao dos princi- pios para formar a fevu (62) , por i^- Ib nao approve muiros lavores , que aconfelhao alguns Oenologiftas Fran- cezes (6:5) 5 e os reduzo lomente a tres 1.° efcava -^ 2.° cava\ 3.° redra. Ac cahir a folha da vinha fe deve immediatamente efcavar , abrindo toda a fuperficie da terra em covas de al- tura de hum palmo pelo menos , e de dous palmos de diametro , de manei- ra que os pes das cepas nao fiquem nas covas , antes Ihes fique chegada al- guma da que fe tira das covas (64) ; com efte lavor fe cortao, e enterrao as plantas , que nafcerao de verao , e as fuas raizes para formar a terra vegetal ; abre-fe a terra endurecida pe- lo tempo , e por ter fido mui calca- da na vindima para fe fazer permea- vel a agua , e as influencias da athmos- fera , ficao as raizes das videiras mais cobertas de terra , e por iflb defendi- das dos gellos , rerem a folha , que cahe nas covas para apodrecer , e for- mar mflis humus ; demora nas covas a agua das chuvas , para que penetre mais ao interior da terra , e para que nao ya formando legos , e levando com- figo DE Agricultura. 8^ figo a terra da fuperficle , e forma alem difto muito maior extenfao de fuperficies , que no tempo do Inverno fempre recebem mais principios do que cvaporao ; por tudo ifto fe conhece quanto he importante efle primeiro lavor (65-) . § LI. A cava he o fegundo lavor , que \ deve dar-fe as vinhas , he tanto mais ! facil de fazer quanto mais bem feita , I e profunda tiver fido a efcava (66) : I o principio de Fevereiro he o tempo de comef ar efte lavor nas terras encof- tadas , e bem expoftas do Nafcente ao Meio dia ; nos fitios aveffos , nas ter- ras baixas , ou excefllvamente frias i deve fazer-fe em Margo , em que ja fao menos de temer os .gelos, ou ain- da melmo em Abril ; deve com tudo eftar feito antes que os botoes come- cem a engroflar para fe defenvolve- rem i he efte o tempo mais perigofo de entrar na vinha , porque o mais leve toque nao fo nos botoes , quan- do eftao naquelle eftado , mas tambem na cepa faz faltar muitos deilcs , o que he muito nocivo ; por iflb fe per algum inconveniente nao cftiverem as F ii vi- ^4 M E M O R I A g vinhas cavadas antes defta conjuntura , deve deixar-fe efta operacao para de- pois que os botoes elliverem rebenta- dos , e do comprimento de duas pol- legadas , nao porque nelle tempo nao tenliao perigo , porem porque o tern jnenor : na cava devc retirar-fe do pu da ccpa a terra em baftante profun- didade para fe limpar niuito bem com o podao , e depois fe Ihe chega ter- la da que fazia a divifao das covas, c]ue tendo mais fuperficie fe deve re- putar mais bem fecundada; devem fi- car muito bem enrerradas todas as her- vas , para apodrecerem , e fe reduzi- rem a humus , excepto a grama , e o rengo , que como plantas parafitas , e que enterradas nao apodrecem , an- tes ie reproduzem com mais forga , fe devem lancar fora da vinha , pois que ainda ficando exacftamente facudidas da terra , e Jan^adas na fuperficie pren- dem , como muitas vezes tenho obfer- vado ; deve finalmente fer a terra mui- to bem elmiugada para que nao fiquem torroes , e toda a fuperficie da terra em pequenos monies com muito pouco in- tcrvallo de huns a outros (Sy) , e if- to deve fer feito em tempo enxuto, porque chovendo , ou ellando a terra moihada fe mo confegue nenhum dosj fins PE Agricitltura. Sy fins , para que he feito efte lavor , que nas terras , que de qualquer modo i'o- rem encofladas deve fer praticado de hum lado para o outro , e nunca de- baixo para fima para -fe nao puxar a terra abaixo , com o que dentro de poucos annos ficariao as cepas com as raizes defcobertas. § LII. A redra he o terceiro , e ultimo lavor , que fe da as vinhas ; da efco- Iha do tempo depende fer efte lavor utii , ou muito nocivo ; o que eu jul- go menos fujeito a inconveniente he depois de pallada a florefcencia , e de terem adquirido os bagos das uvas a groilura de hum grao de chumbo baftardo j quanto for pofTivel , deve pr^curar-le , que feja feito depois de ter cahido aiguma chuva ; na6 deve fazer-fe em tempo de nevoas humi- das, porque a poeira cjue fe levanta , fe pega aos cacnos , e folhas , que ob- I ftrue , e Ihc embara^a a tranfpiracao , e a afpiragao ; tambem nao deve fer feito em tempo dc calor muito forte , que accelere exccflivamente a cvapora- 5a6 dos principios, e que trafpalTan- •do muito ao interior da terra , a pri- vc 26 Memorias ve da humidade necefTaria , e damnl- fique as raizes ; nem por chuva pela melma razao dada para a cava ( § LI. ) : nao deve fer feito efte lavor com tan- ta profundidade como os anteceden- tes , porqiie he feito em tempo , em que mais deve temer-le a evaporajao, e algum foite goipe de fol nas rai- zes ; deve com tudo fer feito na altu- la conveniente para que todas as her- vas fiquem totalmente arrancadas , e i^uiro bem enterradas para que nao tornem a prender , e para que apodre- ^ao ; deve fer feito com cuidado para que OS chantoes , com que a videira ja neffe tempo deve ei^ar erguida jia6 fiquem aballados , cu mal fegu- ros ; deve finalmentc Hear a fuperficie da terra unida , e raza , para deile modo fe reduzir a menos extenfao do que nos lavores antecedentes , e %:ar por ilTo menos fujcita a huma perni- ciofa evapora^ao , que Ihe promoveria o ardente fol do Eftio. § LIII. A pratica de hir tirando das vi- jihas na occaiiao defies lavores toda$ as pedras efta tao longe de fer util , que muitas vczes he ncciva j a ra- zao, DE Agricultura. 8/ zao , que fe da para defapedrar as vi- nhas ne , que as pedras fervem de embarago a expedi^ao dos lav ores , e que impedem , que elles fejao feitos com a profundidade , conveniente ; po- rem ella nao he concludente : aflim he que as pedra? grandes tern os ponde- rados inconvenientes , eftas devem ti- rar-fe ; o mefmo le deve praticar com as granitofas , ou quaefquer outras de natureza vitrificavel de qualquer gran' deza , que fejao , porque eftas nunca fe decompoe : fe ellas fao de natureza calcaria , ou de qualquer outra , que fejao fufceptiveis de pronta divilao das fuas partes pelo effeito dos me- teoros , devem deixar-fe , procurando quanto for pofTivel , que ellas fiquem na fuperficie : ellas retem a humidade na terra ; fe fe levantar huma pedra era huma vinha , de que a fuperficie pareca fecca pelo fol , fe achar^ por baixo della humidade , porque tern em- baragado a evapora^^ao da que fe cxiial- la do feio da terra : augmentao o ca- lor muito conveniente para a matu- racao das uvas ; como fao corpos mais denfos do que a term , abforvem hu- ma maior maja de calor, que confcr- vao mais tempo , e com»munica6 k ter- ra , que as cerca : attrahcm mais orva- Iho 88 M E M O R I A S llio do que a terra ; hum corpo mais aquecido attrahe mais orvalho , do que aquelle , que o efta menos : he pois evidente a utilidade das pedras nas vinhas , e nociva a pratica de as defapedrar , porq'ue fuppofto cauzem as pedras alguma demora nos lavQies , •fica efte damno mais que muito re- compenjado com as vantagens , que cauzao. C A P I T U L O VII. Da erguida , em empa. § LIV. A Erguida como Ihe chamao no Alto-Douro, ou empa , como di- zera em outros vinhagos do Reino , he muito util i.° a qualidade do vi- •nho, e 2.° a conferva^ao da vinha : a qualidade do vinho , porquc ficando levantada a vinha da terra em con- veniente altura , he mais bem vilitada •do i'ol j OS feus raios quebrando na ter- ra , que fica ailim mais defcoberta , . reverberao pnra as uvas , que fe aper- i'eijoao com efte augmento de calor ; • jiao iicando os ramos , e frafto das vi- dei- deAgricfltura. 89 deiras eftendidos na terra , nao rece- bem della vapores tao grofleiros , e tao mal digeridos , que facao contra- hir mao gofto as uvas , e que as fa- jao apodrecer ; nem ficao tao privados da luz , a falta da- qual he tao noci- va inefmo a perfeijao das uvas , e a confervajao da vinha i a fubida, e def- cida dos fuccos da videira he pratica- da por vazos longitudinaes difpoftos •verticalmente , e parallelos entre fi , e ao eixo ( §§ V. , e VIII. ) , he pois certo 5 que fe nao encontrarera os fuc- cos algum embarago ao feu curfo , hao de fazer a fua maior irrupqao nas ul- timas extremidades , e por iflb nos bo- 46es fuperiores fe ha de fazer maior vegetacao , e aos inferiores Jia de con- correr menos nutricao , de forte , que deixando a videira a difcricao da na- J tureza , feria ferapre neceffario hir buf- '' car na p6da as varas , que rebentaffem nos ulrimos botoes da ponta da vara do anno anteccdente , tomando affim em poucos annos huma perniciofa ex- tenfao j ifto fe evita com a erguida , com a qual fe faz huma curvadura a vara para que os fuccds nao levem liu- ma direccao redla , e para que de al- gum modo encalhem , e tomem o ca- minho dos primeiros bot6es, forman- do- 90 Memorias do-fe afllm neftas vides perfeitas , que firvao para o anno feguinte fern a rui- nofa extenfao , que fern iito tomariao : moftrada a utilidade , ou para melhor dizer a neceffidade da erguida , veja- mos em que tempo , e como fe ha de fazer. § LV. Depois de feita a cava he que fe deve fazer a erguida ; o melhor tempo de a fazer , e em que melhor fe confe- guem OS fins , para que he feita , he antes que os botoes comecem a en- grofTar , porque le podem menear li- vremente as varas lem o rifco de os perder , que fica ponderado ( § LI. ) , le com tudo iia6 eftiver feita nefte tem- po , deve efperar-fe , que os botoes te- nhao rebentado , e eftejao os oiiios do comprimento de duas' pollegadas , em que ja na6 tern tanto perigo , como quando brotao. Entre os diverfos mo- des de erguida , que tenho encontra- do , fao dous os que geralmente fao mais praticados ; hum a que chamao de rodiiha, ou de pandeiro, que con- fille em efpetar'huma eftaca (68) jun- to a cepa , e curvar em forma de cir- culo a vara , qwe fe ata affim a efta- ca , que nca formando o diametro do cir- DE AgRICULTURA. 9I circulo ; efte methodo na6 fatisfaz a todos OS fins , por iflb nao deve pra- ticar-fe ; o que tenho achado mais con- forme a huma boa theoria , he o que fe pratica no Alto-Douro : entre o ter- ceiro , e quarto botao da vara da par- te da cepa le fonna com a mao hu- ma curvadura , e ahi fe mette huma eftaca bem efpetada na terra , a que fe ata a vide com hum vime no lu- gar da curvadura , de modo que efta fique elcvada , formando hum pequeno arco , em que a feva afcendente en- conrre algum embarngo, para que fu- bindo pelos lanyos dos tres botoes pof- teriores os nutra melJior ^ efta he a ope- rajao mais eflenciai da erguida, que deve fazer-fe bem , e com cautela , pa- ra que a vide nao eftalle , ao encurvar; o rcfto da vara fe deve erguer com ou- tra eftaca na ponta , e outra no meio , ij fe tanto pedir o comprimento da vara ij para que fique fegura , e fe pofla bem luftentar o pezo da rama , e das uvas; deve dar-fe a ponta da vara a elevaqao propria fegundo a figura , e expoficao 1 do terrcno para que toda a videira re- I ceba melhor o fol. ^1 M E M O R I A S § LVI. Hums difcreta defordem na di- rec^ao das varas pode augmentar mui- to a quaiidade do vinho , procurando- fe-lhe na inegularidade das direcfoes a ; cada huma dellas aquella , que melhor convier para que fe nao entrelacem os ramos de hum as com os de outras , e que fiquem encaminliadas para os efpafos mais deibccupados , para que defte modo pofTao as uv.is gozar me- lhor do fol : por efta razao he erra- da , e contraria a boa iheoria a pra- tica de alinhar com muita regularida- de as varas em huma mefma direcjao , ficando a/Iim muitos efpajos vazios demafiadamente , e ourros muitos aba- fados , e impenetraveis ao fol , e a luz , o que nao fo he nocivo a qua- iidade , fenao ainda mefmo a quanti- dade da prodiiccao j deve com tudo preferir-fe fempre a dircc^ao de Nor- te a Sul , quanto a figura do terreno, e as mais circumftancias o permittirem. Aquellas cepas , que forem podadas em galheiros , devem fer fuftidas pcM: huma eUaca forte , para que fe nao in- cline com o pezo dos ramos : as que Scarem fo com hum pollegar no iimo da DE AgRICULTURA. 95 da cepa , ou mefmo redondas no ve- Jiio , devem ler luftidas por huma ef- taca pela mefma razao para que os no- Yos lanjos tao neceflarios para a con- tinuajao da produccao fe abracem com ella , e nao fejao clgachados pelo ven- to , ou pelo leu mermo pezo. C A P I T U L O VIII. Da enxertia. § LVII. POr meio da enxertia das videiras. I'e renovao as vinhas velhas, e de- cadcntcs , e fe confegue defterrar dellas lodas as efpecies , que nao convem , ou por ferem perguijofas , ou impro- '' prias ao terreno , ou a boa qualidade 1 do vinho ; cfte meio he rauito facil , ! e prompio (69) j porque as vezes lo- go no primeiro anno fe colhem uvas das videiras , que as nao produziao , j e he alem dilTo o unico para reduzir I huma vinha feita a produzir as varie- jdades de uvas , que feu dono deze- |ja ter, vindo alFim a fer hum dos meios ■de aperfeigoar a qualidade do vinho. O bom fuceffo da enxertia depende i.*^ da planta ., de que fe ha de enxer- tar ; 94 Memorias tar j 2." do tempo , em que fe enxer- ta ; 3.° da habilidade do enxertador ; 4.** da exac^ao de a cobrir com a ter- ra. A efcoiha .da planta (70) , deve fer feita com muita exac^ao , devem marcar-fe com algumas divizas, quan- do eftao com uvas , aquellas efpecies de videiras , de que fe quer enxertar , para evitar com efla cautela os enga- nos J que pela falta della a mim mef- mo me tern acconteciJo ; chegado o tempo de colher a planta , que deve fer na malor fufpenfao do movimento da feva , que entre nos he no mez de Janeiro , fe devem efcolher fomente vides frudiferas ( § XX. ) , e entre eftas preferir as que moftrarem ter pro- duzido bons caches ( § XLIII. ) , por- que OS ladroes , e rama ( § XX. ) fendo de fua natureza infrucftiferos , ou pouco frufliferos , fervindo para garfo , tern o perigo de produzirem videiras perguicoias , e per iflb fe de- vem rejeitar ; depois de coihida a plan- ta fe deve confervar com tal cautela , que ncm brotem os boroes , ncm feque a planta , ou fe gele , para ifto deve ter-fe toda enterrada em lugar enxu- to , e coberto (71) : fe podeilem pro- porcionar-fe os meios de confervar a planta mefmo nas videiras ate aa'i pon- deAgricultura. 95^ ponto de a empregar iia enxertia , fe- ria muito conveniente (72). § LVIII. Difcordao os praticos fobre o tem- po mais conveniente de fazer a en- xertia , huns dizem , que he melhor fazela alguns dias antes de comejar o movimento da feva no principio da Primavera , porque antes de fubir ha tempo de fe fecharem os p6ros da ponta fuperior do garfo , para por el- la fe nao extravazar a feva ; fera mui- to bom efte tempo ^ mas he difficil de I marcar , porque hum frio agudo , que i fobrevcnha , pode retardar muito mais lO principio do movimento , e ate ge- i lar OS garfos ; nefta materia fo fe po- dem indicar epocas naturaes determi- ; nadas pela melma videira , que fe ha de enxertar : outros dizem que o me- lhor he logo depois de ter palfado o maior impeto da feva ; a eftes acho alguma razao , porque a feva , que en- tao fdbe, ja he em pouca quantidade, . inao tern perigo de fe efgotar a cepa , , e tambcni he mais vifcoia para melhor . Icollar o garfo com o padrao (73) , e ficar bem difpofto para receber a fe- va do fegundo moviaiento em Agof- to 96 Memorias to (74) : o tempo , que a propria ex- periencia me tern moftrado , e feito julgar melhor , he quando os botoes comecao a engrolTar , o que moilra que a feva comeca a entrar em movi- mento ; ifto he o mais conforme as marchas da natureza ; a feva ainda en- tao he mui vifcofa , para fazer collar o garfo , e para obftruir a chaga da. cepa , e o garfo efti nas circumilan- cias de rebentar quando as mais vi- des , e ate de produzir uvas , que amadurem no tempo conveniente (75) ; deve evitar-fe com grande cuidado enxertar por tempo de chuva , ou lo- go depois que tern chovido muito , e ainda mais por tempo, em que fa^a vento vulgarmente dito T^^o , que he. abrazador, e fecca os garfos prompta- mcnte. § LIX. O enxertador deve fer habil , e bem verfado nefta opera ^ao , e fervir- fe de inftrumentos muito affiados ; que cortem promptamente j deve examinar fe a planta efti em bom eftado , e ta- Ihar aquelia porcao de garfos , que po- dera metter em duas horas, trazendo- os em huraa cefta mettidos entre her-^.- vas • D E A G R I GU L T Xr R A. Cff vas verdes ; deve deixar a cada hum dous botoes , que fejao ambos perfei-" tos J e bem nutridos 3 rejeitando as pontas das varas , que fern pre iao del- gadas , e mal nutridas ; depois de el- eavada a cepa na altura de hum palrao , ou mais abaixo do collo § X. , de- ve cortar-re horizontalmente com a Ter- ra de mao , aonde for mais liza , e diftaiite de nos , limpar-fe com a pon- ta do podao da ferradura , e de tu- do aquillo , em que parece puxara la- droes , fender-fe perpendicularmente com Juim inftrumento proprio , abrir- fe a fenda com huma cunha de pao ate quafi ao no , que fica por bai- xo , que a conferve abcrta para fe fazer livremente a opcrafao dc met- ier o primeiro garfo , que deve ter grof- fura proporcionada ao padrao , e a fenda , e fe deve apparar de dous lados em figura propria para ajuftar entre dous raios de circulo dillantes poucos graos j e que efte apparo nao tenha maior comprimento do que a fenda , cortando-fe de hum lado ate ao miollo , e de outro muito menos - com hmna faca curva fe deve limpaj- a fenda das fibras eftaladas, para que o garto mctido perpendicularmente nag encontre embaralTo a unir-fe muito Torn. IL G b-m 98 Memorias bem dos lados com a cepa ; deve fJ- car exteriormente unida a cafca do garfo , e da cepa {jS) , e tirar-fe a cunha , para que a cepa forcejando para tornar ao feu eftado natural , fe ix^z fortemente com o garfo fem ne- ceffidade de fer ligada ; fe com tudo fe poder temer , que a cepa aperte com tanta violencia , que haja de ef- magar , ou expellir o garfo , fe deve levar com a ponta da faca curva a- quelle pao da fenda da cepa , que for necelTano para que o garfo na6 fique comprimido ; depois convem esfregar o c6rte da cepa com terra argiiiacea humedecida para tapar a fahida da fi^va. § LX. Depois de feito o eiixerto deve fer coberto de terra com a maior ex- ac^ao , e cuidado para que fe nao abal- Ic o garfo , que no eftado em que fica , ella expofto a defunir-fe ao mais leve toque ; deve ficar o garfo todo cobero , porque fica com mais humidade , e mais livre dos toques da atmosfera ; porque cria raizes pro- prias , com que mais fe nutre , e os langos que puxa , ficao mais feguros para nao efgalhar ^ a terra com que fe CO- deAgricultura. 99 cobrirem , deve fer Iblta fern miflura alguma de argilla , para que fe na6 fa- ^a tao compadla com o ibl , que nao polTao romper os lanjos i area bem miuda he preferivel , ate porque a ope- ra ^^ao fe faz ma is de preifa , e lem rilco (77) ; fe porem for com lerra , deve fer muito efmiufada , e efcolhi- da de qualquer pedra ; depois de for- mado o monte de terra , ou area que cubra o garfo , e que fe calca em ro- da levemente , fe Ihe efpetao dous ar- cos de vide em cruz , para indicar que alli ha enxerto , e que deve ref- peirar-fe aquelle lugar , e que deve tratar-fe a videira para o futuro co- mo enxerto. Em palfando o S. Joao , fe deve vifitar toda a enxertia , para fe Ihe tirarem todos os Jadroes com tanto cuidado , e cautcla , que fe nao aballe o garfo , ou fe efgalhe algum lanco do enxerto , e eltas viiitas de- vem repetir-fe dalii em diante mais vezcs : fobre o tratamento dos annos feguintes , fe deve cblcrvar o mefmo , que a refpeito do bacello , e das mer- gulhas fe difTe ( §§ XXXVI. XXXVII. XXXVIII. XLVII. ) no que Ihe for ap- plicavel , excepto em corrar as raizes , que lancar o garfo , que fe dcvem confervar : permittindo-o as circumf- G ii tan- 100 • M E M O R I A S tancias , he melhor merguihar os en-« xertos : nunca fera demais que eu re- commende a enxertia , com que ate fe pode confeguir o emendar os defei- tos de algumas efpecies (78) , CATITULO IX. Da Opera fao de esfolhar , efpampar , e capar a 'vinha, § LXI. DO que fica dito ( §§ XVII. , e XVIII ) fe conhecebem quanto he perigofa a pradiica de esfolhar , e ef- pampar as vinhas ; alFentando, que as folhas das videiras fao feus effencia- liiUmos orgaos de rranfpiracao , e afpi-' rafa6 j e como eftas duas funccoes fe fazem narazao da quantidade , e gran- deza das folhas , he bem certo que ha de diirsinuir na razao da quantidade das folhas , que fe Ihes tirarem ; por ifTo eu fo permittiria esfolhar algumas videiras raq vicofas , que exprelTamen- te moftrairem huma ta6 exceifiva nu- tricno , que Ihes embaraiTafle vingar o fruifto , neftas deveria tirar-fe alguma porcao tie folha corrada com a unha , ou com a tizoura , de modo que Ihts fi- DE Agricultura. loi! ficafle pegada parte do pezinho , pa- ra que ao botao nao faltaflTe aquelle amparo ( § XVIII. ) ; no cafo tambem de tanta folha , que embarafTaffe pe- netrar a luz aos cachos , conviria eC- folhar , de modo que fe praticalTem entradas a luz : tirando-fe maior quan- tidade de folha do que convem , por pouca que leja , he certo murcharem as uvas antes de amadurar , ficarem os botoes mal nutridos , e as vides por aperfeicoar , de modo que nao fo fe perde a colheita , mas ate a vinha : o Abbade Rozier aconfelha esfolhar quando as uvas tern chegado quail ao ponto da fua maiureza completa (79) , porem he difficultofo achar eile pon- to , e errando-fe he o damno fern re- medio.. A pratica de efpampar , ifto he , de tirar a videira os ladroes , e OS ramos , que nao tern frudlo, tam- bem a julgo mais perigofa do que util , por felicidaJe he ella pouco co- nhecida no Alto Douro ; eu fo a ad- mittiria no cafo de terem rebentado muitos ladroes no tronco , e no joe- Iho da videira , deixados dous mais Irigorofos , e feguros , de que fe po- defTe tirar utiiidade ( § XLIII. ) , dei- xaria tirar todos os mais , depois de t2r parado o movimento da primeira fc- 102 M E M O R I A S feva , e de eftarem as uvas vingadas. Ainda he mais defconhecida enrre nos a pracflica de capar as vinhas (80) tao recommendada pela maior parte dos Oenologiftas Francezes , e de que em lugar de fe tirar o proveitp , que elles inculca6 , fe tira iomenrc o damno de fe encherem os ramos capados de enrre^ folhas ( nor. ^2) , que muitas vezes fa-^ ?em abortar os botoes , que Jhes ficao na baze ; e que alem dilto efgotao muito mais as videiras , e fazem damno ao tiu- dlo i cfta opeiacao , que eu I'empre repu- te nociva , dcve com tudo praricar-lo nos bacellos , mergulhas , e enxertos n^ f6rma recommendada na (not. 44) . CAPITULO X. Da velh'rce , e das enjermidades da vinha , e dos infe^ios , que Ihe fao nochos. § LXII. ' AInda que a videira feja de hu- ma immenfa duragao ; chega com tudo a envelhecer , e a enfraquecer- fe , nefte eftado precifa fer tratada com maior dilVelo i a mefma terra canjada de receber , e dar tantas vezes OS deAgrictjltura. io^ OS principios da vegetagao fe faz mais rebelde a efta acjao , e reacfa6 , he pois neceflario reparar de algum mo- do a fua forga perdida. Nao deve defanimar ao vigilante Cultivador o ver as fuas vinhas velhas, e enfraque- cidas , ainda ha remedios que minif- trar-Ihes , deve tentallos : a enxertia ( § LVII. ) he o modo mais conveniente de as renovar ; porque fe o vigor da ce- pa nao eftd de todo extinifto , ou pe- ga o enxerto , ou rebenta a mefuia cepa junto a terra , ou fica ainda ver- de , e nos termos de fe Ihe renovar a enxertia no anno feguinte , efcavan- do-a mais profundamente , e cortan- do-a mais abaixo; fe a cepa nao tem padrao capaz de rcccber o garfo , de- ve deixar-fe efcavada para que reben- te \ de qualquer dos ditos modos que a cepa rebente , eUa em principio de poder confider.^r-fe renovada , e fe de- ve tratar como dilTe ( § LX. ) ; fe corn tudo de nenhum dos fobreditos modos a cepa rebenta , he certo que o feu def^^ fallecimento era irremediavel , e deve fer fubftituido o feu lugar com mer^ gulha de algum dos enxertos , que pe- garao , ou das cepas que rebentarao ; efta oper^jao das mergulhas , que nef- ^s calbs he ta6 necelTaria , e frequen- ce, 104 Memorias te , fera hum dos bons meios de re- parar a forja da terra para receber, e dar os principios-da vegetaca6 , pois que a terra virgem , que I'e revolve para a fuperficie , e que fica expofta ao ar , attrahe com maior forja os principles da vegetafao ( nor. ^S) , e correndo para as videiras , que- ficao vizinhas a mergulha , as beneficia , q Ihes rellaura 4s forcas perdidas. § LXIII, He pois muito conveniente nefte cafo procurar quanto for poflivel re-. volver a terra virgem (not. 58) para a lliperiicie laibrando-a (81) , renovan^ do-lhe , ou fazcndo de novo calcos (82) ; convem crear o humus ^ ou tcr-r ra vegetal , para o que nad defcubra melhor meio do que o de femear a ter- ra ih trcmocos para os cnterrar quan- do ellao com muita rama , e na for- ca da vegetaca6 (83) , e-fte meio he de huma decidida utilidade fern in^^ conveniente algum : tambem nao he para deiprczar o de cortar as vides muito miudas , e de as enterrar , de que jci fe lembrou Catao (84) : as cin- ?as lancadas fobre a terra junto a vi- flf ira ;, quando principia a lanqar fo-. Iha i DE AgRICULTURA. 105: Iha , reftaurao muito a fua forfa per- dida (85-) : os eftercos iao o meio mais efficaz de fe ferdlizar a terra ; porem nas vinlias fao maiores os in- convenientes do que as uti]idades , que caufa (86) : as terras incultas conduzi- das para as vinhas , e a poeira das eftradas fao meios uteis , ainda que allaz difpendiofos , por iflb fe deve confiderar , fe a utiJidade correfponde- ra a defpeza : o lodo das bordas dos rios convem muito 5 porque quafi tu- do he humus : o m^irne nao convem a todas as terras , por ifTo he necelTario difcernimento para o ufo dclle , alem diflb he mui pouco frequente em. as nolTas Provincias. § LXIV. I ' A vinhn , como as demais plantas , tambem padece enfermidades humas ciiraveis , outras incuraveis , e mortaes ; iao muitas as niezinhas , que acho ef- critas para curar as doen^as das videi- ras , e que na pratica de ordinario fe reduzem a nada , como a experiencia I , me tern moftrado ; a mefma pratica I me tern feito reduzir as doen^as das 1 videiras a tres ciaiTes pela fua fituagao : 1 cllas cu fao nos ramos , ou na cepa , ou |o6 . Memorias ou nas raizes : nos ramos podem pro- ceder da geada , ou de hum a forte ia- raiva , ou de golpes de fol ardente fi- cando os botoes deftruidos , e as vides feridas , ou por atempar ; na poda he que fe remedea o mal , que os ramos tern padecido , deixando-a muito cur- ta , de modo que fe atrenda ma is a confervajao da vinha , do que produc- cao das uvas daquelle anno: na cepa iao OS tumores , as excrecencias , as gommas , os cancros , a que fe deve ap- plicar o remedio ( § XLV ) , ou a cepa efta carcomida , e nefte cafo deve cor- tar-fe junto a terra paia que alii reben- te , e fe renove livre daquelia doen§a. § LXV. As moleftias , que a videira con- trahe nas raizes fao as mais das ve- zes incuraveis , ou ao menos de mui difficultoza cura ; fe huma videira fe ve enferma , ou porque nao puxa con- veniente rama , ou porque a folha fe faz amarelia , ou vermelha , e fecca antes do tempo , nao fc vendo caufa externa da parte dos meteoros , ou fe. Ihe nao defcobre doenja na cepa , he final evidente de que a enfermidade exifte nas raizes , e fe deve efcavar pro- DE AgKICULTURA. lOJ profundamente para fe examinar aonde efta o mal , que o mais das vezes pro- cede de tcr lido efmsgada alguma das raizes principaes com pancadas do en- x.^.ciafi ao dar-lhe os lavores ; efta ef- magadura , que nao foJda , deixa ef- tiavazar a feva , conrrahe podridao , que muitas vezes fe communica ao to- do ; he pois neceilario coitar-liie com o podao toda a parte gangrenada, fi- cando bem apparada no fao para que folde J tambem outras vezes procede de terem recofido , e apodrecido qua- fi todas as raizes \ porque a vinha he pouco , ou nada inclinada , e o feu fundo he argjllaceo , que nao deixa pe- netrar a agua , fica ellagnada , e da- qui precede a podridio das raizes j para efte mal he difficultola a cura , com tudo devem limpar-fe de roda a podridao , e praticarem-fe por entre a vinha vailados , por onde a terra fe ij defonere da exceiliva humidade , para [| ficar nos termos de poder extender as li raizes , que Ihe reftao fans , e refla- ! belecer-fe por meio dellas i todas as j mais enfermidades , ou fe remedeao pelos esforjos da natureza , ou fao in- Wiraveis pela arte. I08 M E M O R IAS § LXVI. A videira rem huma grande mul- tida6 de inimigos em os infecftos, que Ihe tern declarado guerra ; os prin- cipaes fao o pulga6 , o perilliao , a aranha , o bifouro , a abelha , o cara- col : o piilgao , e o perilliao , que I'o tem a diiferenf a , de que no eftado de